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Estado de Minas

Autor de 'Contágio' avisa: 'Ameaça da pandemia vai continuar'

David Quammen, que previu a escalada do coronavírus em 2012, diz que a segunda e a terceira ondas da COVID-19 são iminentes. E adverte: o Brasil e outros países não têm levado a ameaça a sério


postado em 12/05/2020 04:00 / atualizado em 11/05/2020 20:31

Coveiro do Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus, prepara enterro de vítimas da COVID-19(foto: Michael Dantas/AFP)
Coveiro do Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus, prepara enterro de vítimas da COVID-19 (foto: Michael Dantas/AFP)
Em 2012, o escritor norte-americano David Quammen, especializado em divulgação científica, publicou Spillover: Animal infections and the next human pandemic (Infecções animais e a próxima pandemia humana, em tradução livre). O livro foi bem recebido, teve vendas consideráveis, mas não demorou a ser esquecido. Foi recuperado agora, ganhando edições mundo afora por uma razão: oito anos atrás, Quammen previu a pandemia do novo coronavírus. 

Naquele período, o autor investigou o fenômeno chamado spillover – transbordamento. Ele ocorre quando patógenos que afetam animais contaminam seres humanos. Ao lado de cientistas na linha de frente no combate a pandemias, Quammen esteve, além dos Estados Unidos, em Hong Kong, Bangladesh e Austrália.

Inédito no Brasil, o livro é publicado agora pela Companhia das Letras com o título de Contágio. A edição, por ora, é virtual e por partes. A cada quinta-feira, a editora coloca nas lojas o e-book com um capítulo. Já foram lançados dois: Jantar na fazenda de ratos: A origem da Sars e o perigo dos coronavírus e Tudo depende: O comportamento humano e as pandemias. Na próxima quinta (14), será a vez de Viralizando: Como os vírus mudaram a história e quais são os desafios para combatê-los. No dia 21, chega a público O cavaleiro da morte: Uma investigação sobre as infecções de origem animal.

O livro completo em versão e-book sairá em junho – o físico ainda não tem previsão de lançamento. A edição brasileira trará um plus em relação à publicação original: o artigo que Quammen publicou no The New York Times, ainda em janeiro, sobre o novo coronavírus.

Nesta entrevista, Quammen reflete sobre o passado, fala sobre o presente e tenta imaginar o futuro pós-COVID-19. “Temos de repensar todas as opções que já fizemos como consumidores, o número de filhos que pretendemos ter, o quanto viajamos”, adverte.
(foto: David Quammen/redes sociais)
(foto: David Quammen/redes sociais)

"Preparar -se para uma pandemia é caro, mas não se preparar nos custa ainda mais. Mesmo Donald Trump e Jair Bolsonaro irão reconhecer essa lição"

David Quammen, escritor


O que o senhor pensou ao ouvir falar sobre os primeiros casos de um novo vírus na China? Chegou a se surpreender?
Não, não me surpreendi. Em 13 de janeiro, tive o primeiro alerta ao receber e-mail de um serviço de doenças infecciosas. Digo alerta porque nessa mensagem havia a palavra coronavírus. Disseram que havia uma onda anormal de pneumonia afetando pessoas em Wuhan, na China, e que haviam isolado o coronavírus. Quando vi isso, pensei: ‘Talvez seja agora’. Em 21 de janeiro, já estava preocupado o suficiente, tanto que escrevi um artigo, publicado no dia 28, no The New York Times. Não fiquei surpreso com o coronavírus, não fiquei surpreso porque havia transmissão de humano para humano, não fiquei surpreso pelo fato de a transmissão estar associada a um mercado. Só fiquei surpreso com a forma como o meu e outros governos ao redor do mundo responderam ao alerta.

Quais são as origens da COVID-19? O mercado de Wuhan, na China?
As informações são complicadas. Há um artigo científico de autores chineses que discute os primeiros 41 casos. Nele, dizem que a maior parte desses 41 casos estava associada ao mercado de Wuhan. Então, as pessoas começaram a dizer: mercado de Wuhan. Mas a maior parte não é todo o mundo. Vinte e sete casos dos 41 eram associados ao mercado, o que deixa 14 casos não ligados a ele. Nisso inclui-se o primeiro caso, de uma pessoa que apresentou os sintomas em 1º de dezembro. Isso sugere que o vírus circulou na cidade de Wuhan, fora do mercado, no mês de novembro. As evidências estão claras de que o vírus veio originalmente de um morcego, depois passou possivelmente para o pangolim. É um vírus natural, ainda que houvesse quem especulasse que fosse um vírus criado. É um vírus criado pela natureza, que passou de um morcego para um pangolim. Neste momento, só podemos especular, pois não há mais informações. Então, o vírus talvez tenha passado de um morcego para um pangolim e se desenvolveu um tempo ali. A pessoa que contrabandeou o pangolim da Malásia talvez o tenho levado para o mercado. Mas, antes disso, ela teria se infectado com o vírus, infectado a mulher, e ela outra pessoa. Então, antes de o caso ter sido associado ao mercado, acho que a pessoa que contrabandeou o pangolim possa ter sido infectada.

