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Estado de Minas

Novidades e nostalgia marcaram a cena musical em 2019

Nos EUA, surgiu o fenômeno Lil Nas X, misturando hip-hop e country. No Brasil do funk e do sertanejo, Sandy e Júnior voltaram aos palcos em megaturnê. O mineiro Djonga se destacou no rap nacional


postado em 31/12/2019 04:00 / atualizado em 30/12/2019 21:46

Com 19 anos, o rapper Lil Nas X se manteve por 19 semanas no topo do ranking da Billboard(foto: Johannes Eisele/AFP)
Com 19 anos, o rapper Lil Nas X se manteve por 19 semanas no topo do ranking da Billboard (foto: Johannes Eisele/AFP)


Um ano pode variar entre a multiplicidade de ritmos e, ao final, soar como uma batida animada ou uma triste melodia. A indústria fonográfica seguiu seu caminho de transformações em 2019, marcado tanto pelo surgimento de jovens talentos quanto pelo retorno estrondoso de antigos ídolos. Nesta era em que a quantidade de discos vendidos deu lugar ao número de “views” e “plays” na internet para mensurar o sucesso de um artista, o sertanejo e o funk consolidaram seu domínio sobre o mercado brasileiro, que também cedeu às rimas do rap mineiro, contundentes ao falar das mazelas do país. Lá fora, a mistura de sonoridades foi o que mais chamou a atenção.
 
No final de 2018, ninguém conhecia Lil Nas X. Montero Hill, na época com 19 anos, era só mais um norte-americano entusiasta das ferramentas virtuais que possibilitam a produção musical caseira. Em julho de 2019, ele se tornou o dono da música mais ouvida do planeta. Virou o fenômeno Lil Nas X, com sua mistura de rap e country criada com a batida comprada em um site especializado, somada à criatividade da letra e lançada na web em clipe montado com cenas do game Red Dead Redemption II.
 
Júnior e Sandy atraíram multidões à turnê Nossa história, com ingressos a R$ 11 mil no mercado paralelo(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Júnior e Sandy atraíram multidões à turnê Nossa história, com ingressos a R$ 11 mil no mercado paralelo (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
 
O sucesso no universo digital logo chamou a atenção da Columbia Records. Foi assim que Lil Nas X se tornou parceiro de Billy Ray Cyrus, pai de Miley e astro do country estadunidense, na gravação do remix de Old town road. A versão passou 19 semanas no topo do ranking Hot 100 da Billboard, a principal parada musical do planeta, cravando um novo recorde histórico de permanência na posição.
 
Apesar da popularidade e importância do country na cena pop norte-americana, tamanho sucesso pode se explicar por sua criativa alquimia com o hip-hop, gênero hoje dominante nos EUA. Mais que isso, o trabalho de Lil Nas X tem forte apelo representativo, pois o artista é negro e homossexual. Seu sucesso veio quebrar paradigmas e preconceitos historicamente arraigados nesses dois estilos.
Em agosto, Lil perdeu a liderança no Billboard para alguém ainda mais jovem. Aos 17 anos, a cantora e compositora norte-americana Billie Elish chegou ao posto com a canção Bad guy. Flutuando entre pop e indie, ela também começou a despontar de forma independente nas plataformas digitais, até que em 2019 lançou o álbum de estreia When we all fall asleep, where do we go?, que lhe garantiu indicações às quatro principais categorias do Grammy, cujos prêmios serão entregues em 26 de janeiro.
 
 
 
De acordo com dados do Spotify, o artista mais ouvido na plataforma em 2019 também é do rap: o nova-iorquino Post Malone. Este ano, ele lançou Hollywood’s bleeding, seu terceiro álbum de estúdio, o segundo mais tocado mundialmente pelos usuários do streaming este ano, atrás apenas do disco de Billie Elish.
 
Entre os 10 artistas preferidos pela audiência do Spotify está a estrela pop Ariana Grande, que lançou o badalado 7 rings em janeiro, álbum que permaneceu entre os mais escutados até agora. Señorita, a música mais ouvida no planeta em 2019, também é de jovens astros do pop: Camila Cabello e Shawn Mendes.

