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Estado de Minas

Violeiro Chico Lobo aprende a se reinventar na era do coronavírus

Aos 57 anos, músico mineiro passou a lidar com as mídias sociais, apostando na interação com o público via Instagram e YouTube. Fãs têm apoiado financeiramente as lives do compositor


postado em 13/04/2020 04:00 / atualizado em 13/04/2020 14:41

Pela primeira vez, o mineiro Chico Lobo faz vaquinha virtual para lançar um disco(foto: Élcio Paraíso/divulgação)
Pela primeira vez, o mineiro Chico Lobo faz vaquinha virtual para lançar um disco (foto: Élcio Paraíso/divulgação)


Com 35 anos de carreira, o violeiro, compositor e cantor mineiro Chico Lobo passa por mudanças radicais, impostas pela quarentena. Acostumado a vida inteira com shows e estúdios, além de apresentar um programa de televisão, ele teve de se reinventar. O orçamento sofreu um baque e Chico, impossibilitado de sair de casa, mergulhou – com sucesso – no universo virtual.
“É um dia após outro”, comenta o violeiro, que se viu obrigado a cancelar cerca de 10 shows entre março e maio devido à COVID-19. “Foi um tombo violentíssimo. Minha fonte de renda vem dos cachês dos shows e da venda de material (discos e livros) nesses eventos. Está sendo um processo muito doido.”
 
Chico apresentava o Viola Brasil, na TV Horizonte, dedicando três dias da semana a esse trabalho. “Até pela dificuldade de receber convidados, suspendemos as gravações durante a quarentena”, informa. Os programas vêm sendo reprisados aos sábados, às 12h30.
 
Chico também se viu impossibilitado de participar do projeto social que mantém por meio do instituto batizado com seu nome, oferecendo ensino gratuito de viola em escolas de Santa Cruz de Minas (MG), cidade a 180 quilômetros de Belo Horizonte, na Região do Campo das Vertentes. A cada dois meses, ele viajava para lá. Agora, está tudo parado. Apesar da interrupção das aulas, monitores estimulam as crianças a praticar em casa e enviar vídeos das performances para a equipe.
 
Parou tudo, mas o violeiro não entregou os pontos. “Nossa primeira ideia foi fazer uma live. Isso, antes de elas se tornarem febre”, conta. Com a ajuda da família, ele passou 15 dias divulgando o espetáculo Chico Lobo na quarentena nas redes sociais. “Foi uma experiência inusitada pra mim. Gerou até um making of, contando o processo de me entregar à nova linguagem e ser gerenciado por jovens”, revela, referindo-se aos filhos e amigos deles. A preparação da live durou 14 horas.
 
Ao longo da gravação, em 28 de março, Chico pediu a contribuição financeira voluntária ao público. “As pessoas entenderam a necessidade de contribuir, e o resultado foi muito bonito. Arrecadamos praticamente o cachê de um show normal”, diz. A plateia somou 400 pessoas no YouTube e 150 no Instagram. Show completo e making of estão disponibilizados no canal dele no YouTube (Violeiro Chico Lobo Oficial).
 
Depois disso, o mineiro aderiu de vez ao formato. Em 31 de março, participou do Festival Internacional #Homestage, no Facebook, ao lado de músicos da Colômbia, Espanha, Portugal e Angola. O público foi convidado a contribuir com R$ 15.
No sábado passado, lá estava ele no Festival Quarentena Violada, que reuniu artistas de todo o Brasil. As transmissões ocorreram na página pessoal de cada um, e as contribuições foram divididas igualmente por todos.

VAQUINHA Antes da quarentena, Chico vinha se dedicando à produção de seu 26º álbum. Diante da crise enfrentada pelo setor cultural, ele recorreu, pela primeira vez, à vaquinha virtual para financiar o projeto. Também adotou o formato home estúdio.
 
