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Estado de Minas

Músicos batem papo no YouTube e se aproximam do público

Nomes da MPB e do rock impulsionam seus canais na plataforma de vídeos durante a pandemia com conteúdos que vão além das canções


postado em 28/05/2020 04:00

No YouTube desde 2009, Nando Reis publicou na semana passada vídeo em que falou da dor de perder o pai, falecido no último dia 14(foto: Fotos: YouTube/reprodução )
No YouTube desde 2009, Nando Reis publicou na semana passada vídeo em que falou da dor de perder o pai, falecido no último dia 14 (foto: Fotos: YouTube/reprodução )

Nando Reis está no YouTube desde 2009. Com o apoio de uma equipe profissional de produção, o canal do cantor e compositor somou mais de 900 mil inscritos e 167 milhões de visualizações.

Aos 57 anos, Nando está à vontade em vídeos bastante “blogueirinhos”, como o hit 50 fatos sobre mim. Na plataforma, ele já contou as histórias de suas músicas de maior sucesso, de sua amizade com Cássia Eller, de seu romance com a esposa Vânia e até das suas tatuagens.

Durante a quarentena, Nando Reis vem publicando dois vídeos por semana. Na semana passada, ele abordou a morte do seu pai, falecido no último dia 14. “Vou falar sobre a falta. Não apenas por conta deste momento de reclusão, mas especialmente por uma razão estritamente pessoal e de forte cunho emocional, que foi a morte do meu pai”, disse, emocionado. O vídeo tem quase 30minutos de duração e ultrapassou as 100 mil visualizações.  

Em setembro de 2019, Dinho Ouro Preto, vocalista do Capital Inicial, fez sua estreia na plataforma, com o propósito de “unir todas as tribos” em sua conta. “Sempre quis um canal direto de diálogo com as pessoas em que eu pudesse falar sobre coisas que me interessam e das minhas experiências”, afirmou, sem esconder a empolgação, no vídeo intitulado Por que estou lançando meu canal de YouTube.

Contando com produção de padrão profissional, o vocalista, de 56, publica vídeos semanalmente, gravados no seu estúdio em casa, esbanjando seu alto-astral. O canal tem 67,9 mil inscritos e já superou 3 milhões de visualizações. 

“Minha amizade com Renato Russo”, “Os vocalistas gringos de que mais gosto”,  “Seis vocalistas que me inspiraram no rock nacional”, “Dicas de como parar de fumar” e “Minha paixão pelo skate” são alguns dos temas já abordados.   

Um dos vídeos de maior destaque foi publicado no último 27 de abril. Em “Como sobrevivi ao coronavírus”, Dinho descreve detalhadamente sua experiência de infecção pela Covid-19, desde a contaminação até o processo de recuperação. 

Dinho Ouro Preto contou sobre sua experiência com a COVID-19 e disse que foi a pior doença que já enfrentou
Dinho Ouro Preto contou sobre sua experiência com a COVID-19 e disse que foi a pior doença que já enfrentou


SURREAL 

“Tive uma experiência surreal com o vírus”, contou. “De todas as doenças que já peguei ao longo da minha vida, essa foi, de longe, a pior. Foi a mais forte e a mais difícil de vencer”, descreveu no vídeo, que superou 300 mil visualizações e 21 mil curtidas.

João Gordo, vocalista da banda Ratos de Porão, estreou seu canal “Panelaço” em 2014. Com a proposta de produzir programas de “entrevistas e culinária vegana”, o roqueiro recebia convidados semanalmente para fazer bater um papo bem-humorado, enquanto um chef preparava um prato vegano. Ao final,  João Gordo e o respectivo convidado degustavam a comida. 

“As histórias mais loucas e as receitas mais iradas da culinária vegana do João e de seus convidados você encontra aqui no Panelaço”, afirma a descrição do canal, com mais de 295 mil inscritos.

Mano Brown (Racionais MCs), Djonga, BNegão, PC Siqueira, Andreas Kisser (Sepultura), Ronnie Von, Fernando Haddad e Manuela D’ávila foram alguns dos convidados da última temporada do webshow. Na descrição dos vídeos, o roqueiro disponibiliza a receita e os ingredientes do prato degustado no programa. A projeção (22 milhões de visualizações ao todo) fez com que duas marcas de renome passassem a patrocinar o canal.

Durante a quarentena, João Gordo teve que reestruturar o formato dos programas. Sem poder receber convidados, ele vem fazendo entrevistas on-line semanalmente, mas sem a degustação de pratos. 

