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'Circo Místico' é metáfora do dilema entre a tradição e a paixão

Para comemorar seus 30 anos de fundação, o grupo Voz & Companhia volta a encenar a obra, com 30 artistas no palco. "É o nosso 21, do Corpo, ou o nosso Romeu & Julieta, do Galpão", afirma Ernani Maletta


postado em 16/03/2019 05:16

(foto: fotos: Guilherme Machala/divulgação)
(foto: fotos: Guilherme Machala/divulgação)


Na Áustria do século 18, Frederico Knieps se apaixona pela equilibrista Beatriz. O amor faz com que ele contrarie o desejo de seu pai, médico da rainha, que gostaria de ver o filho seguir a mesma profissão. Para estar perto da amada, Frederico se junta a uma saga circense que se estenderá por gerações. A história, escrita em forma de poema pelo modernista Jorge de Lima, em 1938, ganhou uma antológica adaptação para os palcos em 1983, pelo Balé Guaíra, com música de Chico Buarque e Edu Lobo. As composições da dupla embalam também a recente versão cinematográfica da obra de Jorge de Lima dirigida por Cacá Diegues. O Grande Circo Místico foi o filme que, no ano passado, o Brasil selecionou para ser seu representante no Oscar.

Pois entre as diversas abordagens que o poema suscitou, a versão para os palcos encenada pelos mineiros do grupo Voz & Companhia foi capaz de impressionar Chico e Edu Lobo. É com o formato original do espetáculo cênico-musical Circo Místico que o grupo retorna aos palcos de Belo Horizonte neste sábado (16), depois de 10 anos sem apresentá-lo. A retomada do clássico é uma forma de comemorar os 30 anos de fundação do Voz & Companhia.

O maestro Ernani Maletta, diretor do espetáculo e um dos fundadores do Voz & Companhia, diz que a montagem de Circo Místico começou “com um sonho, uma admiração pela obra-prima de Edu Lobo e Chico Buarque”. A falta de recursos, no entanto, adiou essa intenção por algum tempo. “A gente queria, no fim dos anos 1990, montar um espetáculo teatral, mas nunca conseguimos os recursos necessários. Em 2000, resolvemos fazer todo o repertório, com os arranjos do Marcinho Sant’Anna, e começamos a ensaiar. O resultado era magnífico e assim surgiu uma montagem que mesclava esses dois formatos, cênico e musical”, diz.

O espetáculo estreou em 2001. Em 2006, durante a passagem de sua turnê pela capital mineira, Chico Buarque assistiu à montagem do Voz & Companhia. “Apresentamos (o espetáculo) no Palácio das Artes para um comitê de pessoas convidadas por ele. Foi o evento da nossa vida, porque ele cantou junto com a gente e foi só elogios”, relembra Maletta. Além disso, Chico deu outro valioso conselho ao músico mineiro: “Ele falou que eu precisava mostrar isso para o Edu Lobo, que ele iria adorar, e para gravarmos”. Edu Lobo de fato gostou do resultado do grupo mineiro e autorizou a gravação. Assim, em 2009, o Voz & Companhia lançou o álbum com sua versão da obra.

PAUSA

Por outro lado, o ano marcou também uma interrupção nos trabalhos da companhia, com a ida do maestro para a Itália, com objetivos acadêmicos. Nesse período, apenas versões alternativas de Circo Místico foram apresentadas. Agora eles estão de volta com potência máxima: são mais de 30 cantores-atores no palco, incluindo todos os profissionais que gravaram o disco e a interpretação de 14 canções em uma hora de espetáculo. “É uma felicidade enorme voltar com o mesmo grupo de 10 anos atrás, mas com outra maturidade e percepção”, afirma Ernani Maletta.

O diretor reforça que, mesmo com o passar dos anos, a peça não perde seu poder de cativar, graças aos aspectos somados às vozes dos artistas em cena. “A obra de Lobo e Chico tem uma beleza extraordinária. A gente se coloca em cena como intermediário disso. Não queremos ser mais belos do que a obra, mas compartilhar essa beleza com o público. Isso é possível por meio de um complexo polifônico, que entra na minha grande pesquisa na universidade. O espetáculo tem vozes além daquelas cantadas no coral: as cores, o figurino, a movimentação da luz. É como se cada um desses elementos se tornasse uma instância discursiva e uma melodia que chega ao público por outros sentidos além da audição”, diz Maletta, que também é professor de teatro da Escola de Belas Artes da UFMG.

Segundo ele, o conteúdo lírico por trás da música também é outro fator de encantamento proporcionado pelo Circo Místico. “A poesia original toca em uma questão que é de todo artista. Acho que a maior parte de nós vive um pouco esse drama, obrigados a seguir um modelo de alguma forma valorizado, em vez de ter a própria identidade respeitada”, diz ele, referindo-se ao drama interior do personagem principal, dividido entre as aspirações do pai para sua carreira e o desejo de fazer o que ama.

“Esse tema nos toca profundamente. Isso é parte da nossa vida. Quantos de nós já abandonamos o ideal profissional do pai ou do avô para seguir o nosso desejo? E quantos não tiveram essa oportunidade? Imagina quantas pessoas já foram tocadas pelo ‘Circo Místico’ e não puderam se juntar a ele”, questiona, citando ainda o verso “Ir deixando a pele em cada palco e não olhar pra trás”, presente na faixa Opereta do casamento, como um símbolo do ofício.

Apesar da devoção à arte e da dedicação ao grupo Voz & Companhia, Ernani Maletta lamenta a falta de apoio e incentivo para os projetos. Segundo ele, o grupo que surgiu como “um coral de boteco” e ganhou relevância nacional, sobretudo pelo Circo Místico, ao qual ele se refere como “o nosso 21, do Corpo, ou o nosso Romeu & Julieta, do Galpão”, tem dificuldades para conseguir patrocinadores. “Tivemos algum apoio no começo, mas hoje precisamos nós mesmos arcar com alguns custos. Para essa temporada, tivemos apenas o apoio da loja Outer Shoes e sempre contamos também com a Fundação de Educação Artística, onde realizamos a maioria das apresentações. Sem ela, não sobreviveríamos. Mas vamos continuar. Não vamos parar”, afirma o maestro.

Circo Místico

Temporada comemorativa de 30 anos do Grupo Voz & Cia. Sábado (16/3 e 23/3), às 20h, e domingo (17/3 e 24/3), às 19h, na Fundação de Educação Artística (Rua Gonçalves Dias, 320 – Funcionários). Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada), à venda na bilheteria e no site Sympla. Mais informações: (31) 3226.6866.


A obra de Lobo e Chico tem uma beleza extraordinária. A gente se coloca em cena como intermediário disso. Não queremos ser mais belos do que a obra, mas compartilhar essa beleza com o público”

“A poesia original toca em uma questão que é de todo artista. Acho que a maior parte de nós vive um pouco esse drama, obrigados a seguir um modelo de alguma forma valorizado, em vez de ter a própria identidade respeitada”

. Ernani Maletta
, maestro e professor de teatro


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