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Netflix lança nesta segunda (25) a série que traduz o nosso tempo

'Expresso do amanha', adaptada de longa-metragem do diretor de 'Parasita', mostra o caos da sobrevivência humana após a devastação do planeta


postado em 24/05/2020 04:00 / atualizado em 23/05/2020 22:22

Uma catástrofe ambiental gelou o planeta e obriga o trem a se manter em movimento constante para que os passageiros não congelem Uma catástrofe ambiental gelou o planeta e obriga o trem a se manter em movimento constante para que os passageiros não congelem (foto: Fotos: NETFLIX/DIVULGAÇÃO)
Uma catástrofe ambiental gelou o planeta e obriga o trem a se manter em movimento constante para que os passageiros não congelem Uma catástrofe ambiental gelou o planeta e obriga o trem a se manter em movimento constante para que os passageiros não congelem (foto: Fotos: NETFLIX/DIVULGAÇÃO)
ão poderia haver momento mais favorável para a estreia da série Expresso do amanhã, produção em 10 episódios que a Netflix lança nesta segunda-feira (25). A distopia reimagina um mundo confinado, em que os 3 mil sobreviventes de um apocalipse climático na Terra vivem em um trem que roda o planeta sem parar. Mais: traz como chamariz o cineasta mais falado deste ano e do anterior.

O sul-coreano Bong Joon-ho, de Parasita, grande vencedor do Oscar 2020, com quatro estatuetas (incluindo as de melhor filme e diretor), é um dos produtores-executivos da série, desenvolvida a partir de seu filme homônimo, lançado em 2013. Expresso do amanhã é o primeiro longa-metragem de Joon-ho falado em inglês.

Série e filme têm como ponto de partida uma célebre graphic novel francesa, O Perfuraneve (1984), da dupla Jacques Lob e Jean-Marc Rochette. A Editora Aleph publicou em 2015 uma edição completa dessa narrativa, incluindo a inicial e suas duas sequências – O explorador (1999) e A travessia (2000) –, essas duas de autoria do francês Benjamin Legrand.

Ainda que mudem o formato e o tratamento, a gênese da narrativa é a mesma. Perfuraneve em português, Snowpiercer em inglês, é um trem com 1.001 vagões (16 quilômetros de comprimento) que parte de Chicago para tentar salvar a humanidade. Ele roda o globo sem paradas – caso deixe de se movimentar, será dominado pelo gelo que consumiu a Terra após um desastre ambiental. Só que, para que a experiência seja bem-sucedida, lei, ordem, hierarquia, divisão social, nada pode estar fora do lugar.

O responsável pela série é Graeme Manson, mais conhecido por outro drama sci-fi, Orphan black (2013-2017). Para ganhar o formato serial, a narrativa original desenvolveu subtramas e nuances novelescas. O elenco é encabeçado por Jennifer Connelly, em ótimo momento como uma mulher competente e machucada, e Daveed Diggs, ator, rapper e produtor mais conhecido pelo musical Hamilton, da Broadway, que lhe rendeu um Tony e um Grammy. A dupla reprisa os papéis que foram no cinema de Tilda Swinton e Chris Evans.

Jennifer Connelly e Daveed Diggs interpretam os protagonistas, que foram vividos na versão cinematográfica da história por Tilda Swinton e Chris Evans
Jennifer Connelly e Daveed Diggs interpretam os protagonistas, que foram vividos na versão cinematográfica da história por Tilda Swinton e Chris Evans


EMPRESÁRIO 

No trem, os dois têm função semelhante, mas totalmente oposta. Connelly é Melanie Cavill, braço direito do Sr. Wilford, o empresário visionário que criou o Snowpiercer para salvar a humanidade. É a voz de Melanie que ecoa diariamente nos 1.001 vagões, ditando o dia e o horário, e as novidades. Ninguém vê o Sr. Wilford, tudo vem diretamente de sua porta-voz.

Com a voz suave, porém determinada, Melanie comanda os passageiros da primeira, segunda e terceira classes. As duas primeiras são ocupadas por pessoas que compraram passagens. A terceira, pelos trabalhadores que fazem a máquina funcionar, seja labutando na agricultura ou na pecuária (sim, o mundo lá fora cabe no Snowpiercer).