Por que doenças vindas de vírus de animais se tornaram tão comuns nas últimas décadas?
Animais selvagens carregam seus próprios vírus e alguns são potencialmente perigosos para os seres humanos. Se deixarmos esses animais de lado, em seus próprios ambientes, os vírus permanecerão com eles. Mas se nos intrometermos em ecossistemas originais diversos, como a Amazônia, tendo contato com animais selvagens, capturando-os e matando-os, mais nos exporemos aos vírus. Nos últimos 50, 60 anos, há mais e mais casos desses tipos de vírus se espalhando nos seres humanos, pois há mais pessoas perturbando ecossistemas selvagens e tendo contato com animais desses lugares. É uma questão aritmética. Se voltarmos a 1961, naquele momento houve o vírus Machupo, na Bolívia, causando a febre hemorrágica boliviana. Desde então, há o retorno desses eventos. A COVID-19 é o mais recente deles.

Essa pandemia é uma oportunidade para repensarmos nosso contato com os animais e a quantidade de carne que consumimos?
Absolutamente. É uma oportunidade de repensar a nossa relação com os animais, com o mundo natural e com o quanto consumimos. A quantidade de carne que é consumida, principalmente aquela produzida em escala industrial, deve ser repensada. Na verdade, temos que repensar todas as opções que já fizemos como consumidores, o número de filhos que pretendemos ter, o quanto viajamos. Espero que o lado bom dessa nuvem negra seja repensar todo o impacto que os seres humanos causam ao planeta.

O que deve ser feito para prevenir um novo evento como a COVID-19?
No momento, ficar em casa, manter distanciamento social, testar mais e mais pessoas, fazer quarentena. Precisamos de uma vacina, assim que possível. Agora, em longo prazo, tem que haver acordos internacionais de vigilância, diminuir a intervenção em ecossistemas selvagens. Também em longo prazo, precisamos de líderes melhores.

Devemos esperar novas pandemias?
A ameaça da pandemia vai continuar, outros vírus vão continuar se espalhando e causando surtos. Podem ser surtos que matem 12, 20 pessoas em lugares remotos, numa cidade pequena na Amazônia, num lugarejo no Congo, num local na China. Se estivermos prontos para responder, se houver cooperação internacional, vigilância e vacinas que poderão ser adaptadas rapidamente para vírus diferentes, aí teremos a chance de fazer com que surtos em áreas pequenas não se tornem a próxima pandemia.

O senhor é otimista quanto à criação de uma vacina em curto prazo?
Sou otimista quanto à criação de uma vacina, assim que for possível. Espero que haja chance de ela existir em um ano. Mas não devemos pensar que ela exista em menos do que isso. Uma coisa é criar uma vacina em laboratório, outra é produzir milhões e milhões de doses. Isso leva tempo.

Que lições aprendemos até agora? O que ainda temos que aprender?
Uma coisa importante que já aprendemos é que se preparar para uma pandemia é caro, mas não se preparar nos custa ainda mais. Mesmo Donald Trump e Jair Bolsonaro irão reconhecer essa lição. O que não aprendemos, e espero que consigamos aprender, é que todos nós temos responsabilidade sobre o que está acontecendo. Não é apenas a questão de um grupo de pessoas na China. O evento atual é um de uma série. Voltando 60 anos, todos os eventos que ocorreram desde então tiveram causas imediatas diferentes, mas no geral a razão é a mesma: muita gente querendo consumir produtos do mundo natural, causando transtornos nos ecossistemas, nos animais que lá vivem. Precisamos deixá-los sozinhos assim que possível.

Estamos preocupados o suficiente?
Acho que não. Há uma parte do meu, do seu e de outros países que não estão levando isso seriamente. Há pessoas que continuam andando por aí frequentando cafés e praias, que não estão preocupadas com o quanto o vírus é perigoso. Estou apreensivo que a segunda e a terceira ondas transformem este momento numa montanha-russa nos próximos um, dois anos.

Há boas notícias?
Sempre. Numa situação com essa, uma boa notícia é saber que temos muitos cientistas brilhantes trabalhando seriamente em todo o mundo para desenvolver uma vacina e um antiviral rapidamente. Qualquer um que diga que não acredita na ciência, na evolução, nos experts, essa pessoa está machucando a si mesma e aos mais próximos. Se você não acredita na ciência, não deve ir a hospitais, não deve tomar antibióticos, não deve tomar nem sequer um remédio. Aí vai ver o que poderá acontecer. Espero que todas as pessoas acreditem na ciência, pois é ela que vai trazer as boas notícias em meio à situação em que nos metemos.

CONTÁGIO
De David Quammen
Companhia das Letras
E-book, com lançamento por capítulos
Disponível nas livrarias virtuais
R$ 9,90 (cada capítulo)

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