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Cantora do futuro lança álbum grudado no presente

Britânica Charli XCX, vista como o nome que define o que será o novo pop, libera nesta sexta (15) um disco inteiramente feito durante sua quarentena, nos EUA


postado em 15/05/2020 04:00

Charli XCX posa para foto antes do desfile da estilista Vivienne Westwood na Semana de Moda de Londres, em 2016 (foto: Leon Neal/AFP)
Charli XCX posa para foto antes do desfile da estilista Vivienne Westwood na Semana de Moda de Londres, em 2016 (foto: Leon Neal/AFP)
Desde que chegou aos ouvidos do grande público com o disco True romance (2013), Charli XCX, de 27 anos, vem produzindo um eletro-pop futurista que facilmente pode ser considerado o “som do amanhã”. Esse paradigma talvez não sobreviva diante de seu novo álbum, How I'm feeling now (Como estou me sentindo agora), previsto para chegar às plataformas digitais nesta sexta-feira (15).
Produzido durante a quarentena que ela realiza em casa, em Los Angeles, nos Estados Unidos, o disco da cantora e compositora inglesa tem músicas que versam sobre o presente e foram feitas com os recursos que ela tem à mão nessa situação de isolamento.

“Vou usar esse tempo de isolamento para criar um álbum do zero”, anunciou Charli em um vídeo postado em suas redes sociais, no início do mês passado. “Usarei somente as ferramentas que tenho em casa para criar todas as músicas, capas e vídeos. Tudo. Nesse sentido, ele será muito 'faça você mesmo'.”

A bricolagem vem causando furor, principalmente por se tratar da criação de uma compositora respeitada no pop, conhecida por hits como Boys, 1999, Boom clap e I love it, fruto da colaboração com o grupo sueco Icona Pop.
Nesse processo, ela está se posicionando no lado oposto ao dos artistas que passam meses a fio selecionando material, gravando e produzindo ensaios fotográficos para, no fim, entregar um trabalho fechado ao público.

Charli adotou a transparência para pôr o trabalho no mundo – o que, no primeiro momento, poderia escancarar suas fragilidades, tem sido considerado um bom passatempo por ela e por seus fãs. Pelo Twitter, ela os atualizou sobre ideias de letras; via Instagram, tocou “demos” ao vivo e, em seu programa de rádio no serviço de streaming da Apple, a Apple Music, ela compartilhou uma série de informações sobre o trabalho.

MENSAGENS 

E isso não é tudo. Charli também postou uma série de fotos das mensagens que trocou com os produtores com quem vem trabalhando, realizou conferências de vídeo com todos os envolvidos no projeto e ainda recrutou os fãs para criar as artes de capa, vídeos e remixes do álbum.

“Parte de mim está (pensando): 'eu não sei por que não fiz um álbum como esse antes'”, disse a cantora à BBC News. “É tão divertido e agradável trabalhar assim.”

Ao anunciar o projeto, Charli XCX disse aos fãs que “a positividade anda de mãos dadas com a criatividade”. Entretanto, isso não significa que ela esteja imune aos dias difíceis que eventualmente surgem na qua- rentena. “Ontem eu chorei”, admitiu ela em um vídeo. “Senti que estava demandando demais das pessoas que estão trabalhando comigo – pressionando-as a fazer coisas durante a quarentena quando, talvez, algumas delas queiram, na verdade, relaxar.”

Mas, até agora, os resultados estão entre os melhores trabalhos da cantora. Os três singles liberados antes do lançamento revelam o talento da artista como compositora de melodias grudentas, que, quando associadas à produção inclassificável e sem precedentes pela qual ela já é conhecida, mostram que Charli é, sim, a pop star do futuro.

Prova disso é Forever, cuja letra não passa ao largo de qualquer composição açucarada assinada por Taylor Swift, por exemplo, mas que a sonoridade industrial e a referência ao noise pop não encondem a vontade da artista de construir um universo próprio, cheio de idiossincrasias. “Te amo para sempre”, ela canta, “mesmo quando não estamos juntos”.

