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Estado de Minas

José Bonifácio: conspirador, 'toleracionista', mau poeta e falso poliglota

EEm As vidas de José Bonifácio, que chega às livrarias nesta segunda (25), historiadora Mary Del Priore desfaz imagem do patrono da Independência e narra suas idas e vindas ao poder no Brasil e suas temporadas de exílio na Europa e vindas ao poder no Brasil e as temporadas de exílio na Europa


postado em 24/03/2019 05:07


Em 12 de janeiro de 2018, José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838) passou a ser considerado oficialmente o Patrono da Independência do Brasil. O senador Antonio Anastasia (PSDB-MG) foi o autor do projeto de lei que deu o reconhecimento oficial ao estadista.
 
“Quando José Bonifácio morre em Paquetá, ele está esquecido. Teve uma cerimônia fúnebre importante não porque fosse quem fosse, mas porque era um acontecimento social na época. Ele estava empobrecido, sequer foi reconhecido no Rio de Janeiro. Sua imagem só foi recuperada em 1922, no centenário da Independência do Brasil”, afirma a historiadora Mary Del Priore.
 
Em As vidas de José Bonifácio (Sextante), que chega nesta segunda (25) às livrarias, Del Priore apresenta uma imagem bem diferente da que a historiografia nos apresentou até aqui. “Quando funda o jornal O Tamoio (em 1823), José Bonifácio constrói a figura do patrono. Defende a ideia de que, sem os Andrada, a emancipação do Brasil não teria sido feita. Só que essa ideia foi construída à custa de muita cizânia, fofoca. José Bonifácio instrumentalizou a maçonaria. Ele tinha um viés truculento”, afirma a historiadora.
 
Mary chegou à figura do tutor de D. Pedro II porque queria falar sobre um brasileiro exilado. “Ele passou 36 anos fora do Brasil. Sempre gostei de personagens com um pé entre o Brasil e o exterior, talvez por causa da minha própria vida, um pouco cá e lá. Queria ver menos a parte política, pois não sou historiadora de história política, mas ter a possibilidade de analisar como um exilado se sentiria. E não sendo parte da família imperial, ele tem um perfil diferente.”
 
Nascido em Santos, na então Capitania de São Paulo, José Bonifácio partiu para Portugal em 1783, onde estudou na Universidade de Coimbra. Como naturalista, fez sucessivas incursões no continente europeu – temporadas na Itália, Suécia, Noruega. Esteve também em Paris no início da Revolução Francesa. Só retornou ao Brasil em 1819.
 
Para compor o perfil dessa primeira fase europeia, Mary pesquisou em diferentes arquivos. A correspondência do próprio José Bonifácio foi uma fonte importante. “Como ele raramente datava as cartas, tive que reconstituir com muita minúcia cada lugar onde esteve, principalmente Paris e Coimbra, para poder associar com a correspondência.”
 
O personagem passou para a história como naturalista, estadista e poeta. “Suas poesias são horrorosas, ele era um péssimo poeta”, destaca a autora. O naturalista tampouco teve grande carreira, Mary afirma. “Quando ele vai para o Norte da Europa (numa excursão científica bancada pela Coroa Portuguesa), não consegue fazer relações humanas. As viagens foram muito frustrantes. O lugar mais importante daquela época era a Inglaterra, uma vez que a mineração estava em desenvolvimento. Pois José Bonifácio não passa do porto. Na parte intelectual, ele não aparece em nenhuma publicação, não deixa marcas.”

TATIBITATE Mary lembra-se do muito que se comenta das 11 línguas que ele falava. “Pois era tatibitate total, algo reconhecido por quem conversava com ele. Todo mundo também cita os cargos que ele teve. Só que ele tinha cargos que não exercia, era mal remunerado. Vivia sempre atrás de dinheiro.” É essa figura, “extremamente frustrada”, que retorna ao Brasil três décadas depois de havê-lo deixado. Tinha 56 anos.
“José Bonifácio tinha um projeto de poder. O grande trabalho dele, que tem a ver com os dias de hoje, são os Brasis. Naquele momento, o Brasil tinha São Paulo começando com o café, a Bahia ainda com o cacau e o açúcar, o Nordeste com o extrativismo. Cada região tinha sua própria agenda e seus políticos defendendo os próprios interesses. Conseguir aglutinar tantas vozes é o grande trabalho que ele faz”, afirma Mary.
 
