Conteúdo para Assinantes

Continue lendo ilimitado o conteúdo para assinantes do Estado de Minas Digital no seu computador e smartphone.

price

Estado de Minas Digital

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas digital por R$ 9,90/mês. Experimente 15 dias grátis >>

Estado de Minas

Homens roubam a cena na série romântica 'Uma noite de primavera'

O preconceito enfrentado por um pai solteiro está no centro da trama de k-drama sul-coreano exibido pela Netflix. Roteiro bem-amarrado mostra a infelicidade causada por intolerância e conservadorismo


postado em 05/07/2019 04:09

O farmacêutico Yu Ji-ho e o pequeno Eun-u: protagonismo masculino no k-drama da Netflix(foto: Netflix/divulgação)
O farmacêutico Yu Ji-ho e o pequeno Eun-u: protagonismo masculino no k-drama da Netflix (foto: Netflix/divulgação)

– Pode olhar para mim? Sinto muito pelo que aconteceu – desculpa-se Yu Ji-ho
– Por que sente muito? – pergunta o pequeno Eun-u

– Fiquei muito bravo com você, mas você não fez nada de errado. Por isso, sinto muito – explica o pai.

– Tudo bem.

– Vai me perdoar?

– Claro – responde o menino.

Uma noite de primavera (Netflix) é uma série romântica diferente. Em vez de moças apaixonadas – que, claro, estão lá –, o protagonismo é masculino. Quem rouba a cena é o farmacêutico Yu Ji-ho (papel de Jung Hae-in), pai solteiro do fofo Eun-u, de seus 4 anos. O rapaz luta para superar o trauma de ter sido abandonado pela namorada, que engravidou muito jovem, fugiu para o exterior e abandonou o bebê. O diálogo dele com o filho nada tem de tatibitate. Ali, “cai a ficha” para o jovem, que “estourou” depois de o pequeno perguntar à bibliotecária Lee Jeong-in (Han Ji-min) se ela é sua mãe.

O farmacêutico e a bibliotecária se encontraram por acaso num começo de primavera. Até então, a vida dos dois era um mar de tédio. Ela, presa ao namoro aborrecido com um executivo rico e meio arrogante. Ele, discriminado por ser pai solteiro, inclusive pelos companheiros. Trabalhador, é devotado ao filho, que mora com os avós por necessidade. Sua única diversão é jogar basquete com a turma. O casal se apaixona, mas tem de enfrentar os amigos, as respectivas famílias e os tabus que ditam as regras na conservadora sociedade sul-coreana. Doces, mas rebeldes, veem-se desafiados pelos próprios preconceitos.

Até agora, o drama romântico – com novos episódios liberados aos sábados – conseguiu driblar clichês açucarados de produções do gênero. Nada de excepcional acontece – aparentemente. A série é feliz justamente por mostrar como a “normalidade” daquele mundinho em volta do farmacêutico e da bibliotecária é só fachada. Por trás de tanto “equilíbrio”, há machismo, misoginia, relacionamentos tóxicos e atroz frustração.

O mundo está mudando velozmente, o Oriente também. Mulheres vão à luta, jovens enfrentam o conservadorismo ancestral, mas não é fácil. A irmã mais velha de Lee, famosa âncora de TV, suporta as brutalidades do marido que o pai lhe impôs. Quer o divórcio, mas essa decisão pode pôr fim à sua carreira. A bibliotecária pena para ser dona do próprio nariz, a contragosto do pai. Os jovens rapazes são cordatos, bem-comportados – cúmplices de valores anacrônicos.

Uma noite de primavera pode parecer distante da realidade brasileira, teoricamente uma sociedade mais liberal em relação a divorciados, pais solteiros e laços de família. Porém, a trama bem amarrada desse k-drama – que lembra o falso mundinho “gente de bem” de nosso novelista Manoel Carlos – extrapola o universo coreano, pois fala, mesmo, é de intolerância, hipocrisia e infelicidade. Pragas alimentadas pela onda conservadora que ganhou fôlego neste século 21.




Publicidade