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Estado de Minas

PERSONAGEM ARREDIO

Na literatura, João Gilberto é tratado sob o prisma da biografia, da ficção e da fantasia. Músico foi à Justiça para tentar proibir circulação de livro que reproduzia "entrevistas desnecessárias"


postado em 21/07/2019 04:18

João Gilberto, Gal Costa e Caetano Veloso, em registro de 1972. Seu encontro com outros músicos, dos Novos Baianos, virou tema de conto(foto: O CRUZEIRO/ARQUIVO EM )
João Gilberto, Gal Costa e Caetano Veloso, em registro de 1972. Seu encontro com outros músicos, dos Novos Baianos, virou tema de conto (foto: O CRUZEIRO/ARQUIVO EM )

Todo grande artista tem uma, quando não mais, biografia de fôlego. Mas não João Gilberto (1931-2019). Em 2012, pela Cosac Naify, o professor da Universidade de São Paulo (USP) Walter Garcia (que havia publicado em 1999 a análise Bim bom – A contradição sem conflitos de João Gilberto, com prefácio de Caetano Veloso), organizou o volume João Gilberto. A antologia de 500 páginas reúne ensaios sobre a obra do músico baiano, fotografias, depoimentos e entrevistas suas publicadas na imprensa.

Mesmo que o livro não fizesse referências à vida pessoal do cantor, compositor e violonista, João Gilberto entrou em uma disputa judicial com a Cosac Naify, pedindo o recolhimento da obra. À época do lançamento, ele havia dito, por meio de seu advogado, que o livro foi publicado sem autorização e “com algumas reportagens desnecessárias” sobre ele. Perdeu a disputa. O livro não foi recolhido e teve todos os exemplares vendidos. Como não houve nenhuma reedição e a editora encerrou suas operações em 2017, o livro só pode ser encontrado hoje em edições usadas.

Chega de saudade (1990), de Ruy Castro, uma espécie de biografia da bossa nova, dá o devido destaque a JG. Outro relato biográfico é o perfil João Gilberto (2001), de Zuza Homem de Mello, escrito para a coleção Folha Explica. Publicado pela editora 34, Anos 70 Novos e Baianos (1997), de Luiz Galvão, aborda o célebre encontro de João Gilberto com a turma de Baby Consuelo, Pepeu Gomes e Moraes Moreira.

Na ficção, João Gilberto gerou o romance Ho-ba-la-lá – À procura de João Gilberto (2011), do jornalista alemão Marc Fischer. Um apaixonado pela bossa nova, ele chega ao Rio tentando, de forma obsessiva, se encontrar com o ídolo. Fischer, que se matou às vésperas do lançamento do livro, faz do romance um divertido thriller – ele se autointitula Sherlock, e dá o nome de Watson à tradutora carioca que o ajudou na procura pelo cantor em diversos pontos do Rio de Janeiro.

João Gilberto dá título a dois livros de contos. Foi em 1982 que Sérgio Sant'Anna publicou a antologia O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro. “Fico satisfeito de ele ter sido publicado muito antes da morte dele, pois aquele concerto que ele não deu no Rio foi muito polemizado”, comenta hoje Sant'Anna, que, com a morte do cantor, preferiu se manter à distância. “Esgotei o assunto na época e a última homenagem que fiz a ele foi o silêncio”, comenta.

CANECÃO O concerto a que Sant'Anna se refere foi um show no Canecão que João Gilberto se recusou a fazer – depois de um diálogo improdutivo com os técnicos de som, ele desistiu da apresentação na então famosíssima casa de shows carioca. “Muita gente reclamou na época, mas, na minha opinião, ele estava certo, pois sempre foi um perfeccionista.” No conto, bastante fragmentado, Sant'Anna mistura a si mesmo, amigos e artistas (um dos destaques é o diretor Antunes Filho) com João Gilberto. Quase 40 anos atrás, o autor fez autoficção, muito antes de o termo entrar na moda. “O não concerto de João Gilberto é a coisa mais real do conto”, diz o escritor.

A frase inicial do conto de Sant'Anna – “John Cage ofereceu a gaiola vazia a João Gilberto e disse que era um presente de despedida” – foi reproduzida pelo escritor Sérgio Rodrigues na abertura de A visita de João Gilberto aos Novos Baianos (Cia. das Letras). Lançado em junho passado, poucas semanas antes da morte de João Gilberto, a antologia de contos é aberta por uma bem-humorada história que mistura mexerica, disco voador e maconha.

“Na verdade, a história surgiu a partir de um encontro casual em um restaurante com o Dadi (baixista que integrou os Novos Baianos), que, até então, eu não conhecia. Saí do almoço com o título A visita de João Gilberto aos Novos Baianos na cabeça. Ou seja, ele surgiu antes da história”, conta Rodrigues, que virá a Belo Horizonte para autografar seu livro no próximo dia 13. Embora seja o conto de abertura do volume, foi o último a entrar. “E, de alguma forma, ele organizou o livro, deu um certo espírito a ele, pois um livro de contos não é só juntar histórias aleatórias”, afirma Rodrigues.

NA ESTANTE

A visita de João Gilberto aos Novos Baianos 
Sérgio Rodrigues
Companhia das Letras (152 págs.)
Preço sugerido: R$ 44,90

Bim bom – A contradição sem conflitos de João Gilberto
Walter Garcia
Paz e Terra (224 págs.)
Esgotado (disponível apenas em sebos, a partir de R$ 350)

Chega de saudade 
Ruy Castro
Companhia das Letras (536 págs.)
Preço sugerido: R$ 82,90

Ho-ba-la-lá – À procura de João Gilberto
Marc Fischer
Companhia das Letras (184págs.)
Esgotado

João Gilberto
Walter Garcia
Cosac Naify
Esgotado

João Gilberto
Zuza Homem de Mello
Publifolha (128 págs.)
Esgotado

O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro
Sérgio Sant'Anna
Companhia das Letras (224 págs.)
Preço sugerido: R$ 52,90




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