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Estado de Minas CINEMA

Documentário sustenta que alemães estavam cientes do Holocausto

O filme Final account, de Luke Holland, estreou no Festival de Veneza. Cineasta mostra que a maior parte da população da Alemanha sabia sobre o massacre de judeus na Segunda Guerra Mundial


05/09/2020 04:00

Foto de integrante da SS nazista em cena do documentário dirigido pelo inglês Luke Holland (foto: Passion Pictures/reprodução)
Foto de integrante da SS nazista em cena do documentário dirigido pelo inglês Luke Holland (foto: Passion Pictures/reprodução)
A maioria dos alemães sabia que o Holocausto estava sendo perpetrado durante a Segunda Guerra Mundial, apontaram os produtores do documentário Final account, exibido no Festival de Cinema de Veneza, na quinta-feira (3).

O diretor britânico Luke Holland entrevistou cerca de 300 idosos alemães e austríacos, muitos dos quais ex-membros da SS, para filmar Final account. Holland, que morreu de câncer em junho, fez amizade com ex-nazistas por mais de uma década, persuadindo-os a falar sobre o que sabiam.

APLAUSOS 
Seu filme atraiu aplausos entusiasmados da crítica. O Hollywood Reporter classificou o documentário como “excepcional”, observando que essa pode ser a última vez em que se ouvirão depoimentos de “participantes ativos nos horrores dos campos de concentração”.

O produtor Sam Pope disse que o impressionante trabalho de Holland se deve ao fato de ele ter passado anos conquistando a confiança dessas pessoas. Enquanto muitos lutavam com a própria consciência, outros não se arrependeram, revelando orgulho de ter servido à SS, “na qual todos os homens podiam ser 100% confiáveis”, disse um dos entrevistados do filme.

Outros negaram o Holocausto, embora admitissem abertamente que sabiam de massacres. “Não culpe Hitler”, observou um homem. E acrescentou: “A ideia estava correta, mas (os judeus) deveriam ter sido expulsos do país, em vez de ser mortos.”

Sam Pope lembrou que entrevistas com não combatentes, principalmente mulheres, refutam a ideia de que poucas pessoas comuns, tanto na Alemanha quanto na Áustria, sabiam o que estava acontecendo.

Como se fosse frase de efeito, muitos afirmaram que souberam daqueles crimes depois da guerra. “No desenvolvimento das entrevistas, essa probabilidade se mostra cada vez menor”, observou o produtor. “Mesmo sem ter estado ali ou participado, certamente você conhecia alguém que estava ou ouviu boatos. Por exemplo, seu irmão, que era soldado, chegou em casa um dia e lhe contou histórias.”

No entanto, uma das cenas mais assustadoras do filme ocorreu na Alemanha moderna, quando jovens neonazistas gritam com um ex-soldado SS idoso, que tenta fazer com que eles se envergonhem de ser alemães, ao falar sobre sua própria culpa.

Com ativistas de extrema-direita tentando invadir o prédio do Reichstag (Parlamento), em Berlim, fato ocorrido recentemente, as lições da história são claras, advertiu Pope. “Essas ideologias poderosas e imperfeitas ainda estão presentes e ganham força não só na Alemanha e na Áustria, mas em todo o mundo”, alertou.

PERGUNTAS 
O cineasta Luke Holland, que cresceu falando alemão e cuja família materna morreu no Holocausto, recusou-se a condenar seus entrevistados, a maioria deles na casa dos 90 anos. “Os perpetradores não nascem, eles se tornam”, escreveu. No entanto, fez perguntas difíceis aos homens e mulheres de quem se tornara amigo.

No filme, um homem diz: “Se 99 pessoas na minha frente achassem que não havia problema em massacrar judeus, eu também aceitava. O anormal se torna muito normal sob tais circunstâncias.” 


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