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Estado de Minas

Campanha distribui cestas a técnicos de show que estão parados

Segundo organizadores, maior parte das doações vem de profissionais do setor cultural.Veja como contribuir


postado em 20/04/2020 04:00 / atualizado em 20/04/2020 14:27

Palco montado na Praça da Estação, na Virada Cultural, em julho do ano passado. Iniciativa em BH visa apoiar profissionais dos bastidores dos shows(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A.Press)
Palco montado na Praça da Estação, na Virada Cultural, em julho do ano passado. Iniciativa em BH visa apoiar profissionais dos bastidores dos shows (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A.Press)

Graxa é o (carinhoso) apelido dado a montadores, roadies, carregadores, além dos técnicos de luz e som envolvidos na realização de shows. Com a suspensão das atividades culturais para evitar aglomerações devido à pandemia do novo coronavírus, a “graxa” está sem pôr a mão na massa – e sem receber o seu sustento também.

Para auxiliar esses trabalhadores surgiu a campanha “Salve a Graxa BH: Sem Graxa Não Tem Brilho”, inspirada em iniciativa semelhante promovida em São Paulo. “Existe uma previsão de que os eventos serão retomados somente em meados do segundo semestre de 2021. Por trabalharem exclusivamente na realização de shows, esses profissionais seriam os primeiros atingidos e os últimos a retornar ao trabalho”, observa Renata Almeida, de 39 anos.

“A Renata me enviou um link de um projeto de São Paulo e sugeriu a iniciativa. Em seguida, começamos a pensar como poderíamos ajudar a galera daqui”, conta Felipe Amaral, de 37, proprietário da ZBM, empresa voltada para a locação de equipamentos para shows e eventos. “Como não existem dados concretos sobre profissionais que atuam nessa área, não tínhamos nem um norte. Não sabíamos quantas pessoas pretendíamos atingir”, diz ele.

Felipe disponibilizou o galpão da ZBM para a alocação e confecção de cestas básicas e convidou os funcionários da empresa a ajudar na logística da campanha. A campanha foi lançada no Instagram (@salveagraxabh) no último dia 26. “Teve uma adesão muito interessante no começo, principalmente de doações e pessoas compartilhando a ideia. Muitos artistas e técnicos colocaram o próprio nome à frente da campanha para dar apoio e credibilidade ao nosso trabalho”, diz Felipe.

Rogério Flausino, Wilson Sideral, Chico Lobo, Aline Calixto, Lilian Nunes, Cida Falabella e Di Souza são alguns dos artistas que gravaram vídeos apoiando o Salve a Graxa. Doações também foram arrecadadas com o apoio de lives das duplas sertanejas Rick & Ricardo e João Lucas & Diogo.

O violeiro Chico Lobo tomou conhecimento da campanha a partir de profissionais de sua equipe. “Eu me senti na obrigação de contribuir, porque os meus shows ocorrem graças a toda essa cadeia produtiva. Minha carreira sempre foi em parceria com essas pessoas", disse. O artista doou 100 exemplares de seu livro Conversa de violeiro para os organizadores leiloarem.

VÍDEO

Empresas também aderiram. A loja de instrumentos musicais Serenata doou 100 cestas básicas. A marca Amplier destinou dois fones de ouvido para leilão. A fábrica de alimentos Vilma e o projeto social Lá da Favelinha também contribuíram. “Teve uma menina que não conseguiu fazer a doação, mas fez um vídeo em libras divulgando a campanha. Achamos isso incrível, porque ela entendeu que seríamos mais acessíveis dessa forma”, conta Renata.

Os interessados preencheram formulário disponibilizado pelo projeto em sua bio do Instagram. Voluntários de logística fazem contato com os inscritos para checar as informações, confirmar a inscrição e verificar sua disponibilidade para receber as cestas.

“Ressaltamos para evitarem aplicativos de mobilidade e transporte público, porque estaríamos colocando essas pessoas em risco, além de gerar um custo desnecessário, sendo que dispomos de uma equipe capaz de fazer entregas em toda a Região Metropolitana de Belo Horizonte”, diz Felipe. As doações são feitas por ordem de chegada e prioridade. Nos formulários, são identificados aqueles profissionais com filhos e responsáveis pelo sustento da família.

Nos primeiros 15 dias de projeto, 1.039 inscrições foram registradas. Ao todo, a campanha já soma 149 colaboradores, R$ 35 mil arrecadados e cerca de 350 cestas doadas, de acordo com os organizadores. “Os voluntários que trabalham diretamente na entrega das cestas contam histórias extremamente emocionantes. As pessoas querem tirar foto, abraçam e se sentem muito agradecidas, mas a grande preocupação é como elas vão fazer no mês que vem”, afirma Renata.

A continuidade da campanha é uma meta dos autores da iniciativa. “Sabemos que não é uma necessidade apenas imediata. No setor de entretenimento, essa dificuldade vai permanecer por pelo menos mais dois a quatro meses. Não colocamos uma data-limite para a campanha, porque as pessoas vão continuar tendo essa carência”, diz Felipe.

IMPACTO

De acordo com o empresário, grande parte dos contribuintes são do próprio setor cultural e de entretenimento de Belo Horizonte, que também estão suscetíveis aos impactos da quarentena. “As próprias pessoas que ajudaram nesse mês talvez no próximo não consigam.”

A campanha, que hoje utiliza uma conta de pessoa física para o recebimento das doações, estuda a implementação de uma plataforma digital para ampliar a arrecadação. “No digital existe um custo para o repasse do di- nheiro. Estamos analisando qual é a melhor opção, porque achamos que isso pode aumentar o número de doações”, diz Renata.

A possibilidade de parcerias com ONGs e fundos nacionais também está sendo considerada. As inscrições para o recebimento do auxílio estão temporariamente suspensas, já que o número de interessados excede o de cestas disponíveis. A equipe da campanha vem processando os dados e acolhendo aqueles que se alistaram até o último dia 9.

O pente-fino identificou que, entre as 1.039 inscrições, aproximadamente 150 estavam duplicadas, enquanto 240 foram recusadas por não atender ao perfil do público-alvo. Outras 229 aguardam validação. A expectativa dos organizadores é poder retomar as inscrições até o fim da semana

O próximo passo do Salve a Graxa é criar um planejamento para dar sequência às contribuições, não apenas de alimentos, como de aperfeiçoamento profissional. “Queremos investir na formação e valorização dessa classe. Esses profissionais são muito habilidosos e movimentam uma economia muito grande no país. Queremos que eles entendam essa importância e consigam ter outras oportunidades de trabalho”, afirma Felipe. “Essa é uma ação conti- nuada. Esse é só o começo”, diz Renata.

O violeiro Chico Lobo espera que a solidariedade seja o saldo positivo da quarentena. “Espero que a pandemia faça crescer em cada um aquela solidariedade que, às vezes, fica guardada. Aquele sentimento de que, mesmo nas mínimas necessidades, eu consigo ajudar outro com mais dificuldades.”

Para contribuir, entre em contato pelo e-mail salveagraxabh@gmail.com ou pelo telefone (31) 98864-6577. Mais informações estão disponíveis no perfil da campanha no Instagram – @salveagraxabh.

*Estagiário sob supervisão da editora Silvana Arantes


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