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Estado de Minas CINEMA

'Sete anos em maio', filme de Affonso Uchôa, já está na internet

Assinado pelo diretor do premiado 'Arábia', média-metragem conta o drama de Rafael, morador da periferia de Contagem, vítima da violência policial. Ficção e realidade se confundem na trama


postado em 14/05/2020 04:00

Rodado na Grande Belo Horizonte, o média-metragem Sete anos em maio estreou na Suíça e pode ser visto no site da Embaúba Filmes(foto: EMBAÚBA FILMES/DIVULGAÇÃO)
Rodado na Grande Belo Horizonte, o média-metragem Sete anos em maio estreou na Suíça e pode ser visto no site da Embaúba Filmes (foto: EMBAÚBA FILMES/DIVULGAÇÃO)

Rafael dos Santos  Rocha era um jovem trabalhador pobre da periferia da Grande Belo Horizonte até que tudo aconteceu. Em uma emboscada policial, foi torturado com uma crueldade tremenda. A vida de Rafael nunca mais foi a mesma. Sabemos disso porque é o próprio quem conta todos os desdobramentos das sevícias sofridas em uma noite qualquer do mês de maio.

Sete anos em maio, novo filme de Affonso Uchôa, um dos nomes mais celebrados da chamada geração de Contagem (dirigiu os longas Arábia e A vizinhança do tigre), estrearia em março nos cinemas. Chegaria ao circuito ao lado de outro média-metragem mineiro, Vaga carne, de Grace Passô e Ricardo Alves Júnior. A estreia ocorreria na semana em que teve início o período de isolamento social. Diante do impedimento, a distribuidora dos dois médias, Embaúba Filmes, também de Minas Gerais, vai fazer o lançamento on-line nesta quinta (14). A ideia é que quando os cinemas reabrirem, os filmes também cheguem à tela grande.

A força do filme de Uchôa está tanto no depoimento de Rafael, que conta sua história em longo plano com uma sinceridade doída, e na maneira engenhosa como o diretor construiu a narrativa. Uchôa era vizinho de Rafael no Bairro Nacional, em Contagem, desde garoto. Certo dia, recebeu a notícia de que ele havia sumido. Muito tempo depois, houve o reencontro dos dois. Ao ouvir de Rafael a sua trajetória desde o desaparecimento, teve a ideia de fazer um filme.

“Para mim, foi muito chocante, pois é uma história superdramática, trágica. A história do Rafael é a de muitos, pois revela a tradicional relação de poder da polícia. A violência faz parte do jogo, é a forma com que a sociedade brasileira constrange e limita a periferia”, comenta o diretor.

Desde o início – a primeira ideia do filme surgiu em 2012 –, Uchôa não queria uma narrativa simplista, “de ligar a câmera e dizer: Fala aí”. “Queria adicionar algo à equação, trazer outros elementos de linguagem, fazer uma construção que só o cinema pode.”

Misturar ficção e realidade, algo que já fez em A vizinhança do tigre, era parte da equação. “Queria começar a história com uma entrevista, a forma mais básica do documentário, e no meio do caminho mudar para o diálogo ficcional, a forma mais básica da ficção, que é o contraplano”, explica Uchôa.

Tal mudança ocorre, bem como a inteligente sequência final, ficcional, que o diretor chama de “jogo” (o nome dele seria um spoiler do filme). “Tive dificuldade de entender como terminar. O jogo foi uma ideia que veio no meio das filmagens”, conta. “Foi a forma encontrada para representar algo irrepresentável, que é uma tragédia pessoal que não teve registro.”

Vaga carne, com Grace Passô, tem lançamento on-line nesta quinta-feira (foto: Entre Filmes/divulgação)
Vaga carne, com Grace Passô, tem lançamento on-line nesta quinta-feira (foto: Entre Filmes/divulgação)

ENSAIO

Tudo isso, no entanto, não surtiria efeito não fosse a força de Rafael em seu depoimento, exibido sem cortes. Para tal, revela Uchôa, os dois ensaiaram pelo menos 50 vezes. “No começo da filmagem, pedi para ele contar a vida dele. Não gostei do resultado, ficou solto, documental demais no mau sentido, sem dar o poder que a história tinha. Sentei com ele e escrevemos um texto baseado na vida dele. Fizemos um guia, escolhemos alguns acontecimentos e colocamos na ordem que ele tinha vivido. Rafael estava com vontade de ser desafiado e, à medida que repetia a cena, íamos trabalhando o olhar, a pausa, o ritmo, a postura do corpo”, acrescenta o diretor.

Sete dias em maio tem pouco mais de 40 minutos, o que o configura como média-metragem, o “limbo” do cinema, diz Uchôa. Isso porque muitos festivais não aceitam filmes com essa duração. Mas o filme acabou se dando bem. Sua première ocorreu em abril de 2019 no festival Visions du Réel, na Suíça. Já foi exibido em quase 40 festivais, nacionais e internacionais.

“Não dá para reclamar, pois a repercussão foi muito acima do que eu esperava. O mais legal é que o filme acabou passando em mostras de curtas e de longas.”, diz Uchoa.

Sete anos em maio foi eleito o melhor média-metragem da mostra Novos Rumos, do Festival do Rio, e recebeu menção honrosa no Festival de Curtas de Belo Horizonte. Em janeiro, foi exibido na Mostra de Cinema de Tiradentes, que geralmente não aceita médias-metragens.


SETE ANOS EM MAIO
O filme está disponível para locação no site da Embaúba Filmes (embaubafilmes.com.br) pelo valor de US$ 1

VAGA CARNE
O filme está disponível no site embaubafilmes.com.br pelo valor de US$ 1. Também estará disponível por 30 dias pelo site SPCine Play (spcineplay.com.br)


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