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Estado de Minas LIVRO

Alemã cria HQ para abordar envolvimento de sua família com o nazismo

'O livro foi uma tentativa de fazer perguntas e desconstruir certas ideias que temos da nossa história', diz Nora Krug sobre 'Heimat'


postado em 22/12/2019 04:00 / atualizado em 21/12/2019 18:58

(foto: Reprodução internet)
(foto: Reprodução internet)

''Os alemães quiseram o regime e o apoiaram até o fim''

Nora Krug, escritora



Quando se mudou da Alemanha – primeiro para Londres, depois para Nova York – há mais de 17 anos, a ilustradora Nora Krug se deu conta de que sabia pouquíssimo sobre as atividades de seus antepassados durante a Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, a artista passou a observar como a identidade germânica era vista no resto do mundo: um povo que acolheu o regime nazista e consentiu a execução do maior genocídio em solo europeu no século 20. Juntando o sentimento de culpa cultivado desde a guerra pela sociedade alemã com os olhares enviesados que recebia ao revelar sua nacionalidade, a artista percebeu que havia ali um tema rico a ser explorado. A culpa é algo que gerações do pós-guerra sempre carregaram, mas a forma como a sociedade alemã decidiu lidar com esse sentimento não é das mais eficientes, acredita Nora.

Pensando nisso, ela começou a escrever Heimat – Ponderações de uma alemã sobre sua terra e história, livro ilustrado com quadrinhos que trata com muito cuidado e bastante autocrítica o passado recente da Alemanha. Heimat é uma palavra difícil de traduzir. Significa casa, lar, não necessariamente um espaço físico e, às vezes, até uma ideia. É um termo um tanto maldito, do qual a ideologia nazista se apropriou para definir o território germânico reservado à raça ariana. Utilizá-lo como título de um livro poderia causar reações ruins, mas a ilustradora quis arriscar, pois percebe na extrema-direita em ascensão em seu país a mesma propensão nazista em se apropriar da ideia heimat.

No livro, Nora retoma a história de seus familiares. Quer descobrir como eles se posicionaram diante do nazismo na década de 1930, quando Adolf Hitler chegou ao poder. Colaboraram? Lutaram? Resistiram? Pesquisas em arquivos de sua cidade natal, Karlsruhe, levaram-na aos avós e a um tio morto durante a guerra, aos 18 anos, depois de se alistar nas tropas nazistas. Nora se deparou com o fato de que o avô foi um “seguidor”, classificação estabelecida no pós-guerra para diferenciar os que aderiram ou não ao regime. Filiado ao Partido Nazista, ele lutou, vestiu uniforme e colaborou. O tio de Nora foi doutrinado na infância e depois se tornou soldado.

Foi um percurso árduo e doloroso. A ilustradora não se esquivou de esmiuçá-lo em Heimat. “Como alemã da geração pós-Segunda Guerra, cresci com o sentimento de culpa. Durante a adolescência, não se falava muito disso na escola, mas quando me mudei para o exterior, percebi que nunca havia abordado o tema de maneira mais séria”, afirma.

Para Nora, essa abstração paralisa a sociedade e a impede de lidar, de forma mais pessoal, com a culpa e a herança deixadas pelo nazismo. “Era tudo muito abstrato, e eu precisava fazer essas perguntas para as pessoas. Mesmo que fosse dolorido, era necessário”, diz.

Quando começou a escrever Heimat, a artista pensou, principalmente, nos leitores norte-americanos. “De certa forma, o livro foi uma resposta para encontros que tive ao longo dos anos, alguns muito negativos, pois era sempre confrontada com estereótipos negativos, não só da história da Alemanha, mas da identidade alemã de hoje.”

