Continue lendo os seus conteúdos favoritos.

Assine o Estado de Minas.

price

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas por R$ 9,90/mês. Experimente 15 dias grátis >>

Publicidade

Estado de Minas

Em dois novos livros, Patti Smith celebra a vida e honra os mortos

Cantora, compositora e escritora americana, que veio ao Brasil lançar 'Devoção' e 'O ano do macaco', aconselha os jovens a serem livres e a proteger a natureza dos políticos


postado em 19/11/2019 04:00 / atualizado em 18/11/2019 19:19

Especial para o EM

Patti Smith durante show no Popload Festival, na capital paulista(foto: Fotos: Fabrício Vianna/divulgação)
Patti Smith durante show no Popload Festival, na capital paulista (foto: Fotos: Fabrício Vianna/divulgação)


“Aqueles que partiram, que você ama e de quem sente saudade estão com você agora”, garantiu Patti Smith, com ares de profetisa, ao público que foi vê-la cantar no Popload Festival, em São Paulo, no último fim de semana. A plateia, majoritariamente jovem, provavelmente ainda não experimentou muitos lutos. A lembrança dos que já não estão presentes poderia parecer meio fora de lugar num show-celebração, com oferta de seus principais sucessos e covers de clássicos. Mas, sendo ali Patti Smith, cantora, escritora americana, poeta e ícone do punk-rock, era de se esperar que os mortos não ficassem fora da festa.

A morte é inspiração e tema recorrente em seus livros. O mais recente, O ano do macaco (Companhia das Letras), fala da perda de amigos antigos e da passagem do tempo para ela mesma. O processo de escrita se deu em 2016, quando Patti, de 72 anos, estava prestes a completar 70. “Só um número, mas um indicativo da passagem de uma parte significativa da areia prevista na ampulheta. Os grãos caem e eu me vejo sentindo falta dos mortos, mais do que o normal”, registrou.

''Os jovens quando dormem parecem lindos, os velhos, como eu, parecem mortos''

. Trecho de Devoção



Terceiro título de memórias da artista, O ano do macaco volta a mostrar a excelência de sua prosa, enquanto ela se desloca de cidade em cidade, da Costa Oeste à Costa Leste dos EUA, evocando autores e livros queridos e descrevendo o processo de perda de personagens importantes de sua vida, como o dramaturgo Sam Shepard, com quem teve um romance na juventude, e o produtor musical Sandy Pearlman. O pano de fundo é a corrida eleitoral de Donald Trump, cujo nome ela evita citar.

O sentimento ao se dirigir para o velório de Pearlman é definido como “uma onda de amargura irracional”, e serve para sua reação ao noticiário televisivo e dá pistas da iminente vitória do candidato republicano. Permeando tudo, limites nublados entre a ficção e a realidade. Patti se move em direção a livros que ama desde a infância, como Alice no País das Maravilhas e Pinóquio. Como nessas histórias, apesar dos reveses, sobressai uma atmosfera de sonho e de esperança, até.

''Que bom contar com a aprovação de vocês. A maioria das pessoas me acha louca''

Patti Smith, sobre sua relação com Jean Genet



Capítulo após capítulo, a autora é confrontada pela esperteza de uma placa luminosa falante, que faz as vezes da lagarta. Sim, uma placa de hotel, objeto inanimado, tal qual o boneco de madeira de Geppetto, torna-se magicamente capaz de se expressar. A atmosfera onírica chega a confundir o leitor, como se ele sonhasse também.

Talvez por isso, o manuscrito não tenha agradado de imediato a editora, que sugeriu modificações. Vinte por cento do texto foi alterado, mas Patti quis insistir em mesclar as palavras da narradora, entre o que viveu dormindo e acordada.

''Meu marido está morto. Meu gato está morto. E meu cachorro que morreu em 1957 continua morto. E ainda assim, eu continuo a achar que alguma coisa maravilhosa está para acontecer''

Trecho de O ano do macaco



Sonhos e filmes

Em São Paulo, Patti revelou que seus sonhos são vívidos, como se fossem filmes, os quais ela anota num diário, mantido com disciplina. Coincidentemente, o início do show foi com o verso I was dreaming in my dreaming (eu estava sonhando em meus sonhos), da letra de People have the power, música dos anos 1980 – na medida para embalar os protestos contemporâneos. O novo livro que ela está escrevendo, revelou, é o mais abstrato de todos que já lançou.