Para a historiadora, José Bonifácio era um “toleracionista”. “Ele dizia para as elites que não iria abolir a escravidão, mas fazer a antecipação (extinção gradual da escravidão e emancipação, também gradual, dos escravos) para depois ver como iria ficar. Mais tarde, quando fala sobre a inclusão dos escravos, não há nenhum pioneirismo nisso. O que ele faz é beber no que já havia sido escrito sobre o assunto por colegas.”
 
Realizada a independência, em 1822, José Bonifácio continua no poder até o ano seguinte. Banido, acaba sendo exilado e volta para a Europa, numa temporada de mais seis anos. Em seu último retorno ao Brasil, José Bonifácio volta ao poder como tutor de D. Pedro II. “É interessante ver que, mesmo com a partida de D. Pedro I para a Europa, em vez de se acalmar, José Bonifácio volta a fazer política. Chega a falar mal até da governanta das crianças. Tenta dar o golpe da restauração (o que representaria o retorno de D. Pedro I), ou seja, está sempre conspirando.”
 
Sua trajetória pública termina em dezembro de 1833, de maneira nada pacífica. É acusado de traição. “Sob as armas de mais de 100 homens da cavalaria e da infantaria, o tutor foi obrigado a entregar o cargo. Seguiu, depois, na sege do juiz Pilar, até a rampa da Praia de São Cristóvão. De lá, atravessou às escuras as águas da baía, até a pequena Paquetá. Em casa, ficou em prisão domiciliar”, escreve a historiadora. Concluída a biografia de José Bonifácio, Mary já está às voltas com outra personagem polêmica da história do Brasil. “Vou mostrar que Dona Maria (rainha de Portugal entre 1777 e 1816, mãe de D. João VI) não era louca”, finaliza Mary.

TRECHO

“Mas, com tantas acusações, de onde veio a imagem de Patrono da Independência associada a Bonifácio? A mesma historiadora explica que, até pouco antes do 7 de setembro, os elogios que lhe eram dirigidos como varão sábio e judicioso eram insignificantes. Os holofotes estavam sobre D. Pedro, e o sábio da Corte era José da Silva Lisboa, futuro visconde de Cairu, economista leitor de Adam Smith, jurista e político amicíssimo de D. João VI, de quem foi assessor para assuntos econômicos, e de D. Pedro. Aliás, Bonifácio malevolamente o chamava ‘Sílvio, o corcunda, fração de gente, charlatão idoso’. Raramente qualquer dos Andradas recebia elogios. Porém frei Francisco Sampaio, importante figura da maçonaria, fundou O Regulador Brasileiro, no qual brotariam – et pour cause – os maiores elogios a Bonifácio. Foi, portanto, no Regulador que teve início o engenhoso trabalho de criação da imagem que o fixaria na História. Trabalho intensificado quando os irmãos passaram a editar O Tamoio.”

José Bonifácio tinha um projeto de poder. O grande trabalho dele, que tem a ver com os dias de hoje, são os Brasis. Naquele momento, o Brasil tinha São Paulo começando com o café, a Bahia ainda com o cacau e o açúcar, o Nordeste com o extrativismo. Cada região tinha sua própria agenda e seus políticos defendendo os próprios interesses. Conseguir aglutinar tantas vozes é o grande trabalho que ele faz” 
Mary Del Priore, historiadora 

Mary Del Priore, historiadora

As vidas de José Bonifácio
Mary Del Priore
 Sextante (328 págs)
R$ 44,90 e R$ 24,99 (e-book)


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