A ascensão da extrema-direita também motivou o livro. A apropriação por parte desse grupo de um discurso muito similar ao utilizado nos anos 1930 para convencer os alemães de que os judeus eram ameaça perturbou Nora. Atualmente, o alvo são os imigrantes. Mais do que nunca, ela acredita, é hora de encarar o fato de que toda a sociedade alemã corroborou, no passado, para o Holocausto – hoje, essa disposição pode estar rondando novamente muitas sociedades europeias.

Investigar como a própria família lidou com isso é crucial, na visão da autora, que lembra Hannah Arendt para definir a gravidade da situação: “Ela disse que se todos são culpados, então ninguém é. Hoje, é muito fácil, na Alemanha, ouvir dizer ‘ah, todo mundo era seguidor, por que mexer nisso?’. Esse é o grupo de pessoas que mais precisa ser investigado, porque há um vasto universo nessa ideia de seguidor. Ele vai de salvar alguém até cometer terríveis atrocidades. É uma categoria muito cinzenta”. Nesta entrevista, Nora Krug fala sobre a importância de enfrentar e compreender a história para construir o futuro.

HEIMAT – PONDERAÇÕES
DE UMA ALEMÃ SOBRE
SUA TERRA E HISTÓRIA
• De Nora Krug
• Tradução: André Czarnobai
• Quadrinhos na Cia/Companhia das Letras
• 288 páginas
• R$ 119,90

“Precisamos enfrentar o passado”

Ao investigar sua história pessoal, você também escreveu uma história coletiva? 
Sim. Não podemos separar o pessoal do coletivo, o político do coletivo, o coletivo do indivíduo, porque todos compartilhamos uma história. Você pode ter um ângulo pessoal nessa história, mas, ao mesmo tempo, sempre haverá algo sobre a experiência germânica coletiva. Minha esperança era de que o livro fosse universal, não apenas sobre minha família, mas sobre uma questão social maior; não apenas sobre a Alemanha, mas sobre qualquer país que precise enfrentar com responsabilidade o passado.

Como seria essa maneira mais construtiva de lidar com a culpa?
Vários erros foram cometidos na minha educação. Minha geração não foi encorajada a investigar seu próprio ambiente físico, o engajamento de nossas famílias, de nossas cidades, das pessoas que conhecemos. Isso deveria ter sido encorajado por professores e por instituições, pois não se pode deixar a tarefa para os membros da família, deve haver uma instituição por trás. Outro aspecto é que nunca falamos sobre nossos sentimentos. Quando falamos sobre história, apenas aprendemos os fatos. E os fatos, claro, não ajudam emocionalmente se não falarmos sobre o que eles fizeram conosco. Sei que estudantes visitam campos de concentração e museus, mas é, basicamente, para fazer pesquisa. Não acho que depois de todas essas visitas nossos professores perguntem como nos sentimos. Essa é uma questão muito importante. Depois dessas visitas, você se sente atordoado e fica sem saída emocional para lidar com esses sentimentos. Também não aprendemos sobre a resistência alemã. Sabemos pouco, apenas sobre dois movimentos, mas a estimativa é de que 77 mil pessoas morreram por resistir ao regime. Pode ser inspirador aprender, porque poderíamos aprender, hoje, a lutar pela democracia.

Quais foram as suas escolhas para evitar ser mal compreendida?
Não gosto de pensar nos alemães como vítimas sob o regime, porque a maioria deles o apoiou. Alguns, não – e esses provavelmente foram vítimas. Mas nunca diria que os alemães foram vítimas, porque eles quiseram o regime e o apoiaram até o fim. Com o livro, meu maior medo foi as pessoas pensarem que eu estava relativizando as atrocidades alemãs ou fazendo os alemães parecerem vítimas. Minha meta era tentar entender como as pessoas lidaram com isso através das gerações e o que aconteceu na minha família. Ao mesmo tempo, sabia que escreveria um memorial. Em um memorial, você tem de ser honesto e escrever sobre o que sente. Não é um livro de história, escrito por um historiador, e sim o livro de um autor que quer falar da própria vida.

