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Estado de Minas

Ricardo Carvão cria obras para levar beleza a lugares públicos de BH

Autor de esculturas expostas na Praça do Papa e na Praça da Liberdade, entre outras, comemora 40 anos e carreira e coleciona suas criações em casa


postado em 10/07/2019 04:09

(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A.Press)
(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A.Press)

“Quando visitei o Museu Nacional de Antropologia (na Cidade do México), ficava ali da hora em que abria até fechar. Chegava perto de uma obra e arrepiava até as canelas. Comecei a refletir sobre isso. Decidi não mais ir para o ambiente acadêmico. Escolhi o aprendizado sobre a forma, mas não de maneira convencional, e sim como alimento para o espírito"

“Um colecionador de formas inusitadas, que eu mesmo crio." Assim se define o artista Ricardo Carvão Levy. Nascido em 1949, em Belém do Pará, ele se mudou com a família para a capital mineira em 1964. Em Belo Horizonte, começou a desenvolver o que seria uma trajetória expressiva, com um trabalho singular de esculturas de grandes proporções, utilizando diferentes materiais. Como sua primeira exposição individual foi realizada em 1979, Carvão comemora 40 anos de carreira neste 2019.

Mas sua história profissional começa antes, no início da década de 1970, quando viveu durante sete anos uma imersão na elaboração de obras que somente mais tarde seriam levadas a público. “Vivemos bombardeados todos os dias por notícias pesadas, corrupção, violência, guerra. Procurei construir uma obra que fosse um bálsamo para tudo isso, que propiciasse momentos de deleite, de paz, de boas vibrações”, afirma.

Fascinado pela arquitetura, antes de prestar vestibular, Carvão decidiu conhecer outras culturas. Em 1972, viajou ao México para ver de perto a arte pré-colombiana, pela qual se sentiu profundamente tocado. “Quando visitei o Museu Nacional de Antropologia, ficava ali da hora em que abria até fechar. Chegava perto de uma obra e arrepiava até as canelas. Comecei a refletir sobre isso. Decidi não mais ir para o ambiente acadêmico. Escolhi o aprendizado sobre a forma, mas não de maneira convencional, e sim como alimento para o espírito.”

Admirado com as criações dos astecas, maias e outros povos das Américas do Norte e Central, nesse ponto, sentiu que seu caminho profissional seria dedicado ao tridimensional. Ao retornar ao Brasil, deu início a um processo de aprendizagem autodidata. Ele acredita que foi a partir dessa incursão mexicana que decidiu se dedicar verdadeiramente à arte.

“Nos anos 1970, quando se pensava em escultura, vinha logo a ligação com metal, pedra e madeira, os materiais mais usados. Procurei abrir o leque de possibilidades.” Por sete anos, ele se debruçou em um rigoroso recolhimento sobre a geometria e a matemática, concebendo inúmeros trabalhos utilizando a sola de couro, procurando enaltecer o material inapto e inóspito. Chegou a fazer 600 esculturas em couro, entre peças de até 1,2 metro de altura. Realizou sua primeira exposição solo na Grande Galeria do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, na qual mostrou 147 criações desse conjunto.

AR LIVRE Mesmo com o pendor para a originalidade, a partir de um olhar diferenciado para trabalhar o couro, o artista percebeu que essas obras se restringiam a ambientes internos, já que não eram resistentes a intempéries. “Tinha o desejo de ver minhas peças ao ar livre, em praças, parques, jardins. Que pudessem ser apreciadas por qualquer pessoa, independentemente de classe social ou nível cultural”. É aí que, em 1979, Ricardo Carvão encerra o ciclo do couro e dá início aos trabalhos com diversas matérias-primas, incluindo a que se tornou sua principal até hoje: o aço.

Da infância, ele guarda memórias de momentos bons e uma vida saudável. Sempre em proximidade com a criatividade do Norte do Brasil, conviveu com variadas expressões artesanais, perpassando etnias como a marajoara, a tapajônica e outras mais – tudo que podia observar na cidade de Belém, em museus, no início encontrando muito a cerâmica, de geometria sensível, como as referências zoomorfas e antropomorfas. Além de releituras de tartarugas, do contato com amuletos, como o sapo muiraquitã, recorda-se também de uma rica oferta de utensílios e brinquedos em miriti, uma madeira macia e leve.

