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Estado de Minas

"O momento é de ação", diz diretora de Macunaíma

Peça teatral estreou na última sexta, em BH. Bia Lessa fala sobre como foi enfrentar "o leão" de Mário de Andrade ao lado da Barca dos Corações Partidos e comenta relação com a criação artística e com o Brasil


postado em 01/07/2019 04:10 / atualizado em 01/07/2019 08:57

Bia Lessa, encenadora(foto: LEANDRO COURI/EM/D.APRESS)
Bia Lessa, encenadora (foto: LEANDRO COURI/EM/D.APRESS)
Na cabine de luz do teatro do Centro Cultural Banco do Brasil, em Belo Horizonte, na noite da última sexta (28), a encenadora Bia Lessa prendeu a respiração. O manto da macumba, que comporia um dos personagens de Macunaíma, não havia acendido. “Quando ele entrou todo apagado, para mim foi como uma facada no peito. E não é porque é bonito, mas porque (a luz) tem um significado. Sem luz, ele fica 'quebrado', não fica explícito o discurso que está por detrás daquilo”, comenta ela na manhã seguinte, ao receber a reportagem no hotel em que a equipe do espetáculo se hospeda.

Ninguém da plateia que lotou o teatro na estreia nacional dessa montagem do texto de Mário de Andrade com a Cia. Barca dos Corações Partidos notou que a cena estava incompleta. No sábado à tarde, Bia Lessa se reuniu com todo o elenco e equipe técnica para fazer os apontamentos da primeira apresentação do espetáculo, cuja preparação foi feita ao longo dos últimos oito meses. À noite, ela voltou à cabine de luz do teatro para acompanhar as três horas de encenação na segunda noite de Macunaíma em BH. E assim deverá ser durante toda a temporada da peça na capital mineira, que irá até o próximo dia 14.

Macunaíma é o terceiro espetáculo que Bia Lessa assina nos últimos três anos. Depois de algum tempo sem fazer teatro, ela voltou à cena em 2017, com a instalação cênica Grande sertão: veredas. A celebrada montagem protagonizada que tem Caio Blat no papel de Riobaldo está em cartaz em Niterói e prestes a ganhar sua versão cinematográfica. O longa Travessia tem previsão de lançamento para este ano. Em 2018, Bia Lessa, de 61 anos, voltou à tona com PI – Panorâmica insana, outro sucesso de crítica.

Embora sejam absolutamente díspares, as três montagens têm pontos em comum. Tanto Grande sertão quanto Macunaíma terminam com o mesmo gesto de um ator emulando um pássaro. E Macunaíma começa com um cenário único – um plástico preto, que vai se transformando de acordo com a ação dos atores, algo utilizado na sequência final de PI.

É o diálogo e suas diferentes formas – entre palco e plateia, entre duas ou mais pessoas – que interessam a Bia. “A gente aqui conversando, um olhando para o outro... O resto, nada mais vale na vida”, afirma a diretora, olho no olho, durante a entrevista a seguir.

Qual é a importância de uma estreia?
É, de fato, quando você trava o diálogo com o outro. A beleza da vida é o diálogo. Não é fazer sucesso, isso é uma questão que não entra para mim. O que nós estamos dizendo é isto, o que vocês (da plateia) estão dizendo daí? A estreia é quando você entrega algo que, para você, é muito sagrado. Eu vivo realmente para isso. E não é só a estreia. Vejo todas as apresentações, na medida do possível, e corrijo diariamente. A beleza de qualquer evento ao vivo é a possibilidade de crescer e ir revendo sempre.

No primeiro ato de Macunaíma você constrói um mundo com luz, som e plástico preto, extraindo o máximo do mínimo. É este o teatro que lhe interessa?
Tem uma coisa que é do Brasil. A gente vive num mundo com essa pobreza tão grande. Fazer (teatro) com palco giratório, com não sei o quê que voa, representa menos o que a mim interessa, que é uma discussão com a atualidade. Discussão com a nossa realidade, que é de uma pobreza descarada. Há uma potência criativa de fazer (teatro) com nada, isso é também um pouco do otimismo do Brasil. Apesar de a peça ser triste, ela é otimista, tem vida.

No espetáculo, os corpos estão, na maior parte do tempo, nus. No entanto, o que chama a atenção não é a nudez, mas a força e, por vezes, a agressividade dos corpos. Qual é a importância do corpo para você? 
O ser humano é muitas coisas. Cada vez mais, o discurso é uma parte pequena de nós. E o corpo é uma parte imensa da gente. A gente se entende muito pelo corpo. Acho que a própria ruga que vai ficando no rosto é um desenho do que construímos para a gente. A importância do corpo numa expressão artística é fundamental. É como se deixasse concretas as personalidades. O ato da doação física é muito visível. E,  ainda mais hoje em dia, é muito importante que se diga, nós que já nos escondemos tanto, atrás de tudo, de roupas. Esse espetáculo não tem nu, ele tem é pelado mesmo.

