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Estado de Minas

Helvécio Carlos


postado em 18/06/2019 04:08

(foto: Cristina Horta/EM/D.A Press)
(foto: Cristina Horta/EM/D.A Press)
LEDA GONTIJO
A ÚLTIMA ENTREVISTA

 
Aos 104 anos, Leda Gontijo não teve do que se queixar da vida. Viúva de Paulo Macedo Gontijo, mãe de Samaritana, Juliana, Luciana, Silvana, Paulo e Bayard, ela sempre foi respeitada por sua obra. Em sua última entrevista, publicada por este colunista na revista Encontro, ela não escondeu o medo da morte. “Tenho pavor dessa danada”, afirmou a avó de 17 netos e bisavó de 15.

Leda morreu dormindo, de sexta-feira (14) para sábado. O corpo foi enterrado no Bosque da Esperança. Até ontem à tarde, a família não havia definido o horário da missa de sétimo dia. A definição dependia da chegada de alguns parentes, esperados 

do exterior e do Rio de Janeiro. Em relação às obras da artista – sobretudo esculturas em pedra-sabão –, a família pretende reunir tudo, catalogar e manter, por enquanto, no ateliê da casa de Lagoa Santa, onde ela passou os últimos dias. As obras foram apresentadas há quatro anos em retrospectiva de sua carreira, no Minas Tênis Clube.

Entre tantas histórias em sua vida, uma das mais importantes foi o fato de ter abrigado Guignard em sua casa, na Serra. Em reconhecimento, o artista pintou uma de suas mais belas obras, que ainda está lá, decorando o teto do salão de festas do Edifício Guignard. Leia a seguir a última entrevista da artista.

Aos 104 anos, qual é sua visão da vida e do mundo?
A vida é a arte de administrar perdas e de aproveitar o momento presente. No meu caso, curtir minha família, amigos e a natureza é o que inspira a minha arte. O mundo é uma multiplicação de vidas em constante mutação. Já me comuniquei por carta, telegrama, telefone, fax, internet e celular. Assisti a filmes nos primeiros cinematógrafos, filme mudo. Hoje posso assistir à TV a cabo e essas novidades como a Netflix. Não li isso nos livros ou nos sites. Eu vivi tudo isso e fui me adaptando, na medida do possível, e me deliciando com essas novidades.

De alguma forma se preparou para chegar até aqui?
Pensei e penso que vou chegar aos 120 anos. Se for antes, vou contrariada. Acho que o segredo é não se preparar. Preparar como? O possível é ser adaptável e flexível. E isso acho que fui e sou, desde sempre. Ah, e gostar de viver.

A senhora sempre esteve à frente de seu tempo. Dirigiu veículos em um momento em que isso não era comum para as mulheres. Jogava tênis de saia no Minas Tênis Clube. Como vê a discussão em torno do feminismo e da posição que a mulher ocupa hoje na sociedade?
Vejo com muita alegria que minhas filhas, netas e bisnetas têm muito mais possibilidades de realizar os seus sonhos e isso sem que a sociedade as condene.

A senhora abrigou Guignard em sua casa. Como surgiu essa amizade e quais as lembranças que a senhora guarda do artista?
Em 1944, foi inaugurada a Escola Parque (hoje Escola Guignard), no Parque Municipal. Logo eu me matriculei e fiz exame para cursar escultura. Fui aprovada e frequentei o curso durante três anos,  tendo Guignard como professor, que me incentivou muito e afirmava que eu tinha jeito para a coisa. Um dia, com a nossa casa ainda em construção, na Rua Caraça, 148, ele viu seu estilo arquitetônico suíço e se prontificou a fazer uma pintura no teto. "Vou pintar no estilo da Bavária", região onde havia morado. Logo que nos mudamos, ele foi também e passou seis meses morando conosco e pintando o teto das duas salas de visita. À medida que ele foi começando o trabalho, fomos nos encantando. A convivência diária, a gentileza e a elegância no trato foram nos conquistando, e nos tornamos muito amigos e muito próximos. À noite, ele desenhava com as crianças, e eu passei a trabalhar em casa, descobrindo formas de modelar e esculpir com o apoio do Guignard, que me ajudou muito a transpor o que eu queria expressar para um objeto tridimensional. Ele dava total liberdade aos seus alunos e era um gentleman.

Como está a sua produção artística? A senhora criou novas peças depois da exposição Leda Gontijo, que marcou seu centenário, na galeria do Minas Tênis Clube?
Bem menos e estou ficando muito preguiçosa e com muito menos desenvoltura. A idade tem dessas coisas, vai trazendo limitações, não é mesmo?

Como é sua rotina entre Lagoa Santa e Belo Horizonte?
Se tem uma coisa que eu não tenho é uma rotina. A vida vai me levando e, como eu gosto muito dela, vou me deixando levar. Topo tudo.


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