É no fundo, literalmente, que reside o problema, pelo menos aos olhos dos ocupantes das classes superiores. Quando o trem deixou a estação de Chicago, centenas de pessoas tentaram embarcar à força. Muitas não sobreviveram à ferocidade dos soldados. Mas 400 continuam ali, passados sete anos do embarque e a despeito das doenças, do frio, da fome. Não são a quarta classe, são os “fundistas”.

Não precisa ser um expert na obra de Boon Joon-ho para entender o que fascinou o cineasta. O abismo social, tema central da obra do sul-coreano, é o que move Expresso do amanhã. Se o filme trata de forma alegórica (e violenta) da relação daqueles que têm e daqueles que não têm, a série traz menos sutilezas.

No fundo, Andre Layton (Diggs) é uma figura respeitada, uma referência moral entre aqueles que se viram desprovidos de tudo. Eles querem fazer uma revolução, mas não há meios, pelo menos por ora. Uma ajuda do destino acaba colocando Layton fora das gaiolas do fundo.

Um corpo desmembrado apareceu na parte inicial do trem. Layton é o único policial entre os 3 mil passageiros (era detetive da polícia de Chicago antes do fim do mundo). É tirado de seu lugar para averiguar o ocorrido e logo se dá conta da presença de um serial killer no Snowpiercer.

Já adiantando um pouco, isto será apenas uma desculpa para que o personagem descubra o funcionamento e a hierarquia do trem. Layton quer é fazer uma revolução e libertar o povo do fundo. Vai aprender, na marra, que para fazer política é necessário bem mais do que um grande coração.

Com as cartas na mesa, Expresso do amanhã vai, a cada episódio, explorando uma nuance das relações humanas em uma situação extrema. No início de cada capítulo, um personagem faz uma pequena narração em off, antecipando o que será visto na hora seguinte.

Os dilemas morais (e a falta deles) estão em vários personagens secundários, que ganham e perdem protagonismo à medida que a narrativa avança. É fácil fazer uma relação com o mundo aqui fora, independentemente de onde estiver o espectador.

O Snowpiercer conta com uma força policial, que lida, principalmente, com o dia a dia do fundo. Estes não têm direito de portar armas de fogo. Acima deles estão os paramilitares, que chegam com toda a força e passam como um trator por cima daqueles que os ameaçam (e, sim, a série tem uma sequência de batalha que se esmera em membros arrancados e sangue jorrando). Para aqueles do fundo que tentam medir forças, só há duas opções: a morte ou, em casos mais comuns, a amputação de um dos braços (e essas são as cenas de maior violência que a série exibe).

A elite se entedia com a vida de fofocas no café-restaurante, e sua preocupação maior é se a carne está no ponto ou não. Há também o vagão-leito, uma boate/bordel com salas escuras que não servem exclusivamente para sexo, mas para tentar encontrar as memórias de um passado distante. Entre os terceiro-classistas está o submundo, com o tráfico de kronole, a droga existente no trem.

No fundo do trem vivem 400 pessoas que trabalham para o seu funcionamento e não têm nenhum direito assegurado
No fundo do trem vivem 400 pessoas que trabalham para o seu funcionamento e não têm nenhum direito assegurado


CLASSE 

Mudar de classe é muito difícil, mas viável por meio de um relacionamento amoroso, por exemplo. Um contrato assinado pelas duas partes dá acesso ao mundo da classe superior, tal como se fosse um contrato de casamento. Democracia não há. No regime autocrático imposto por Wilford, quem tem direito é quem detém as posses. Quem está de fora só existe para manter a máquina em funcionamento.

Expresso do amanhã chega ao final da primeira temporada deixando questões sem resposta e o caminho aberto para a segunda, já confirmada. Mesmo para quem já assistiu ao filme original, pautado por um combate contínuo, a série, ainda que com algumas situações banais e dramas que não chegam a empolgar, consegue expandir o universo da narrativa. Mais importante, a produção “conversa” com espectadores do mundo inteiro, que, a despeito das diferenças sociais, culturais, políticas e econômicas, encontram-se enclausurados neste momento.

EXPRESSO DO AMANHÃ
Série em 10 episódios na Netflix. Nesta segunda (25), estreiam os dois primeiros; os demais serão lançados semanalmente.

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