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Estado de Minas

Woodstock faz 50 anos em dúvida se foi histórico ou hilário

O sucesso do festival foi uma surpresa para seus organizadores, em 1969. Hoje, o legado deixado pelos três dias de shows e banhos na lama continua suscitando diferentes interpretações


postado em 17/08/2019 04:00 / atualizado em 17/08/2019 11:17

O festival realizado nos arredores da cidade de Woodstock, no estado de Nova York, atraiu quase 500 mil pessoas(foto: Elliott Landy/MORRISON HOTEL GALLERY/AFP )
O festival realizado nos arredores da cidade de Woodstock, no estado de Nova York, atraiu quase 500 mil pessoas (foto: Elliott Landy/MORRISON HOTEL GALLERY/AFP )

Uma declaração política que definiu uma geração, uma epifania de paz, três caóticos dias que transformaram a história da música: os símbolos que cercam Woodstock são muitos e, às vezes, é difícil separar o mito da realidade. O festival realizado entre 15 e 18 de agosto de 1969 tem um peso cultural significativo, mas o legado de meio milhão de jovens festejando na chuva é menos sentido como um subcultura revolucionária e mais como um clichê da cultura pop.

Naquele fim da década de 1960, a sociedade americana estava se recuperando de vários acontecimentos, entre eles os protestos contra a Guerra do Vietnã, os distúrbios raciais e os assassinatos de figuras como Martin Luther King e Robert Kennedy, o que, implicitamente, colocou a paz e o amor de Woodstock como antídoto contra a raiva.

"O estado de ânimo no país era um pouco como o de hoje. Havia uma sensação de violência, de verdadeiro ódio e divisão", afirma Martha Bayles, acadêmica de música e cultura no Boston College. No entanto, embora Woodstock evoque o sentimentalismo para muitos baby boomers, algumas gerações mais jovens podem achar que se trata de uma simples reiteração do "narcisismo dos anos 60", como Bayles expressou.

Apesar da agitação social e política da década, 1969 também foi a última vez em que os Estados Unidos registraram um superavit orçamentário, até 1998, graças, em parte, às manufaturas relacionadas à guerra. "Essa foi parte da essência de Woodstock em 1969. Ilusória ou não, considerou-se a abundância como certa", escreveu Jon Pareles, crítico de música pop do jornal The New York Times, que esteve no festival. "Pensamos que éramos o centro do universo", acrescentou. "E, depois, alguém teve que limpar a desordem gigante que deixamos para trás. Substitua isso por uma analogia ao aquecimento global", escreveu.

Apesar de o Woodstock ter incluído canções de protesto, Bayles descartou a noção popular de que o festival foi político, o que considera um "mal-entendido". "Nem no movimento contrário à guerra, nem no movimento do poder negro... Ninguém desse lado viu o Woodstock como algo além de uma piada." Para os ativistas, o Woodstock "era um grupo de hippies drogados que não eram sérios, que não entendiam quão grave era a situação", disse. "Foi visto pela militância política mais rígida como algo bobo e autoindulgente."

A artista mais ativa politicamente do evento foi a folk Joan Baez, que recorda do Woodstock como "um festival de alegria". Os três dias "foram algo importante, mas não foram uma revolução", disse ao The New York Times. "Uma revolução ou mesmo uma mudança social não acontecem sem a vontade de correr riscos. E o único risco em Woodstock era não ser convidado", afirmou.

FIO CONDUTOR 

Bayles considera que o Woodstock exibiu um gênero de rock enraizado nas tradições folclóricas, blues e gospel que deram à geração dos anos 60 um fio condutor, apesar das severas fissuras sociais.

"A música uniu todos os diferentes setores dessa geração", diz ela. Em sua avaliação, apesar de a comercialização sustentar o circuito de festivais de hoje, ainda restam indícios do espírito de Woodstock. "O poder realmente tinha a ver com a música e a multidão", disse. Era "essa ilusão que a gente tinha de que todos estavam sendo arrastados a algum tipo de experiência coletiva transcendente".

Danny Goldberg, que tinha 19 anos na época e cobriu o festival para a Billboard, disse que, depois de Woodstock, a promoção do rock contou com recursos que antes não eram disponibilizados para o gênero. "Foi um ponto de inflexão na indústria".

O lançamento em 1970 de Woodstock, documentário de mais de três horas de duração que ganhou um Oscar, mudou a imagem de um caótico festival em meio à lama para a de um povoado utópico de paz. No momento em que Jimi Hendrix interpretou sua agora famosa versão do hino dos Estados Unidos na manhã de segunda-feira, a maioria das pessoas já haviam ido embora. No entanto, seu lugar central no filme deu à atuação um peso simbólico e um fundo político, disse Goldberg.