BRASIL Dados do Spotify demonstram o domínio do sertanejo e do funk entre as preferências do público brasileiro. Marília Mendonça, Zé Neto & Cristiano, Anitta, Gusttavo Lima e MC Kevin O Chris ocupam as cinco primeiras posições da lista de artistas mais populares de 2019.
 
Entre os 10 campeões de audiência, o único que fugiu da dobradinha “sofrência-batidão” é o pagodeiro Dilsinho, com o álbum ao vivo Terra do nunca. Nesta época em que cantores preferem lançar sucessos a conta-gotas, os singles, em vez de investir no disco (mesmo em formato virtual), os álbuns mais ouvidos em 2019 no Brasil foram gravados em shows: Todos os cantos Vol. 1, de Marília Mendonça, O embaixador, de Gusttavo Lima, e Esquece o mundo lá fora – Deluxe, de Zé Neto & Cristiano.
 
Porém, o velho disco não perdeu seu prestígio conceitual no mercado fonográfico. Em 2019, alguns lançamentos se destacaram pela popularidade do artista, como é o caso de Kisses, de Anitta, que não gravava um álbum desde 2015. Divulgado em abril, com faixas em português, inglês e espanhol, reuniu parcerias da brasileira com artistas de renome – os estrangeiros Snoop Dogg, Alesso e Becky G e os compatriotas Caetano Veloso e Ludmilla.
 
Em outros casos, o sucesso veio da relevância do conteúdo, sobretudo neste momento marcado por tantas tensões políticas e sociais. Um dos álbuns mais celebrados pela crítica brasileira foi Ladrão, lançado em março pelo rapper mineiro Djonga, de 25 anos. Em pouco mais de um mês, as 10 faixas inéditas do álbum já superavam 40 milhões de visualizações no YouTube e Spotify. As rimas trazem mensagens viscerais sobre racismo e exclusão social. Na Virada Cultural de BH, Djonga foi uma das principais atrações, fechando a programação diante de 40 mil pessoas na Praça da Estação.

MINAS Além do rap, a música mineira se projetou nacionalmente com jovens artistas também na faixa dos 20 anos. Depois de estourar em 2018, a banda Lagum lançou o disco Coisas da geração, consolidando-se como nome de ponta do pop rock brasileiro. O grupo se apresentou no Lollapalooza e no Rock in Rio, os maiores festivais realizados no país.
 
Na contramão da ascensão de uns, o ano foi o fim da linha para outros. Em novembro, o Skank comunicou ao público sua separação depois de quase 30 anos de carreira, que ocorrerá depois da turnê de despedida em 2020. De acordo com publicações oficiais do grupo, a decisão foi pacífica e consensual. “Não precisa nem da decadência nem da guerra para terminar alguma coisa”, disse o vocalista e guitarrista Samuel Rosa.
 
Enquanto uns se vão, outros voltaram em 2019. Separada desde 2008, a dupla formada pelos irmãos Sandy e Júnior, fenômeno do pop nacional nos anos 1990, ressurgiu em turnê avassaladora, que passou por 11 capitais brasileiras, além de Nova York e Lisboa, com ingressos esgotados em quase todos os shows. Cerca de 600 mil pessoas prestigiaram o revival.
 
A turnê Nossa história celebrou os 30 anos da primeira apresentação televisiva dos filhos do sertanejo Xororó, com hits que marcaram a infância e adolescência de quem hoje está na faixa dos 30 – público numeroso e apaixonado. Para se ter ideia da força da nostalgia, as 24 mil entradas para a apresentação em Belo Horizonte, realizada em agosto, na Esplanada do Mineirão, esgotaram-se em poucas horas em março, assim que o evento foi anunciado. Os preços variaram de R$ 70 a R$ 480. No mercado paralelo, havia ingressos oferecidos por inacreditáveis R$ 11 mil para a temporada carioca.


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