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Estado de Minas CINEMA/ESTREIAS

Fabrício Boliveira vive a glória e a decadência de 'Simonal' na telona

Longa de Leonardo Domingues sobre a trajetória do cantor e a história da música popular brasileira no período da ditadura militar estreia nesta quinta (8)


postado em 08/08/2019 04:00 / atualizado em 07/08/2019 19:04

Fabrício Boliveira interpreta o personagem-título da cinebiografia Simonal, que estreia hoje (foto: PÁPRICA FOTOGRAFIA/DIVULGAÇÃO)
Fabrício Boliveira interpreta o personagem-título da cinebiografia Simonal, que estreia hoje (foto: PÁPRICA FOTOGRAFIA/DIVULGAÇÃO)

Negro, de origem humilde, dono de uma voz e de um swing inconfundíveis, ele se tornou um dos maiores artistas do país. Teve um programa de TV, fez muito sucesso e assinou o que foi considerado, na época, o maior contrato de publicidade de um artista brasileiro – com a empresa anglo-holandesa Shell. Após uma relação polêmica e ainda mal explicada com figuras da ditadura militar, foi acusado de dedo-duro. Conhecido pelo bordão “Alegria, alegria”, ironicamente teve um fim melancólico e triste. Esse é o resumo da trajetória de Wilson Simonal de Castro (1938-2000). A história já virou livro, documentário, musical e agora chega aos cinemas.

Simonal, que estreia nesta quinta-feira (8), marca o início de Leonardo Domingues na direção de longas, depois de uma carreira como montador. Foi ainda criança que o diretor teve o primeiro contato com a obra do cantor e compositor carioca. Nunca se esqueceu da interpretação memorável de País tropical (Jorge Ben Jor) em que Wilson Simonal fez modificações na estrutura e na letra – a parte com as palavras picadas, criando a expressão "pa-tro-pi”. Anos depois, quando participava do processo de pós-produção do documentário Ninguém sabe o duro que dei (2009), dedicado à trajetória de Simonal e dirigido por Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, Leonardo conheceu mais profundamente a história do músico. “Eu o conhecia superficialmente. Gostava de suas músicas, sabia mais ou menos daquele envolvimento com os militares, mas só nesse projeto é que fui ter noção de como era algo muito mais complexo. O documentário já tinha tido uma ótima repercussão, mas eu queria levar essa história para mais pessoas. Daí a ideia do filme”, conta.

Racismo, fake news, ditadura, a própria delação, que acabou ganhando esse status de premiada, estão na pauta do dia. Acho que o filme serve um pouco de alerta para mostrar e evitar que aconteçam novas vítimas como o Simonal. Essa condenação prévia sem ter certeza. Um cara que estava no topo do mundo, que cometeu um erro e sofreu graves consequências por conta disso

Leonardo Domingues, diretor


A cinebiografia dirigida por Domingues traz o baiano Fabrício Boliveira no papel-título. Apesar de não se parecer fisicamente com Simonal, ele conseguiu captar os trejeitos do artista. A mineira Ísis Valverde faz o papel de Tereza, esposa do cantor. Os atores já viveram um casal em outro filme, Faroeste caboclo (2013).

Conhecido como o Harry Belafonte brasileiro, conforme o apelidou seu guru musical, Carlos Imperial, vivido no filme por Leandro Hassum, ou o Frank Sinatra do Beco das Garrafas, como o chamava Miele, papel de João Velho, Simonal deu os primeiros passos no conjunto Dry Boys. Foi ali que chamou a atenção de Imperial. O sucesso era uma questão de tempo. Um dos momentos mais marcantes de sua carreira, registrado no filme com imagens de arquivo, é a apresentação que antecedeu à de Sérgio Mendes, em 1969, num Maracanãzinho, que reunia 30 mil pessoas. “Se eu fosse rodar essa cena, seria muito complicado, grandioso. Como existiam essas imagens que são antológicas, eu quis inseri-las, assim como outras de arquivo no meio da história”, afirma o diretor.

RACISMO Considerado um showman e com um domínio impressionante do público, Wilson Simonal mesclava carisma e arrogância. Era natural que o sucesso estrondoso incomodaria. Em uma das cenas do longa, um jornalista pergunta a ele: “Você tem três Mercedes? Um homem de cor, de sua origem... O seu exibicionismo não é exagerado não, Simonal? Está querendo competir com quem? Roberto Carlos?”. O artista responde: “Onde você está querendo chegar? Negão não pode ter carrão?”.

“O racismo é um ponto importante da história. A gente queria abordar todas essas nuances do personagem”, diz Leonardo Domingues. Mesmo tendo Max de Castro (cantor, compositor e produtor) e Wilson Simoninha (cantor), filhos de Simonal, como responsáveis pela trilha sonora, o diretor afirma que a produção não teve nenhuma interferência da família. Além de mostrar a ascensão profissional de Simonal e seu comportamento em família, o longa não deixa de abordar o assunto mais espinhoso da trajetória de Simonal: o episódio ocorrido em 1971, em que o intérprete de Meu limão, meu limoeiro foi acusado de usar agentes do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), o órgão de repressão da ditadura militar no Brasil, para sequestrar e ameaçar um ex-contador, Raphael Viviani.

No longa, o nome do funcionário muda para Taviani (Bruce Gomlevsky). A partir desse episódio, a vida do cantor nunca mais foi a mesma. Seus discos não foram mais lançados, os grandes palcos lhe fecharam as portas e ele foi tachado de dedo-duro. Deprimido e entregue ao alcoolismo, Simonal teve uma cirrose hepática e morreu aos 62 anos.

Leonardo Domingues diz que a preparação do filme teve início em 2010 e comenta que não imaginava que, lançado em 2019, o longa-metragem seria tão atual. “Racismo, fake news, ditadura, a própria delação, que acabou ganhando esse status de premiada, estão na pauta do dia. Acho que o filme serve um pouco de alerta para mostrar e evitar que aconteçam novas vítimas como o Simonal. Essa condenação prévia sem ter certeza. Um cara que estava no topo do mundo, que cometeu um erro e sofreu graves consequências por conta disso”, afirma.

Até o fim da vida, Wilson Simonal se dedicou a tentar provar que nunca havia sido um delator a serviço da ditadura militar. Após sua morte, uma nova geração de artistas (incluindo seus filhos), DJs e biógrafos se lançaram ao esforço de recuperar sua música e sua arte. “Ninguém duvida de que ele é um personagem muito interessante. Foi um artista extraordinário, que conseguiu fama, sucesso, reconhecimento. Simonal é sempre um tema quente, polêmico. Mas acho importante a gente lançar um olhar sobre ele e sobre a história, a partir da perspectiva do que estamos vivendo nos dias de hoje”, diz Domingues.

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