No entanto, a culinária não fica de fora. Com o objetivo de continuar divulgando o veganismo, vídeos gravados remotamente pelos chefs apresentam receitas “simples, fáceis e que qualquer um pode fazer em casa”.

O metaleiro Kiko Loureiro, ex-integrante do Angra e atual guitarrista da banda norte-americana Megadeth, publica conteúdos em seu canal no YouTube desde 2007. Vídeos abordando suas canções favoritas, como ter sucesso na carreira musical, dicas para guitarristas, como encontrar os fãs da sua banda, mitos que impedem você de viver da música e as explicações sobre “por que passei 20 anos sem conversar com Andreas Kisser” são alguns dos temas presentes no canal. 

Em fevereiro, Kiko gravou um vídeo celebrando a notícia de que a música Black widow’s web, do Angra, alcançou a lista “50 virais do Brasil” no Spotfy. “MC Neguinho, MC Loma e as Gêmeas da Lacração dominam tudo?? Nada disso! Parabéns ao Angra por essa conquista! Nem tudo tá dominado, nem tudo está perdido. Marketing da bunda não segurou a força da nova música do Angra”, provocou o metaleiro, na descrição do vídeo.
 
Bastidores Fazendo parte do Megadeth desde 2015, Kiko Loureiro já publicou diversos vídeos com bastidores da banda em turnês e ensaios. No material, é possível ver a relação do guitarrista com o líder do grupo, Dave Mustaine, além de momentos de descontração no backstage. Para se comunicar com o novo público, Kiko adotou a língua inglesa nos vídeos envolvendo a banda. 

Antes da pandemia, o Megadeth se encontrava em turnê pela Europa. Com os shows cancelados, o guitarrista continua publicando vídeos no confinamento. Entre eles, três episódios da websérie História das antigas. No último dia 14, abordou o lançamento de seu quinto álbum solo, divulgando uma campanha de financiamento coletivo e agitando os 470 mil inscritos do canal. 

O guitarrista Kiko Loureiro continua publicando vídeos na plataforma, após a interrupção da turnê do Megadeth pela Europa, em razão da pandemia do novo coronavírus
O guitarrista Kiko Loureiro continua publicando vídeos na plataforma, após a interrupção da turnê do Megadeth pela Europa, em razão da pandemia do novo coronavírus


Influência além da música

“O fato de os músicos estarem privados do palco faz com que eles tenham a necessidade de produzir outras coisas e não ficar completamente isolados”, afirma Joanna Ziller, professora do Departamento de Comunicação da UFMG. 

O YouTube tem mais de 2 bilhões de usuários em todo o mundo, estando presente em mais de 100 países, de acordo com dados da própria plataforma. O site de armazenamento e compartilhamento de produtos audiovisuais se tornou um dos mais acessados do planeta, com mais de 1 bilhão de horas de conteúdo assistidas por dia pelos internautas. O número de canais com mais de 1 milhão de inscritos cresce 65% ao ano, segundo a plataforma.

MONETIZAÇÃO 

Estudiosa do fenômeno YouTube, a professora da UFMG diz que é muito difícil youtubers ficarem ricos por meio da monetização da plataforma. “As pessoas acham que abrir um canal no YouTube significa ganhar muito dinheiro, mas, para uma celebridade dessas, dificilmente será.” Segundo ela, os vlogueiros garantem sua renda com oportunidades de trabalho geradas pelo seu sucesso na plataforma.

Ela observa ainda que o fato de os músicos publicarem vídeos abordando aspectos da vida íntima acaba conquistando a simpatia do público e uma ideia (enganosa) de intimidade com o artista. “As pessoas se sentem mais próximas e têm a sensação de que participam da vida deles, o que obviamente não é real. Mas essa sensação existe e hoje é muito valorizada”, afirma. 

Joana também percebe a tendência de artistas já famosos utilizarem sua imagem para abordar temas relevantes na sociedade, a partir de conteúdos publicados nas principais plataformas digitais. “São figuras usando a própria popularidade para se tornarem personagens de uma cena que não é a musical nem a artística. Ainda que a gente tenha esse movimento no Brasil mais recentemente, no Twitter isso já ocorre há muito tempo. A diferença foi a ampliação desse fenômeno para o YouTube”, aponta.

*Estagiário sob supervisão da editora Silvana Arantes

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