Quando chegou a Belo Horizonte, aos 15 anos, foi impactado pela imagem de Aarão Reis, engenheiro que chefiou a construção da capital e que era seu conterrâneo. Diante do busto de Reis instalado na Praça Sete, jurou que deixaria algo de importante para o lugar que naquele instante o acolhia.

Na década de 1960, por um tempo procurando ter autonomia financeira, passou a fazer artesanato, o que acabou mais tarde levando-o para a escultura. Certa vez, recebeu um pedido para produzir uma caixa para ser porta-joias. Quando entregou a encomenda, o cliente apontou uma única falha no objeto: “Não tem sua assinatura”. Em sua opinião, não se tratava de um simples objeto, e sim de uma obra de arte. Em outra ocasião, enquanto estava em uma livraria em Belo Horizonte, teve um encontro inusitado com Inimá de Paula, que logo se aproximou. “‘Onde você comprou essa peça?’, ele me perguntou. E se referia à minha jaqueta de couro. Disse que eu mesmo havia feito, que era artesão. Inimá franziu a testa, meio com ar de reprovação e retrucou: ‘Essa é uma escultura que se veste”’, conta.

“Gosto muito de desafios, de quebrar regras estabelecidas até por mim mesmo.” Atualmente, a assinatura de Ricardo Carvão está em monumentos espalhados pelos quatro cantos de BH, entre praças, galerias e museus. Ele perdeu as contas de quantas peças já fez, entre modelos maiores e de dimensões mais reduzidas. O ponto de partida é enaltecer a energia do material por meio da forma.

SIMBOLOGIA Uma das obras mais celebradas do artista é o Monumento à paz, na Praça do Papa, em BH, comemorativo da visita do papa João Paulo II à capital, em 1980. Não é meramente uma composição de desenhos geométricos. Com dois triângulos e um paralelogramo central, a escultura em aço de 24 metros de altura e 92 toneladas é carregada de simbologia. “Os triângulos formam duas setas. A que se direciona para o céu é a energia terrena, a fé. E a que está virada para a terra é a energia celestial, a bênção divina. O paralelogramo é a somatória das duas energias – ao lado das setas, ele surge. Com o elo entre fé e bênção, nasce a paz”, explica.

Na Praça da Liberdade, o monumento Liberdade, de 1991, é outro marco. Sobre uma base em rocha hematita, o minério em estado bruto se incrusta à escultura em minério trabalhado industrialmente e artisticamente. A obra foi instalada no espaço depois de vencer um concurso. Voo, no Aeroporto Internacional Tancredo Neves, de 1984; Monumento do milênio, no Belvedere, 2000, e o Monumento à visão, no Mirante da Cidade, no Mangabeiras, de 2017, são mais exemplos.

No longo caminho já percorrido pela arte, Ricardo Carvão elabora um trabalho de cunho construtivista, com valorização das formas geométricas, submetendo-as a recortes e dobraduras. O acervo surpreende tanto em quantidade como em diversidade. Ricardo se considera um artista que diversifica material e/ou estilo e/ou técnica. “Ora utilizo máquinas sofisticadas, corte a laser, ora o trabalho é rudimentar, sem energia elétrica, com alicate, formão, tesoura. Muitas vezes atuo com o aço, alumínio, cobre e, em outros momentos, passo para materiais reutilizados, como uma lata amassada, um recipiente plástico, um tubo de PVC, restos de metalurgia, ferro-velho, sucata etc. Em relação a estilos, exploro o abstrato com formas geométricas simplesmente, minimalistas, com apenas duas dobras, até peças cheias de detalhes, figurativas, com muitas soldas, muitos cortes”, diz.

Estudiosos, colecionadores e críticos que visitam seu ateliê são unânimes em dizer que é um dos artistas brasileiros com o maior acervo conservado consigo mesmo. Boa parte das peças está reunida na residência de Carvão, em Belo Horizonte. “Eu me considero um colecionador de esculturas – as minhas.”


“Nos anos 1970, quando se pensava em escultura, vinha logo a ligação com metal, pedra e madeira, os materiais mais usados. Procurei abrir o leque de possibilidades”

Os triângulos formam duas setas. A que se direciona para o céu é a energia terrena, a fé. E a que está virada para a terra é a energia celestial, a bênção divina. O paralelogramo é a somatória das duas energias – ao lado das setas, ele surge. Com o elo entre fé e bênção, nasce a paz


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