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O golpe militar e nós


postado em 07/04/2019 05:09

O documentário O dia que durou 21 anos revela a influência dos EUA no golpe de 1964(foto: Pequi Filmes/Divulgação)
O documentário O dia que durou 21 anos revela a influência dos EUA no golpe de 1964 (foto: Pequi Filmes/Divulgação)





Em bom momento, o canal Curta! exibiu o documentário O dia que durou 21 anos, de Camilo Tavares, sobre o golpe militar de 64 no Brasil e o apoio dos Estados Unidos aos militares naquele tempo. Tempo de ditadura, de grande sofrimento e repressão para os que discordavam dos métodos empregados pelo Exército no poder. Muitos foram torturados, mortos e exilados, como sabemos.

Não há como negar que foi um período negro da história do nosso país. Mas, pela primeira vez, me parece haver controvérsias. Alguns querem crer assim. Conheço pessoas que até pensam que o caos é tamanho que seria bom que os militares tomassem o poder de novo, mas que negam a ditadura foi a primeira vez. E justo o presidente da República.

E aí podemos ver que cada um enxerga o mundo como quer e não como ele é. Assim é o poder da denegação e não podemos desprezar o quanto as pessoas só percebem o que querem ver e descartam o resto. Isto é, não consideramos o que não queremos e seguimos colorindo o mundo daquilo que nos convém.

Também porque vivemos cada um mergulhado em sua ficção e acreditamos nela piamente. E nada nem ninguém poderá nos remover de uma crença arraigada na alma. Lutaremos até o fim por ela e com ela. Ou nos alienaremos deixando de querer apurar verdades, pesquisar histórias, relatos.

Mas para quem deseja saber uma versão documentada dos fatos entre 1961 e 1964, poderá encontrar no YouTube este documentário que revi depois da recente polêmica sobre comemorar ou rememorar 1964, pois, naquela época, ainda criança, não tinha entendimento suficiente, mas percebia o frisson, a angústia e o sofrimento.

Primas mais velhas lutaram contra o golpe, foram fugitivas, passaram fome durante dias perambulando pelas praias do Rio, sem pouso ou descanso. Depois presas, torturadas, e disto me lembro muito bem ouvindo furtivamente, com cara de distraída, as conversas dos adultos preocupados, sem saber se estavam vivas ou mortas.

Felizmente, estavam vivas, mas marcadas para sempre pelas terríveis torturas nos porões entre choques nos genitais, paus-de-arara, morte de companheiros e muito mais. Sobreviveram aos sádicos torturadores, alguns deles julgados e condenados muito tempo depois, quando restaurada a democracia e apurados os fatos.

No documentário, toda manipulação dos Americanos para evitar um outro país comunista no Ocidente, além de Cuba. A manipulação dos brasileiros e todo apoio favorável a eles é, então, esclarecida. Kennedy temia outro país comunista no Ocidente e pôs a trabalho seus agentes e recursos de todas as naturezas. Depois de assassinado, foi substituído por Lyndon Johnson, que continuou trabalhando fortemente nesta intervenção no Brasil, empoderando o militarismo. São exibidos conversas e filmes da força bélica enviada ao Brasil para apoiar militares para derrubar João Goulart, que fizera um forte discurso sobre a reforma agrária, que foi a gota d’água.

Elevaram à Presidência o militar Humberto de Alencar Castelo Branco. Em seu discurso de posse, jurou respeitar a Constituição brasileira e não cumpriu. Informações importantes para os brasileiros sobre a história de seu país para que possam se posicionar em relação a tudo que ocorreu, sabendo como se forja um golpe a partir de intenções ocultas. E nós analistas sabemos quão complexas são as subjetividades.

Sabemos também que a única forma de conviver com ela é sabendo um pouco mais sobre o sujeito que somos, e que, além da consciência, somos dotados de um estranho que habita em nós sem que nada saibamos sobre ele. Este estranho íntimo é o inconsciente e nele estão, abrigados da consciência, nossos ódios, nossa lógica, nossos processos de identificação com nossos genitores, e os efeitos deles em nós como dominadores até que possamos compreender e deixar cair aquilo que não coincide com nosso desejo, este sim oriundo do outro que nos criou, mas conquistado para ser apenas nosso. Nosso mais singular guia. Este saber vem de nossa história, do romance familiar que vivemos e esquecemos, mas que nunca se esquece de nós e retorna sempre, nos causando atos e escolhas sem que saibamos claramente do passado.

É possível, por exemplo, entender que os sentimentos e as paixões podem nos dominar a tal ponto que perdemos a visão de limites e nos esquecemos de questionar e duvidar quando movidos por paixões para nos atirar ao desespero de fazer escolhas equivocadas e irracionais.

Quantas mortes, quanto sofrimento poderiam ter sido evitados se a paixão não nos cegasse. Vejam a quantas andam os feminicídios atualmente... Homens que não aceitam a separação, a contrariedade, enlouquecem. O ódio jamais foi o oposto do amor, mas sim sua outra face. Para a política vale a mesma lógica.


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