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Estado de Minas

Filme explora os limites entre arte e sobrevivência

Novo longa do brasiliense Gustavo Galvão, "Ainda temos a imensidão da noite" leva à tela músicos sob o dilema de estabilidade financeira ou aposta no sucesso


postado em 05/12/2019 04:00

Ayla Gresta interpreta Karen, da banda Animal Interior: desafio de viver da arte(foto: André Carvalheira/Divulgação)
Ayla Gresta interpreta Karen, da banda Animal Interior: desafio de viver da arte (foto: André Carvalheira/Divulgação)
Resistir e fazer o que gosta ou se render ao sistema? Tal dilema, que ronda a cabeça de muita gente, principalmente na juventude, é o mote de Ainda temos a imensidão da noite, terceiro longa do realizador brasiliense Gustavo Galvão. Com um nome célebre no circuito indie na ficha técnica – o guitarrista e vocalista Lee Ranaldo, um dos fundadores da banda Sonic Youth, produziu a trilha sonora –, o filme estreia nesta quinta (5).

Karen (Ayla Gresta) é a trompetista da banda Animal Interior. Moradora da periferia da capital federal, ajuda como pode a mãe e o avô trabalhando numa agência de design. Ela acredita na música e quer se dedicar exclusivamente a ela, custe o que custar. Só que seus colegas de grupo pensam diferente, divididos entre a arte e o trabalho em outras áreas. Com público ínfimo, a Animal Interior vai se esfacelando aos poucos. Karen desiste de Brasília e tenta ir atrás do sonho em Berlim, onde já está vivendo Artur (Gustavo Halfeld), seu antigo colega de grupo musical e ex-namorado.

Personagens entrincheirados são recorrentes nos filmes de Gustavo Galvão. Brasília é também uma personagem da história. Em Ainda temos a imensidão da noite, a capital federal apresenta os jovens adultos (os personagens principais têm 20 e poucos anos) abandonados em uma cidade quase fantasma.
Karen precisa enxergar sua cidade de fora para voltar a gostar dela.

Desde o início do projeto, o diretor queria que a outra referência da personagem fosse Berlim. “Destruída na Segunda Guerra Mundial, foi reconstruída nos anos 1950 e 1960, ao mesmo tempo em que Brasília era construída”, pontua Galvão. O elenco do filme é formado por não atores – todos são músicos, sem experiência de atuação. A exceção é Marat Descartes, recorrente nas obras do diretor.
Lee Ranaldo, referência no circuito indie, e Galvão na gravação da trilha sonora
Lee Ranaldo, referência no circuito indie, e Galvão na gravação da trilha sonora

TRILHA
 Foi Brasília que convenceu Lee Ranaldo a participar do projeto. Em 2016, o músico teve passagem curta para um show na cidade. Mas queria conhecer de perto a arquitetura de Oscar Niemeyer. Foi convidado e, em 2017, voltou para uma temporada de três semanas, turistou, gravou e mixou as músicas.

“Comecei o processo ouvindo as demos e depois trabalhamos no estúdio no desenvolvimento. Eu tinha que sentir que a banda (criada para o filme) era honesta”, conta Ranaldo. De acordo com ele, a maior parte das bandas que conhece passa pela mesma crise que o Animal Interior. “Jovens bandas não pensam em fama e fortuna e, sim, em criatividade e no lado artístico. E a maioria das que conheço tem consciência de que as chances de ficarem ricas com música é mínima. Fazem música porque amam.”

Nesta seara, a Sonic Youth, banda norte-americana que se manteve ativa de 1981 a 2011 como uma das referências no cenário do rock experimental do período, é uma exceção. “Tivemos sorte, pois nossa música é estranha e seguimos nossa carreira fazendo o que acreditamos. E continuo a fazer música estranha”, acrescenta Ranaldo.

Há duas semanas, foi para as plataformas digitais o single e o vídeo de Names of North End women, faixa-título do álbum que Ranaldo lança com Raül Refree em 21 de fevereiro. Esse será o terceiro disco que eles criam em duo. O trabalho quase não tem guitarras. Os dois fizeram as gravações utilizando instrumentos como marimba e vibrafone. Aos sons mais orgânicos a dupla utiliza muito recurso eletrônico. “É a coisa mais aventureira que já fiz”, acrescenta Ranaldo.


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