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Os amantes, livro do indiano Amitava Kumar, é publicado no Brasil

Romance fala do amor e do desejo sob a perspectiva de um imigrante que desembarca em Nova York. Radicado nos EUA, autor diz que a história e a política marcam a sua obra


postado em 12/03/2019 05:06

(foto: Amitava Kumar/site oficial)
(foto: Amitava Kumar/site oficial)

 

 “Migração sempresignifica olhar com novos olhos, e lutar para encontrar um novo entendimento.Essa luta podeenvolver aprender uma nova língua”

“Quando Trump assumiu, isso me levou de volta para os dias pós-ataques de 11 de setembro. Me senti exposto e vulnerável

“No meu romance, usei recortes e notas de rodapé para dar um sentimento do mundoreal invadindo a vida dos meus personagens

Amitava Kumar, escritor

 

 

 

Quando Kailash – o personagem principal de Os amantes – chega a Nova York, vindo da Índia, imagina-se num tribunal “para indivíduos acusados de agir sob pretextos falsos ou de cometer atos indecentes”. O primeiro deles é a imigração, mas não menos importante é o segundo: querer explorar o próprio desejo. “Você olha para um imigrante de pele escura naquela longa fila do JFK, as roupas novas amassadas pelo longo voo, aquele odor maturado que o acompanha, os olhos assombrados, e você se pergunta se ele sabe ou não falar inglês. (...) Você olha para ele e pensa que ele quer seu emprego e não que quer, simplesmente, trepar”, diz um trecho do romance.

 

Kailash é uma espécie de alter ego de Amitava Kumar, autor desse e de outros diversos livros, professor universitário no Vassar College, em Nova York, e colaborador do The New York Times, The New Yorker e Granta, entre outras publicações. Os amantes é seu primeiro livro publicado no Brasil. Em entrevista concedida por e-mail, o autor discute os temas do romanace, definido por ele como “um trabalho de ficção, bem como de não ficção”. (Estadão Conteúdo)

A imigração é o tema principal do livro, mas também se poderia dizer o mesmo sobre o amor. Ehsaan Ali é, talvez, a pessoa mais citada no livro. É um personagem ficcional, mas você conheceu o professor Eqbal Ahmad, no qual o personagem é inspirado?
Pensei nesse livro como o meu “Livro do amor”. E o que significa ser imigrante nesse novo país chamado desejo. Há amor pelas mulheres que meu narrador, Kailash, encontra. Ou o que ele pensa ser amor. E há também o amor por seus pais e pela casa que ele deixou. Mas o amor que parece mais intencional, mais pronunciado, é por seu mentor. Nunca conheci Eqbal Ahmad, mas ele era uma lenda nos círculos pós-coloniais. Pessoas como Edward Said dedicaram livros a ele; Noam Chomsky e Howard Zinn eram seus amigos. Sempre me interessei por uma figura como essa, não menos como escritor. Também tenho mentores secretos, como John Berger, Susan Sontag, Philip Roth, Michael Ondaatje.

Outro aspecto é um tipo de amor pelos Estados Unidos. Como é amar esse país?
Amor é sempre complicado. Amo a vastidão desta terra, sua beleza, oportunidades que me deu. Tenho um relacionamento diferente com seu poder, sua política, seu presidente.

Você era um adulto jovem nas experiências que descreve (no início dos anos 1990). Mas o livro é recente. O interesse por amor desvanece com o tempo?
O amor nunca desaparece com a idade, ele muda de natureza. Isso é tudo. Conforme envelheci, descobri que o amor muda. Amo meus filhos com uma fúria que causa ciúmes na minha esposa. Para falar a verdade, quis escrever Os amantes, um livro sobre amor, porque do meu lugar na meia-idade queria relembrar o que significava para mim estar apaixonado daquele jeito. Não há nada como a loucura do amor jovem.

Uma resenha positiva do livro aponta a “inabilidade do narrador em dizer as coisas diretamente, conforme ele falha em articular seus desejos, ou entender os dos outros”. Você acredita que isso pode ser o resultado da experiência da imigração?
Acredito que migração sempre significa olhar com novos olhos, e lutar para encontrar um novo entendimento. Essa luta pode envolver aprender uma nova língua. Sinto que meu narrador estava tropeçando em direção à consciência. Seus cálculos imperfeitos frequentemente o deixavam bloqueado no silêncio.

Edward Said, citado no livro, diz: “O exílio é estranhamente atraente como reflexão, mas terrível como experiência”. No fundo, exílio e imigração são o mesmo?
Exílio é uma experiência de migração forçada. A imigração pode ter causas mais benignas, menos coercivas. As experiências podem se sobrepor, mas não são idênticas.

Quando você viveu essas experiências, o muro de Donald Trump existia apenas nos sonhos loucos dele, talvez. Porém, mesmo antes dessa ideia, os Estados Unidos constantemente elevaram barreiras para imigrantes, certo?
Os Estados Unidos sempre fizeram leis proibindo imigração de países asiáticos. Já em 1882, havia o Chinese Exclusion Act. Depois, o Immigration Act de 1924 introduziu cotas para estrangeiros, e a cota para imigração da Ásia era zero. O banimento de muçulmanos de Trump é novo, mas também existe uma história de exclusão nesse país.
Você vive nos Estados Unidos por um par de décadas. O racismo xenófobo ficou pior sob a administração Trump? Ou não ficou?
Um insulto berrado no estacionamento, uma garrafa arremessada na rua por alguém em um carro passando. Ou atos mais comuns, mesmo sutis. Acontecem o tempo todo. Mas quando Trump assumiu, isso me levou de volta para os dias pós-ataques de 11 de setembro. Me senti exposto e vulnerável.

Como essas políticas influenciam o trabalho de um escritor?
Essa é a questão imortal para mim. Como pessoas viventes, respirando e pensando, sempre estamos nadando na história. Na política. Nas notícias que nos cercam. Como escrever sobre isso? É o mesmo que perguntar: Que nova forma pode dar expressão para o mundo político que habito, ou quero habitar, e, ao mesmo tempo, ser uma forma própria?. No meu romance, usei recortes e notas de rodapé para dar um sentimento do mundo real invadindo a vida dos meus personagens.

No livro, você conta como Ehsaan chega a Londres e vai direto à Baker Street, o endereço de Sherlock Holmes, e ao túmulo de Karl Marx. Você teve uma experiência assim em Nova York?
Fui a um parque em Nova York. Ali, havia um jardim de esculturas com trabalhos de diferentes imigrantes. Uma citação de um trabalhador italiano, do início do século 20, dizia: “Me disseram que as ruas aqui eram pavimentadas com ouro, mas então vim e descobri que não apenas as ruas não eram pavimentadas com ouro, elas não eram nem mesmo asfaltadas, e eu seria a pessoa a pavimentá-las”. Essa foi a minha experiência.


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