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Estado de Minas

A GENTE NÃO QUER SÓ COMIDA

Belo Horizonte amplia seu cardápio de atrações culturais na hora do almoço para atender a um público que procura aliar a pausa para alimentação com o consumo de música e filmes


postado em 27/05/2019 04:07 / atualizado em 28/05/2019 17:09

Projeto Sinfônica ao meio dia é uma das atrações da Fundação Clóvis Salgado para quem está na região central da capitala cultural, fundado em 2004(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Projeto Sinfônica ao meio dia é uma das atrações da Fundação Clóvis Salgado para quem está na região central da capitala cultural, fundado em 2004 (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)



Um saxofone ecoa às 12h30 em plena Rua Guajajaras, no Centro de Belo Horizonte. Em seguida, ouve-se uma guitarra, um baixo, um teclado e uma bateria. O som é do quinteto formado pelos músicos Daniel Souza, Breno Mendonça, Matheus Ramos, Nathan Morais e Nick. No repertório, músicas autorais e releituras de canções conhecidas como Clube da esquina 2 (Milton Nascimento, Márcio Borges e Lô Borges). O show faz parte do projeto mais antigo do Conservatório UFMG, o Quarta cultural, que desde 2004 traz atrações musicais das mais variadas para se apresentar no estacionamento da instituição sempre na hora do almoço. “A proposta é trazer um refresco, uma pausa nesse momento do dia. Ainda mais aqui no Centro, sempre tão movimentado, muita gente acaba parando para ouvir uma música de qualidade e ainda de graça”, comenta o diretor do Conservatório, Fernando de Oliveira Rocha, que está atrás de patrocínio para ajudar a fomentar o programa. “Ele tem uma visibilidade bacana e muitos artistas pedem para participar”, acrescenta.


Música erudita, popular, bandas e corais já integraram a programação ao longo desses 15 anos. O próprio guitarrista Daniel Souza já esteve em uma outra ocasião tocando e é só elogios à iniciativa. “Além de ser uma oportunidade de mostrar um pouco do nosso trabalho, é um momento para o público de BH, sobretudo quem frequenta essa região, de ouvir um pouco de música, dar uma respirada nessa vida agitada”, comenta.


O público é diverso. Operários, gente engravatada, famílias, crianças e idosos. A maior parte costuma ouvir duas ou três músicas, mas há quem bata ponto toda semana como o casal de aposentados Carmem Caetano e Adílson Celso que mora nas redondezas e há sete anos não perde um Quarta cultural. “É muito raro a gente não vir. É uma oportunidade de ouvir música boa, pertinho de casa. A gente almoça às 11h e meio dia já vem pra cá”, conta Carmem. O marido ressalta a qualidade das atrações. “Já assistimos a quintetos como os de hoje, bandas da Polícia Militar e dos Bombeiros, artistas bem virtuosos mesmo. Cultura sempre é bom e necessária e acho que deveria ter mais programas espalhados pela cidade”, ressalta.


E, pelo visto, Belo Horizonte percebeu que esse período do dia pode ser dedicado não só à comida, mas também à diversão e à arte. Na semana passada, a capital mineira ganhou mais um projeto cultural na hora do almoço. Também às quartas, o Praça 7 Instrumental, em frente ao Cine Theatro Brasil Vallourec, oferece uma música de qualidade de ritmos variados como erudito, popular, jazz, bossa-nova, pop, choro e até rock.

DO LÍRICO AO FORRÓ Curador da empreitada, o maestro Marcelo Ramos acredita que a iniciativa tem tudo para pegar já que o belo-horizontino é conhecido por ser um povo extremamente cultural. “A programação é variada; não dá para ficar engessada porque o público que frequenta a Praça sete é eclético. Temos desde quarteto de cordas a trio de forró. É literalmente do erudito ao popular”, revela. Até o fim do ano serão cerca de 40 apresentações. Ramos comenta quem há um palco montado e que se o projeto se firmar, a intenção é colocar cadeiras para que as pessoas possam apreciar com mais conforto. “E mesmo que chova, ele será transferido para o foyer do Cine Brasil. Além de oferecer à população uma opção artística de excelência, a gente incentiva a produção musical da cidade”, defende.


A Fundação Clóvis Salgado (FCS) também tem projetos nesse sentido. O Lírico ao meio-dia traz um concerto especial nessa semana. Amanhã, às 12h, o evento celebra os 40 anos do Coral Lírico de Minas Gerais. O repertório reúne composições de Mendelssohn, Schubert, e Brahms, além de coros de grandes óperas, como Carmen e o Pescador de Pérolas, sob regência do convidado, o maestro argentino Hernán Sanchéz. As apresentações também contam com participação de Cenira Schreiber, pianista da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, Fred Natalino, pianista acompanhador do Coral Lírico de Minas Gerais, e da solista convidada Andréa de Paula (soprano). O Lírico ao meio dia acontece quinzenalmente alternando com a Sinfônica ao meio dia que traz a Orquestra apresentando grandes obras musicais para agregar valor à hora do almoço.


