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A fantasia do um


postado em 28/04/2019 05:08



Atualmente, não se morre mais pelas pestes, a varíola e outras moléstias que dizimaram populações inteiras antigamente. Hoje morremos em atentados, tsunamis, furacões, crimes ambientais, lixo acumulado, propiciando ninho ideal para mosquitos, violência urbana, câncer causado por agrotóxicos e conservantes nos alimentos.

É quase um suicídio coletivo do planeta. Todo mundo sabe o que é certo e errado, mas isto não basta para nos deter. Somos arremedos de deuses impotentes para decidir pelo melhor. Até mesmo na política, que escolhemos para nos representar e que estaria aí para proteger, legislar, administrar, as cidades e comunidades escolhem o lado pior conforme seus interesses.

O mundo mudou e o homem perdeu o controle sobre o progresso que projetou. Mesmo assim, o homem permanece afirmando que quer o mesmo de sempre, tudo de bom. Será? Há bons lutando contra a insanidade da vida moderna. Há maus assumidos e lobos em pele de cordeiro. Sem saber quem é deveras segue às cegas agindo à revelia.

Afirmamos nosso desejo de paz, segurança, amor, acolhimento, conforto para desfrutar tanto quanto nos for possível nossa passagem pelo mundo. Pelo menos desejamos isso aos nossos, não a todos. E sonhamos isto justamente porque nada disto nos é assegurado pelo outro ou pela comunidade, cabendo a cada um encontrar seu próprio modo de sobreviver.

Batalhamos muito para ter ao menos parte disso. E um pouco já nos alivia. Nascemos desamparados e incompletos. Cabe a um outro nos manter vivos, aquecidos, alimentados. Se aprendemos a chamar por ele, é porque aprendemos que tudo vem de suas mãos. Aprendemos pela repetição das experiências de satisfação e necessidade conjugadas com a presença e ausência do nosso agente cuidador, geralmente materno.

O fato de dependermos integralmente deste agente nos primeiros anos de vida nos faz ansiar, exigir, que ele nunca falte e, depois, perseguir o ideal de ter alguém ao lado por garantia, mesmo que seja ilusão de alguma coisa. Ansiamos uma presença.

Crescer e descobrir que nada nos assegura a não ser nós mesmos é uma decepção e tanto. Deixar cair a ilusão de proteção que vem do outro é terrível, e a adolescência é o momento de queda de ideais.

Neste tempo, não acreditamos mais nem mesmo em nossos pais. Passamos muitos anos observando suas atitudes. Sabemos suas falhas, conhecemos de cor suas farsas e suas mentiras veladas nos levam à lucidez do desamparo.

Está de volta o desamparo inicial, porém agora dotado do que precisamos para nos virarmos: adultos, capazes, produtivos e aparelhados estruturalmente para a independência.

No entanto, levamos cravada no peito uma dorzinha da separação. Por não mais contarmos com um agente cuidador, mesmo integral ou mesmo quando mais precisamos.

Ele até demorava quando éramos crianças, mas chegava. E a espera nos ensinou a fantasiar sua presença, nos fez rememorar a experiência de satisfação que ele nos proporcionava inaugurando nossa capacidade de fantasiar e fundando nossa subjetividade. Sua demora faz a falta e também nos promove a sujeitos dotados de recursos para sobreviver à sua ausência.

E assim, entre presenças e ausências, seguiremos adultos independentes de fato, porém sonhando com alguém que possa nos completar, nos pertencer. Brigamos com nossos pares porque eles não correspondem a tudo o que esperamos deles. E jamais poderão ser tudo que queremos, a não ser que abram mão de si próprios por nós. Não se encontram tantos abnegados assim hoje em dia... nem nunca houve. Mesmo que alguém se anule completamente para não nos perder, nem mesmo assim, poderá preencher uma falta de estrutura. Ninguém pode atender toda demanda, nem que queira... pois não sabemos, nem nós próprios, o que de fato queremos.


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