Embora o movimento hippie tenha deixado a sua influência na cultura de massa, como o ativismo ambiental ou a prevalência da ioga, ele "cresceu muito para continuar sendo uma subcultura", na opinião de Goldberg. "Tornou-se um objeto de sátira, em vez de um objeto de idealismo. Esse aspecto de contracultura do legado do Woodstock foi o final de algo, mais do que o começo."#  (AFP)

GRANDES GAROTOS
Confira outros festivais que conquistaram seu lugar na história da música

MONTEREY POP 
Um festival de três dias realizado durante o Summer of Love de 1967, o californiano Monterey Pop recebe o crédito de ter lançado lendas do rock, como Jimi Hendrix, Janis Joplin e The Who. O line-up de 16 a 18 de junho do festival realizado perto de São Francisco atraiu centenas de milhares de participantes e contou com 32 artistas, incluindo a estrela do soul Otis Redding e o músico indiano de sitar, Ravi Shankar. A performance histórica de Hendrix na Bay Area, neste que é considerado o primeiro festival de rock, teve direito à Fender Stratocaster em chamas após a interpretação de Wild thing. "Sem Monterey, não haveria Woodstock, nem mesmo Coachella. Foi um evento musical e cultural que refletiu tudo de bom sobre o rock dos anos 1960", disse Bob Santelli, diretor-executivo fundador do Museu do Grammy.

NEWPORT FOLK FESTIVAL
Fundado em 1959 como parte do já consolidado Newport Jazz Festival para mostrar o crescente revival do folk, o Newport Folk Festival talvez seja mais conhecido como o local onde Bob Dylan plugou sua guitarra elétrica em 1965, irritando os puristas folk da época. Ele voltou a tocar nesse festival somente em 2002, quando se apresentou com uma peruca e barba falsa. Considerado um dos primeiros festivais de música moderna dos Estados Unidos, o fim de semana anual de Newport, realizado no estado de Rhode Island, também é famoso como um catalisador para canções de cunho político. Entre elas, a interpretação de Pete Seeger de We shall overcome, que se tornou um hino do movimento de defesa dos direitos civis nos EUA. É considerado importante para o movimento dos direitos civis dos anos 1960 e se tornou, mais recentemente, uma plataforma para as mudanças climáticas, junto com o ativismo feminista.

Bob Dylan se apresenta no Isle of Wight(foto: AFP/UPI/STF)
Bob Dylan se apresenta no Isle of Wight (foto: AFP/UPI/STF)

ISLE OF WIGHT
Bob Dylan se apresenta no Isle of Wight em 1969. Realizado pela primeira vez em 1968, o Festival Isle of Wight ocorreu em uma ilha britânica no Canal da Mancha e explodiu no ano seguinte, especialmente graças à aparição de Bob Dylan. Foi a primeira apresentação pública do lendário músico e poeta, desde que sofrera um acidente de moto, três anos antes. Ele partiu para a Isle of Wight no mesmo dia em que começou o Festival de Woodstock, em 1969. Esnobou os organizadores do evento em Nova York que esperavam que ele tocasse lá, já que morava na região há algum tempo. Em 1970, o Festival de Isle of Wight se tornou o maior evento do seu tempo, com cerca de 600 mil a 700 mil pessoas reunidas para ver estrelas como Jimi Hendrix, The Doors, Miles Davis, Joan Baez e Sly & the Family Stone. Assim como Woodstock, acabou virando um evento gratuito, depois que os números tornaram impossível conter as multidões. O caos levou a uma lei britânica que impedia multidões de mais de 5 mil pessoas de participar de um evento ao ar livre na ilha. O festival ressurgiu em 2002 e tem sido realizado anualmente desde então.

LIVE AID
O estádio de Wembley, em Londres, no Live Aid, em julho de 1985. Promovido como uma "jukebox global", o concerto beneficente transatlântico Live Aid, de 1985, tinha a intenção de arrecadar dinheiro para agências de ajuda humanitária e conscientizar sobre a fome em massa na Etiópia. Algumas das maiores estrelas da época, incluindo Madonna, U2, David Bowie, Santana e Eric Clapton, estiveram entre os que tocaram no estádio de Wembley, em Londres, e no estádio John F. Kennedy, na Filadélfia. Shows semelhantes estavam acontecendo no mundo, incluindo na então União Soviética, Canadá, Alemanha Ocidental e Iugoslávia. Mais de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo assistiram à transmissão ao vivo, um dos eventos de maior audiência de todos os tempos na TV. Considerada até hoje uma das melhores apresentações ao vivo do mundo, a empolgante e lendária participação do Queen, liderado por Freddie Mercury, entrou para a história.


"(Os três dias de festival) Foram algo importante, mas não foram uma revolução. Uma revolução ou mesmo uma mudança social não acontecem sem a vontade de correr riscos. E o único risco em Woodstock era não ser convidado”

. Joan Baez, cantora

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"(Para os ativistas dos anos 60, o Woodstock) Era um grupo de hippies drogados que não eram sérios, que não entendiam quão grave era a situação. (O festival) Foi visto pela militância política mais rígida como algo bobo e autoindulgente”

. Martha Bayles, acadêmica de música e cultura do Boston College


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