CINEMA Mas nem só de música vivem os projetos que são realizados no momento mais saboroso do dia. O cinema se faz presente também no Palácio das artes. A mostra Curta no almoço está de volta à programação do Cine Humberto Mauro. Todas às sextas, a partir das 13h15, estão sendo exibidos dois curtas-metragens que dão um recorte da programação da edição 2018 do FESTCURTASBH, que teve como temática o cinema negro.


Bruno Hilário, gerente de Cinema da FCS, espera que assistir a um filme nesse período do dia possa até se tornar um hábito, ainda mais se tratando de um formato de pouca duração. “Não é porque ele é menor que não seja uma expressão cinematográfica importante. O curta traz as suas próprias potencialidades, questões estéticas e é uma oportunidade até para quem não tem muito contato com o cinema, de se interessar mais. E eu asseguro, curta-metragem é uma paixão sem volta. Esse projeto é também para difundir esse gênero”, destaca.


Cada filme dura no máximo 20 minutos o que permite que quem for ao espaço possa almoçar com calma e curtir uma sessão tranquila. “Sempre faremos uma breve apresentação do que será exibido e, em algumas sessões, vamos contar com a presença do próprio diretor. É uma conversa rápida, mas que serve para aproximar o público do cinema. Tudo isso estimula”, diz.


No Santo Antônio, os frequentadores de um restaurante têm a oportunidade de almoçar assistindo a um clássico da sétima arte. Bicho papão – nome sugerido pelos clientes – abriu as portas há 23 anos e há 15 exibe filmes a partir das 12h. “Eu sempre gostei muito de cinema, coleciono filmes e aí decidi exibir na hora do almoço ao invés do noticiário. Tem muita gente que vem aqui e quer saber qual o filme está passando para poder acompanhar”, revela o proprietário Fernando José dos Santos.


De segunda a sábado, ele seleciona uma produção, escreve a sinopse e prega na parede do estabelecimento. “Muitos clientes ficam querendo saber qual é o longa que está sendo exibido. Então fica mais fácil deixar a sinopse ali dando uma geral. O diretor, o enredo, de que ano é. Várias pessoas da área cultural vem aqui por causa da nossa proposta. Aos sábados, temos muitas famílias porque sempre exibimos uma animação. O almoço pode ser muito mais do que um momento de se alimentar. Pode ser sinônimo de entretenimento também”, acredita.

 

à la carte

 

 

Veja algumas das ofertas de eventos culturais realizados em torno do meio-dia

» Quarta cultural. Todas as quartas, das 12h30 às 13h30, nos fundos do Conservatório UFMG (Rua Guajajaras, 100, Centro). Entrada gratuita. Atração do dia 29: Danuza Menezes & Pandeiro Mineiro (música popular). Informações: (31) 3409-8300.

» Lírico ao meio-dia. Amanhã (28), às 12h. Concerto especial dos 40 anos do Coral Lírico de Minas Gerais, no Grande Teatro Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro. (31) 3236-7400). Entrada gratuita.

» Praça Sete Instrumental. Todas as quartas-feiras, entre 12h e 13h, na Praça Sete em frente ao Cine Theatro Brasil Vallourec. Entrada gratuita. Atração do dia 29: Enéias Xavier Jazz Quartet (Enéias Xavier, Chico Amaral, Magno Alexandre e Lincoln Cheib). Informações: (31) 3201-5211 – www.cinetheatrobrasil.com.br

» Mostra Curta no almoço. Toda as sextas, até 2 de agosto, sempre às 13h15, no Cine Humberto Mauro – Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro. (31) 3236-7321) Entrada gratuita, com retirada de ingressos 30 minutos antes. Programação do dia 31: Curtas Impermeável pavio curto, do diretor mineiro Higor Gomes. Palenque, de Sebástian Pinzón Silva (coprodução entre Colômbia e Estados Unidos)

» Sinfônica ao meio-dia, com regência de André Brant. Quarta (4/6), às 12h, no Grande Teatro Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro. (31) 3236-7400). Entrada gratuita. Repertório: trechos de O Rapto do Serralho, de Mozart, O Franco Atirador, de Carl Maria von Weber, e Sinfonia nº 3, de Schumann

» Bicho Papão. Restaurante que exibe filmes na hora do almoço. Rua Viçosa, 479, São Pedro. (31) 3296-9792. De segunda a sábado, das 11h às 15h.

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