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Estado de Minas

Talento de Décio Noviello é ressaltado

Referência na arte contemporânea, artista plástico morre aos 90 anos. Corpo será sepultado nesta segunda-feira, às 16h, no Cemitério do Bonfin. Trabalho do coreógrafo e professor no carnaval de BH também deixa é destacado


postado em 29/07/2019 04:09

Décio Noviello foi um dos nomes de ponta nas artes plásticas nos anos 1960 e 1970, e tinha orgulho de ter participado de exposição na inauguração do Palácio das Artes(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Décio Noviello foi um dos nomes de ponta nas artes plásticas nos anos 1960 e 1970, e tinha orgulho de ter participado de exposição na inauguração do Palácio das Artes (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)



Familiares, amigos e artistas se despedem hoje do artista plástico Décio Noviello, morto aos 90 anos, na manhã de ontem, em Belo Horizonte. O artista autodidata, que começou desenhando em um canto de caderno de escola – e era censurado pelo pai, que achava o estudo mais importante –, tornou-se referência na arte pop brasileira. E tinha na história de vida o orgulho de ser um dos participantes da exposição Do corpo a terra, com curadoria de Frederico Moraes, de 1970, concebida para a inauguração do Palácio das Artes e, atualmente, um marco histórico da vanguarda brasileira. O corpo do artista plástico está sendo velado no Funeral House e será sepultado hoje, às 16h, no Cemitério do Bonfim. Ele era natural de São Gonçalo do Sapucaí.

O talento de Décio Noviello foi ressaltado por quem conviveu ou acompanhou o seu trabalho. Ao realizar uma pesquisa sobre os artistas que atuaram na chamada “neovanguarda” da capital mineira entre os anos 1960 e 1970, a historiadora Marília Andrés Ribeiro encontrou em Noviello um importante nome na vida artística da capital. “Ele foi uma pessoa muito atuante e importante para Belo Horizonte, Minas Gerais e o Brasil. Lamento muito a perda dele”, afirmou Marília Andrés, que relembrou especialmente a participação de Noviello na exposição Do corpo a terra, na década de 1970.

O artista plástico Eymard Brandão ressaltou que a atuação de Décio Noviello foi muito significativa para a arte e identidade cultural do estado. “Ele projetou Minas Gerais em diversos segmentos e sempre teve uma atuação positiva em galerias de arte e museus. Era atual e atuante”, afirmou.

Desenhista, cenógrafo, figurinista, gravurista e pintor, Décio Noviello tinha vários talentos e um papel importante na história do carnaval de Belo Horizonte. Em 1979, o artista plástico já atendia a convites da prefeitura para decorar a Avenida Afonso Pena, onde as escolas desfilavam. Em 1983, houve um concurso para eleger a ornamentação mais bonita. O prêmio foi concedido ao artista, com o tema Transamazônica – crítica ao “asfalto puro” da avenida, segundo ele, ainda menos arborizada do que atualmente. Em busca de uma sintonia entre as ornamentações e os foliões, começou a escrever o capítulo mais luxuoso do carnaval de rua de Belo Horizonte, entre 1983 a 1988.

Em entrevista concedida ao Estado de Minas no ano passado, Décio revelou não gostar dos bloquinhos que caracterizam o atual carnaval da capital. “Não tem graça nenhuma. Deus me livre. Podem ir lá, mas não me chamem nem pra ver na televisão”, brincou. Durante a conversa com a reportagem do EM, Décio relembrou como era o carnaval na cidade nas décadas passadas.

“O povo vinha de toda parte ver a avenida. A decoração estava linda, mas não tinha nada decente para passar por baixo dela. Nossas escolas eram a Canto da Alvorada, com tudo muito pé-rapado, e a Cidade Jardim, com umas meninas de sutiã de tirinha vermelha e calçãozinho, ou então usando camisetas rasgadas, desfiadas com tesoura. O corpo pintado de urucum, todo mundo descalço ou de chinelo de dedo, uma coisa horrorosa. Não dava. Noviello relembrou os tempos em que cortejos das escolas de samba eram o ponto alto do carnaval de BH. A cidade superava São Paulo em esplendor na avenida. “Paulistas? Eles não tinham nada. Nosso carnaval aqui era muito melhor. Lá, só ficou bom depois que fizeram o sambódromo”, dizia. “A prefeitura começou a botar dinheiro, ficou uma beleza. Vinham mestre-sala e porta-bandeira do Rio. Pra nós, dos bastidores, as coisas deram uma melhorada boa. O comércio passou a oferecer materiais adequados para adereços e fantasias, coisa que não tínhamos no início”, contou.

ALÉM DO QUADRO Mas a obra de Décio Noviello vai muito além do carnaval. E se configura como emblema de aspectos que toda a sua geração experimentou com intensidade: a tentativa de ‘tridimensionalizar’ a pintura, indo além do quadro, a sedução pelo carnaval e pela arte das camadas populares urbanas (e indígenas) como modelo social e estético, a revalorização positiva do barroco e do rococó como ancestralidade do nacional. O fundamento da linguagem do artista sempre foi um cuidadoso planejamento (geométrico), que se projeta como comentário social para além da sedução pelo aspecto ótico.

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