Gradativamente, Patti tem se aproximado do surrealismo, a cada nova publicação. O primeiro e mais famoso, Só garotos (Companhia das Letras), lançado em 2010, é calcado na realidade, respeitando nomes, locais e datas verídicas. O título surgiu de um desejo de Robert Mapplethorpe, namorado de Patti, antes de se revelar gay, seu melhor amigo para a vida toda. Fotógrafo mundialmente reconhecido, Mapplethorpe pediu que ela escrevesse a história dos dois antes de se tornarem famosos, na decadente Manhattan da década de 1970.

Patti prometeu e cumpriu: dedicou a obra a desvendar a mágica do encontro mais definitivo de sua vida e carreira, desde os primeiros dias de anonimato, passando pela notoriedade de ambos, até ele morrer de Aids, em 1989.

O título seguinte, Linha M (Companhia das Letras), de 2015, é homenagem ao casamento com o guitarrista Fred Sonic Smith e o luto por ele, que morreu em 1994. Um tributo a seu segundo amor, como ela definiu, colocando Mapplethorpe como o primeiro.

A narrativa é um vaivém entre o passado e o presente, entre xícaras de café, programas de detetive na TV e detalhes de sua dedicação aos artistas que ama. Mais uma vez, um livro nasce da necessidade de honrar os mortos. E, nesse caso, não só o marido. Patti também homenageia o irmão, que faleceu no mesmo ano, e reconta sua peregrinação aos túmulos de seus ídolos, como o diretor de cinema Akira Kurosawa, no Japão, e o poeta Rimbaud e o cantor americano Jim Morrison, enterrados na França.



Jean Genet, o ídolo

Ao lançar O ano do macaco em São Paulo, Patti contou sobre sua paixão por Jean Genet, autor do clássico Diário de um ladrão, grande influência em sua escrita. Por Genet, ela foi mais longe: primeiro, na companhia do marido, nos anos 1980, viajou à Guiana Francesa, colônia penal que era o destino de marginais franceses.

Embora Genet, com sua vida de delitos, fosse candidato àquela prisão na América, acabou cumprindo pena na prisão de Fresnes, em seu país de origem, o que considerou uma humilhação. Para corrigir isso, Patti recolheu pedras na Guiana e as levou, depois de viúva, até o túmulo do escritor, no Marrocos. Essa história, detalhada em Linha M, arrancou palmas dos leitores brasileiros. “Que bom contar com a aprovação de vocês. A maioria das pessoas me acha louca por causa disso”, revelou.

Completando os lançamentos brasileiros de Patti neste novembro, Devoção (Companhia das Letras) é um híbrido de não ficção e ficção, mas com limite nítido. A primeira parte conta sobre o processo de escrita, a segunda é uma história ficcional curta. A certa altura, ela escreve: “Os jovens quando dormem parecem lindos, os velhos, como eu, parecem mortos”.

Os grãos da ampulheta passam por Patti Smith. Mas ela e sua obra continuam potentes, como no auge da juventude. É assim que essa americana cativa fãs de sua escrita e música, mostrando que não há loucura em salvar os mortos do esquecimento. Ao mesmo tempo, celebra a vida. E aconselha os jovens a serem saudáveis, livres e a proteger a natureza da maldade de políticos que não merecem ter o nome citado.

Como boa sonhadora, às vésperas de completar 73 anos, seu otimismo resiste às perdas. Nas últimas páginas de O ano do macaco, Patti Smith escreve: “Sam está morto. Meu irmão está morto. Minha mãe está morta. Meu pai está morto. Meu marido está morto. Meu gato está morto. E meu cachorro que morreu em 1957 continua morto. E ainda assim, eu continuo a achar que alguma coisa maravilhosa está para acontecer.”




O ANO DO MACACO

De Patti Smith
Companhia das Letras
168 páginas
R$ 49,90

DEVOÇÃO

De Patti Smith
Companhia das Letras
144 páginas
R$ 39,90
R$ 27,90 (e-book)






Publicidade