Claws, o segundo single, gira em torno do refrão “Eu gosto de tudo sobre você”. A capa, escolhida pelos fãs, traz temas tropicais com obras de arte igualmente tropicais para combinar com a letra: “Eu não sou tímido, faço você suspirar/ escorregar e deslizar pelas minhas coxas/ suculentas como mexericas/ desculpe se eu faço você chorar”. Uma joia pop.

TERAPIA 

Na última faixa liberada antes do lançamento, I finally understand, ela aborda abertamente suas sessões de terapia e promove uma conversa franca sobre seus sentimentos. Tudo isso sem deixar de fora os vocais sintetizados e as batidas eletrônicas que já são a sua marca – algo que ela deve a um dos cabeças da PC Music, o DJ AG Cook.

Nascida em Cambridge, não é de hoje que Charli mistura experimentos eletrônicos com refrões simples e diretos. Autodidata, ela começou a realizar as gravações de seu primeiro disco em casa, aos 14 anos. Embora o disco não tenha ganho lançamento comercial, o trabalho impulsionou uma carreira de compositora que culminou, em 2013, no lançamento de True romance.

O ano de 2014 foi bom para ela. Após o sucesso de Fancy, colaboração com a rapper australiana Iggy Azalea, ela contribuiu com a canção Boom clap para a trilha sonora do filme A culpa é das estrelas. Na esteira do sucesso que a música atingiu, Charli lançou seu segundo disco de estúdio, Sucker (2014).

Ela começou a experimentar o som que produz hoje no EP Vroom vroom (2016) e nas mixtapes Number 1 Angel (2017) e Pop 2 (2017). Os três trabalhos marcam a sua aproximação com os principais nomes atuais da PC music, como BloodPop, Sophie e Stargate.

Seu disco mais recente, Charli, lançado em setembro do ano passado, consagra a artista como grande nome do pop futurista. Carregado de elementos eletrônicos, ele vai contra a música eletrônica que normalmente se vê nas paradas – a mistura do pop com a chamada EDM (Eletronic Dance Music).

Além disso, o álbum é uma boa amostra do que vem acontecendo na música internacional ao reunir, entre as parcerias, bons nomes em ascensão, como Christine and the Queens, Sky Ferreira, Troye Sivan, Kim Petras, Haim, Lizzo Clairo, Yaeji, Big Freedia, Brooke Candy e Pabllo Vittar.

DISTÂNCIA PRODUTIVA

Confira outros discos feitos durante isolamento de seus criadores

Ok computer (1997), Radiohead

Responsável por antecipar o som do rock produzido no século 21, Ok computer (1997), do Radiohead, foi gravado com a banda em isolamento, em St. Catherine’s Court, mansão elisabetana no interior da Inglaterra. Precedido pelo disco de estreia, Pablo Honey (1993), e The bends, lançado em 1995, o terceiro e revolucionário disco do grupo inglês nasceu de um voto de confiança da gravadora Parlophone, que deu à banda um adiantamento de 100 mil libras, usadas para comprar equipamentos de gravação e levar adiante o plano de produzir o disco longe dos olhos da gravadora e do agito das metrópoles. As gravações foram realizadas na mansão da atriz americana Jane Seymour, onde os cinco integrantes e Nigel Godrich (produtor de longa data do grupo) encontraram o espaço perfeito para experimentar tudo o que queriam.

Exile on Main Street (1972), Rolling Stones

Problemas com o empresário e com o Ministério das Finanças britânico levaram os Rolling Stones a se exilar temporariamente na França no início da década de 1970. O porão de uma casa em Nellcôte, perto de Nice, onde Keith Richards se instalou, foi transformado em estúdio, com a ajuda do equipamento do famoso “mobile Studio” da banda. E foi ali que a maior parte das gravações de Exile on Main Street ocorreram, no meio de um caótico turbilhão de drogas, visitantes como Gram Parsons, William S. Burroughs ou John Lennon. Além de Bill Wyman e Mick Taylor, músicos como Bill Plummer, Nicky Hopkins, Bobby Keys e Jimmy Miller também contribuíram para o material, que foi gravado com auxílio do engenheiro de som Andy Johns em sessões que se prolongavam madrugada adentro. Enfim, os Stones se afastaram de seu país, mas continuaram muito bem cercados de gente.


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