O que foi mais difícil nesse processo?
Sabia que teria de lidar com uma perda familiar, a perda da minha família durante a guerra, e isso foi o mais difícil no processo de escrever, saber como colocar o tom certo. Para mim, tratava-se muito de linguagem, de escrever sobre essa perda de maneira pessoal e honesta, mas sem autopiedade nem sentimentalismos. Outra dificuldade foi parear as imagens com o texto. Nos filmes, as imagens vêm com música e você pode facilmente acrescentar uma emoção, pode ficar rapidamente muito sentimental. Então, tive de pensar muito em como equilibrar o texto e as imagens de maneira a não criar um sentido de sentimentalismo.

Por que você escolheu o termo heimat? O que ele significa para você?
Quando comecei a escrever o livro, meu editor alemão foi imediatamente contrário a usar heimat como título, porque era muito carregado de germanismo. Os nazistas se apropriaram dessa expressão de maneira errônea, como se fosse um espaço estático destinado apenas a certo tipo de pessoa. É isso que a extrema-direita está tentando fazer novamente. Durante o período em que escrevi o livro, o cenário político da Alemanha mudou completamente, a extrema-direita reemergiu. O editor mudou de ideia. Disse que ele tinha, mesmo, de se chamar Heimat, pois temos de retomar esse termo da extrema-direita. Eles não são os únicos com direito a reivindicar essa palavra, todo mundo tem direito a ela e a interpretá-la da forma que quiser. É um termo muito pessoal. Significa coisas diferentes para cada um, não é um termo estático, muda ao longo do tempo, muda ao curso da sua própria vida.

Como a extrema-direita se apropriou do termo?
A extrema-direita está tentando dizer que heimat só é acessível a um tipo de pessoa. Chamei o livro assim querendo chamar a atenção para uma reflexão sobre a Alemanha, sobre a nossa responsabilidade de olhar para trás. Podemos ter sentimentos fortes em relação ao lugar de onde viemos, mas também podemos olhar para trás de maneira crítica – essas coisas não são contraditórias. Pessoalmente, é muito difícil para mim definir heimat. Parte disso se deve ao fato de viver no exterior há tanto tempo. Sou uma estranha no lugar de onde vim, então me conecto por meio da infância, das memórias de minha infância, porque este é um lugar ao qual sinto que posso retornar.

É possível ser crítico em relação ao passado da Alemanha sem deixar de expressar amor ao país? 
Na Alemanha, há uma divisão. Há as pessoas que dizem ‘chega de culpa, precisamos avançar’ – elas são minoria, mas existem. E há as pessoas com as quais me identifico mais, que olham de maneira mais crítica para o país e seu passado. Acreditam que precisamos enfrentar esse passado. O problema é que elas têm muita dificuldade de abraçar a Alemanha e celebrar sua cultura, o que deixa um sentimento positivo para a extrema-direita. Logo, isso não é bom. Os alemães que acreditam que precisamos continuar a enfrentar o passado têm de aprender a amar o país e como expressar esse amor. Não é saudável não ter sentimento positivo em relação a seu país, isso pode rapidamente se tornar uma atitude de defesa, o que é perigoso.

Como os millennials lidam com isso?
Não posso falar por todos, mas, outro dia, fui falar na escola em que estudei. Disseram, basicamente, que não querem se sentir culpados, mas querem se sentir responsáveis. Querem ter a certeza de que não vai acontecer novamente. Não querem se sentir culpados porque não foram eles que cometeram as atrocidades. Essa é uma das maneiras mais saudáveis de seguir em frente, pois a culpa com a qual cresci não é saudável. Precisamos continuar a aprender sobre o Holocausto, mas precisamos encontrar uma forma mais construtiva de lidar com a história, e não uma maneira que nos paralise. Espero que as novas gerações façam isso. Porém, há sempre o perigo de quanto mais nos afastarmos da geração que passou pelo problema, mais fácil esquecer o que ocorreu.


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