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Estado de Minas

Cara a cara com o público

Nova montagem de O auto da compadecida aposta no perfil 'raiz' da peça e promete fazer das ruas combustível extra para o espetáculo


postado em 01/06/2019 04:11

Com o grupo Maria Cutia, sete personagens entram em cena, reafirmando o papel do humor, introduzindo paródias e desafiando fronteiras de gênero(foto: FOTOS: MARCOS VIEIRA/EM/D.A PRESS)
Com o grupo Maria Cutia, sete personagens entram em cena, reafirmando o papel do humor, introduzindo paródias e desafiando fronteiras de gênero (foto: FOTOS: MARCOS VIEIRA/EM/D.A PRESS)

Uma das obras literárias mais populares do país, O auto da compadecida ganhará nova releitura, apostando exatamente nessa característica. Viabilizada via financiamento coletivo e idealizada para ser apresentada na rua, a adaptação da vez é do grupo teatral belo-horizontino Maria Cutia, sob concepção e direção de Gabriel Villela. Com trilha sonora conhecida da MPB, o espetáculo resgata o quiproquó arquitetado por João Grilo com bom humor e espaço para paródias bem atuais, reforçando as críticas sociais presentes no texto de Ariano Suassuna.

Muito musical, há sete artistas em cena. Eles acumulam e alternam papéis, subvertendo estruturas de gênero. Polyana Horta, por exemplo, interpreta o major Antônio Moraes e o bispo. Malu Grossi faz a sacristã, que no texto original é um homem. Lucas Dê Jota Torres é o padeiro e Jesus, enquanto o também músico Marcelo Veronez faz o Padre João e ainda o diabo, assim como Hugo da Silva é Chicó e o cangaceiro Severino. O protagonista João Grilo é papel fixo de Leonardo Rocha. A compadecida, que entra em cena ao som de Tropicália, de Caetano Veloso, será interpretada por Jimena Castiglioni ou Mariana Arruda, responsáveis ainda pela mulher do padeiro.

Gabriel Villela explica que “a transgressão que acontece aqui diz respeito à modernidade do gênero, das culturas e das políticas identitárias, onde homem faz mulher, mulher faz homem, é cis, é trans, é hetero, é ‘etcetero’, é cismado”. O premiado diretor mineiro fala ainda sobre as possibilidades a serem exploradas no clássico de Suassuna. “Via de regra, o teatro, desde o seu nascimento, trabalhou com artifício, que é muito necessário para verossimilhança. Apostamos na artificialidade de algumas coisas para chegar à ideia central do autor, que é uma tipologia que ele põe em cena em busca da identidade de um arlecchino brasileiro, uma figura picaresca que não se conforma em ficar num lugar só e sai dando truques em todo mundo”, argumenta.

A adaptação começa no momento em que João Grilo e Chicó tentam tapear o padre, abusando da ganância do sacerdote e fazendo com que ele benza o cachorro dos patrões. A trama se encerra após o conhecido julgamento, em que o diabo é o acusador, Jesus, o juiz, e a Virgem Maria, a advogada que intercede por Grilo e os demais. Além de introduzir canções populares como Alegria, alegria, Carcará e Peixinhos do mar, instrumentais e cantadas pelo próprio elenco entre algumas cenas, a proposta do Maria Cutia oferece caracterização com menos clichês do que outras releituras conhecidas da obra, como a minissérie da TV Globo, dirigida por Guel Arraes, que ganhou versão cinematográfica em 2000. Tanto nos figurinos quanto na estrutura cênica os regionalismos são dosados.

“Ariano criou esse texto com técnicas teatrais em que a paródia às vezes aparece, às vezes não, com estruturas brechtianas. Nós também fazemos isso, por exemplo, quando colocamos um bispo mineiro. É um momento muito particular, em que uma cultura come a outra. Meio antropofágico. A retirada do sotaque é um respeito ao sotaque de cada lugar, já que a Globo criou um único modo de falar para definir Nordeste. Então, em cena temos só o nosso mineirês dito, mas parodiado”, exemplifica o diretor.

NO ‘MINEIRÊS’ Embora preserve muitias falas originais, elementos mais contemporâneos são sutilmente inseridos. Nos momentos musicais, os artistas até arriscam algumas ironias envolvendo situações contraditórias recentes da política nacional. Em um ensaio geral, aberto à imprensa na última quinta-feira, 30, no Galpão Cine Horto, a fala da ministra da Mulher, Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, sobre “ter visto Jesus na goiabeira”, entrou na versão de Jesus Cristo (Roberto Carlos), usada para apresentar o personagem. Em outro momento, houve ironia destinada às adulterações de currículos, com inclusão de especializações não cursadas especialmente por ministros, assunto que rendeu polêmicas no noticiário e nas redes sociais na última semana.

Villela explica que essas intervenções críticas são fruto de um workshop de dramaturgia ministrado por ele, cujo objetivo era incluir assuntos atuais que “estão na mente do povo brasileiro”. “É um comportamento que vem desde o nosso grande Artur de Azevedo, onde se passava em revista a semana política brasileira nas peças. É uma tradição nossa que anda esquecida. Fomos lá atrás e pegamos isso para colocar outras referências nas paródias, porque elas vão se renovar. Aquilo lá (o atual governo federal) é um festival de burrice e truculência verbal. Imagino que haverá ainda outras coisas para brincarmos em cima. É dinâmico, é quase uma ação folclórica em seu dinamismo essa intromissão de fatos e referências do cotidiano no dia a dia da peça”, define o mineiro, natural de Carmo do Rio Claro, no Sul.

Desafio de  ‘reconquistar’ a rua

Embora tenha sido planejada para ter as calçadas e praças como palco, as primeiras exibições serão em teatros fechados. Primeiro, em Ribeirão Preto, em 9 e 10 de junho, na 19ª Feira Nacional do Livro. Depois, julho, em São José do Rio Preto. A capital mineira deve receber a montagem em agosto. Após o ensaio geral, o premiado diretor destacou que atualmente “a rua está hostil às artes no Brasil”. “Quando fizemos Romeu & Julieta, com o Galpão (1991), pagava-se para exibirmos na rua. Com o tempo, as coisas foram mudando e os representantes políticos começaram a receber reclamações e a cobrar dos artistas, em vez de compartilhar. O espetáculo é um bem público. Eles vieram na contramão disso”, alega o diretor, cenógrafo e figurinista, vencedor de 10 prêmios Shell.

Para a realização de O auto da Compadecida, o grupo Maria Cutia lançou campanha de financiamento coletivo na plataforma Evoé, visando arrecadar R$ 40 mil. Já foram doados R$ 30 mil por apoiadores que recebem pequenas recompensas em contrapartida, colaborando com quantias a partir de R$ 20. “O dinheiro não é o ideal, dá um oxigênio, mas seguimos devendo”, diz Villela, que lamenta as condições atuais de viabilização da arte no Brasil.

“A chance que nos aparece é o Sesc, que cumpre um pouco a presença de um Ministério da Cultura, fazendo o que governos não fazem. A Lei Rouanet, embora devesse ser melhorada, essa pancada na espinha dorsal dela tornou inviável a produção cênica no Brasil. Com esses novos valores estabelecidos (em abril, foi anunciado um teto de R$ 1 milhão para cada projeto) é só o aperto da sucuri. Deram um tempo de oxigênio, mas estamos só esperando a hora de ser engolidos”, critica Gabriel Villela, que tenta preservar a esperança: “Essa gente é passageira. A arte, não. Ela é o triunfo da vida sobre a morte. Nós estamos vivendo e resistindo”.


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