“Todos os músicos gravaram sua participação diretamente de casa, sendo tudo controlado pelo produtor Ricardo Gomes. Já estamos no processo de finalização dos arranjos”, conta.
 
Depois de uma reunião on-line, ficou acertado que produtores e músicos vão receber o pagamento após o lançamento do disco. “Isso se deve ao complicado momento que vivemos”, diz Chico.
Com 12 faixas, o novo álbum terá a participação especial do músico paulista Rodrigo Ribeiro, da cantora mineira Roberta Campos e do artista português Pedro Mestre. “O disco parte da minha regionalidade e raiz, mas também dialoga com o folk e o pop”, antecipa o violeiro.
 
Lançada em 28 de março, a vaquinha virtual já arrecadou 10% do valor total da produção. “Como a campanha vai até agosto, estamos muito animados”, diz Chico. A estratégia é focar na divulgação da plataforma para atrair novas adesões.
 
Se tudo ocorrer conforme o planejado, o álbum será lançado em setembro tanto nas plataformas digitais quanto no formato físico. “Tenho um público muito fiel que consome os trabalhos físicos nos shows”, explica.

INTERNET A quarentena ensinou o violeiro, de 57 anos, a se reinventar. “Sou de uma geração que não foi criada pela internet, como a de hoje. Desde março, mergulhei totalmente nessa nova linguagem, no YouTube e nas mídias digitais. Tem sido um aprendizado enorme.”
 
Para não perder a conexão com os fãs durante o isolamento social, ele busca fortalecer sua imagem nas novas mídias. Além das lives, publica conteúdos regularmente em diferentes plataformas digitais.
“Busco educar o fã para me acompanhar nos meios virtuais, pois esta poderá ser a única forma de assistir e contribuir com os músicos este ano”, pondera.
 
Apostando na live como sustento, ele já planeja outra transmissão. Mas adverte: “Não podemos fazer sempre, é necessário um espaço de 20 dias para produzir novos conteúdos.”
 
Chico anuncia novidades. “No primeiro show, houve muitos pedidos de músicas, mas não havíamos nos planejado para isso. Na próxima live, o público vai escolher o repertório por meio de interações nas redes”. Caberá aos internautas definir as 14 músicas do repertório. A previsão é de que o show on-line ocorra entre o final de abril e o início de maio.
 
Para tudo dar certo, diz o violeiro, é preciso rigor e profissionalismo. “Tratamos as transmissões como shows convencionais, para os quais o público paga ingresso. A live precisa passar a sensação de show para que a pessoa entenda a necessidade da contribuição, que é espontânea. Por isso cuidamos muito da técnica e do cenário”, explica.
 
Outro ponto positivo da quarentena, diz ele, foi a reaproximação da família. “O drama que estou passando é de todos daqui de casa. Estamos todos no mesmo barco”, destaca Chico. Luísa, Mateus e Tomás ensinam as novas ferramentas virtuais ao pai, que conta – como sempre – com o apoio da mulher, a produtora Angela Lopes.
 
Também fazem parte da equipe Lucca Paiva, amigo dos filhos do casal, atuando como produtor chefe e designer, e Yan Taygson, namorado de Luísa, encarregado das áreas de produção e marketing. “Eles já estavam hospedados aqui em casa, mantendo o isolamento social. É muito bacana, porque não desrespeitamos as recomendações da área de saúde em relação à quarentena”, diz o violeiro.

Fogão e viola

A quarentena criativa de Chico Lobo não se limita à música. Ele planeja lançar vídeos unindo duas paixões: o fogão e a viola. “Gosto de cozinhar, já lancei algumas receitas nas redes sociais. O próximo passo é gravar vídeos apostando nesse conteúdo”, diz. Em 3 de abril, o “chef” compartilhou sua receita de macarrão de abobrinha. “Fiquem ligados, porque vai ter mais Chico na cozinha por aqui”, avisou ele, no Instagram. 

* Estagiário sob supervisão da editora-assistente Ângela Faria


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