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Estado de Minas BIOGRAFIA

As memórias do sobrevivente Luiz Thunderbird

Um dos apresentadores mais carismáticos da pioneira MTV brasileira lança livro sobre sua trajetória musical e a experiência com as drogas, que quase o mataram em 1997


postado em 26/05/2020 04:00

Luiz Thunderbird se formou em odontologia, fez sucesso na MTV e criou duas bandas de rock(foto: Kelly Fuzaro/MTV/divulgação)
Luiz Thunderbird se formou em odontologia, fez sucesso na MTV e criou duas bandas de rock (foto: Kelly Fuzaro/MTV/divulgação)

Existia vida por trás dos aparelhos ligados na MTV. Muitas vidas, algumas tão ou mais instigantes do que a biografia dos próprios artistas entrevistados pela pioneira musical no país, reconhecida por formar uma geração de estrelas e de ouvintes nos anos 1990, mas que ninguém via. Até que o tempo faz seu trabalho, perdoando pecados, absolvendo delitos e deixando tudo mais leve para que o então VJ Luiz Thunderbird colocasse no papel as próprias memórias.

Thunder, de 59 anos, lança um livro com suas lembranças de forma cronológica, como uma biografia, passo a passo – dos primeiros anos ao som de jazz, MPB e do violão Di Giorgio Classic que ganhou de presente aos 8, e que conserva até hoje, aos planos que ainda pode fazer. Duas pontas preenchidas por períodos de euforia com pesadelos que não imaginou tão terríveis e sonhos com os quais nunca sonhou, como ter estudado odontologia e aberto um consultório para viver como dentista, ser VJ e formar uma banda em 1985, a Aerosol, e outra em 1986, Devotos de Nossa Senhora Aparecida, para dar vazão à paixão pelo rock and roll.

O livro se chama Contos de Thunder – A biografia, o mesmo nome do programa que ele apresentou em seu retorno à MTV, em 1996, às vésperas de sua visão com relação a algum futuro sem as drogas se tornar tão turva a ponto de fazê-lo simplesmente esperar pelo momento da morte.

Escrita com a colaboração dos jornalistas Mauro Beting e Leandro Iamin, a publicação rende uma história por si só. Thunder já pensava em lançar suas memórias desde 2010, quando estava “desiludido com a MTV e não conseguia ver um futuro”. “Foi muito bom que as coisas tenham acontecido daquele jeito”, diz Thunder. Um ano antes, ele havia conhecido Beting, que estava começando a escrever a biografia de Nasi, o vocalista do Ira!, com ajuda de Leandro Iamin. O VJ começou a narrar suas histórias a Beting e, juntos, realizaram encontros entre 2013 e 2016, quando o jornalista perdeu todas as gravações.

Sem o material gravado das lembranças, mas com cada linha delas na memória, Thunder resolveu escrever em primeira pessoa, recriando o passado com a ajuda dos irmãos, da mãe, de parentes, amigos e das pesquisas que pôde fazer. Quando havia reunido um bom calhamaço e refeito sua trajetória até 2014, perdeu tudo depois que o computador sofreu um colapso.

REVISÃO

Já tomando a publicação da própria história como questão de honra, Thunder começou tudo de novo. “Escrevi este livro quatro vezes”, ele conta, dizendo que haveria ainda a quarta, no momento de fazer a revisão devolvida pela editora.

O tempo parece ter jogado a favor de Luiz Thunderbird. Mesmo em episódios mais drásticos, e em outros onde poderia usar o momento da publicação para se vingar dando nome aos bois, Thunder foi tão impetuoso consigo mesmo quanto criterioso a citar ou não nomes de terceiros. Ele pensa assim: “Esta é a minha história que quero contar, não sei se os outros que passaram por ela gostariam de aparecer. Não sei o que estão fazendo hoje, não sei se o cara que tomou ácido comigo quer aparecer tomando ácido no livro. Procurei, mesmo, não expor.”

O drama de sua história dispensa coadjuvantes. Thunder soube que chegava ao fundo do poço no dia em que João Gordo, à época um dos roqueiros mais entorpecidos do meio, outro ex-VJ da MTV, se preocupou com seu estado de saúde. O livro caminha do menino ingênuo em direção ao adulto-problema em uma escalada autodestrutiva. “Minha relação com as drogas teve o namoro, o noivado, o casamento, o divórcio e algumas tentativas de reconciliação que não rolaram” conta.

O ano de 1997 é lembrado como o epicentro de sua tragédia pessoal, depois de passar o Natal se drogando no quarto, usando a freebase, poderosa substância química capaz de provocar um redemoinho cerebral, enquanto a família se confraternizava na sala. “Ali, achei que fosse o fim, que não iria escapar. Tive muita sorte de ter um amigo que havia acabado de sair desta naquele exato momento.”

Nasi era este amigo. Sem que Thunder soubesse, o cantor falou com a família dele sobre a Vila Serena, centro de tratamento que havia tirado tanto Nasi quanto Renato Russo de dias piores. Por lá passou também Raul Seixas.

Falido, Thunder precisou pedir empréstimo no banco para seguir seu tratamento. “Quando fiquei limpo, deixei muito claro para as pessoas. Os amigos que seguiram usando (drogas) se afastaram e alguns outros duvidaram de que eu estivesse mesmo sem usar”, revela. A tênue linha que segura um ex-dependente, o trabalho, se rompeu por algumas vezes, quando programas que lhe davam grande prazer, como o Contos de Thunder, foram descontinuados e ele, demitido.

Porém, o quesito sorte, santo, ou seja lá o que for, pareceu sempre ao lado de Thunderbird nos 14 anos em que lutou nos altos e baixos de Vila Serena. Apesar de dizer que a MTV foi a maior aventura de sua vida, as pessoas que ele cita na longa lista de agradecimentos, sobretudo o pai, a mãe e Nasi, diriam que essa aventura foi outra. (Estadão Conteúdo)
(foto: GLOBO LIVROS/REPRODUÇÃO)
(foto: GLOBO LIVROS/REPRODUÇÃO)

CONTOS DE THUNDER – A BIOGRAFIA
• De Luiz Thunderbird
• Com Mauro Beting e Leandro Iamin
• Globo Livros
• 392 páginas
• R$ 49,90


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