E fazer o agradecimento com o elenco sem roupas dá ainda mais força ao espetáculo.
E sem pornografia, sem erotização. É quase um nu infantil. Eu tinha usado um nu no agradecimento lá atrás, em Orlando, com a Fernanda Torres (a montagem do texto de Virginia Woolf foi em 1989). No final, cada um entrava com seu personagem. A Nanda era o Orlando, que virava homem/mulher. No final, ela vai vir de quê? De homem, mulher? Pelada. Quando ela entrou pelada para os agradecimentos, foi uma comoção. E a gente foi entendendo, aos poucos, que esse momento do agradecimento é sério. É o momento em que você para de frente para o outro, e o outro, que o ouviu durante tanto tempo, vai dizer para você: “Vá à merda, muito obrigada, gostei, não gostei, sai daqui”. E você, estando nu, torna aquilo ainda mais sagrado. É o que é, somos como somos: feios, bonitos, gordos, magros.

Como está sendo trabalhar com um grupo de teatro que já tem sua própria história?
Quando a Andréa (Alves, diretora de produção de Macunaíma) me chamou, a primeira coisa que pensei é que não gosto de grupo, porque não gosto de unanimidade, gosto de trabalhar com coisas variadas. E um grupo, por mais genial que seja, aos poucos vai ficando homogêneo. As pessoas vão pensando as mesmas coisas. Já tive um grupo. E gosto, para cada trabalho, de ter participações muito diferentes umas das outras. O bacana é o choque, a fricção. O que fizemos foi chamar outras pessoas (a Cia. Barca dos Corações Partidos tem sete integrantes; no espetáculo, o elenco tem 14 pessoas). Isso deu dinâmica para o grupo. São pessoas disponíveis, a fim de fazer um trabalho como esse, que é insano pelas horas de trabalho. Não dá para entrar num Mário de Andrade sem saber o leão que se vai encontrar. Fora isso, ainda é um espetáculo que o Antunes (Filho) montou extraordinariamente (a montagem original é de 1978). E ele é meu mestre. Ou seja, este espetáculo é também um diálogo de uma aluna com um mestre.

Você chegou a falar diretamente com Antunes Filho sobre montagem?
Não dava. Quando saí (do Centro de Pesquisas Teatro, CPT, grupo criado por Antunes Filho) ele ficou muito magoado. Ele cria as pessoas. E tem uma hora em que as pessoas têm que sair. Para mim, foi tão forte sair do Antunes que mudei de São Paulo para o Rio. Falei: “Não dou conta de ter minha vida artística paralela a esse gênio, tenho que ir embora. Tenho que esquecer esse cara, quer dizer, nunca esquecer, mas travar um diálogo com ele.” Tanto que todo o meu método de trabalho é muito em cima do dele, mas o oposto. Ele é um cara que ensaia 50 mil horas para buscar um gesto que está na cabeça dele. Eu não acredito em algo que está na minha cabeça e que não está na do outro. O que quero é que o outro crie um gesto que seja só dele. É um método muito da diferença. Disse para a Andréa que eu achava que tinha que pedir permissão (a Antunes para montar Macunaíma). Ela falou com Danilo (Miranda, diretor do Sesc-SP, que abriga o CPT), que foi ao Antunes. Foi bonito receber por um terceiro a permissão. Mas foi muito dura a morte dele no meio do percurso (Antunes morreu em 2 de maio, aos 89 anos). Porque, em algum lugar, uma das delícias de fazer o Macunaíma com essa visão tão diferente da dele era (imaginar) sentar ao lado dele, dar a mão para ele – a minha relação com ele era muito física – e a gente travar um diálogo. Quando ele morreu, foi um baque.

Você fala mais em escritura cênica do que em direção. Você dirige teatro e cinema, faz cenários para shows, monta exposições. Como você se define?
A primeira coisa que vem é trabalhadora. Sou uma operária. Vivo para fazer esse negócio. É a coisa mais importante da minha vida. Quando você escolhe uma coisa, essa escolha nos faz. E quando você nasce com essa possibilidade de fazer coisas, escrever, cortar cabelos, construir casas, aquilo é importante, pois será a marca que você vai passar para o outro. É, de novo, o diálogo. Não é uma peça, entendeu? Não faço uma peça, outra peça, outra peça. É um pedaço da minha vida que estou botando ali. Não faço teatro sempre, é muito difícil, tenho que ter o que dizer naquela hora. E acho que, agora, neste momento, primeiro temos que estar juntos e, segundo, temos que estar em ação. Não dá para a gente estar em casa lendo livro agora em momento de reflexão. O momento é de ação. De peito aberto, nu.

MACUNAÍNA – UMA 
RAPSÓDIA MUSICAL
De Mário de Andrade. Direção: Bia Lessa. Com A Barca dos Corações Partidos. Em cartaz no Teatro 1 do Centro Cultural Banco do Brasil, Praça da Liberdade, 450, Funcionários, (31) 3431-9400. Apresentações de quinta a segunda, às 20h, até dia 14. Sessão extra nesta quarta (3) com acessibilidade. Duração: 180 minutos (com um intervalo). Classificação etária: 18 anos. Ingressos: R$ 30 e 
R$ 15 (meia).


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