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Estado de Minas

Os dias que se seguem


postado em 10/02/2019 05:04


Continuamos chocados com o desaparecimento e as perdas depois da tragédia em Brumadinho, mas é preciso continuar e elaborar esta dor. Este lamento não pertence apenas aos parentes e amigos das vítimas, mas é de todos os que sofrem com eles os efeitos e as consequências dos últimos acontecimentos. Não perdemos apenas pessoas, mas a confiança, a segurança, montanhas, plantações, animais, peixes e rios.

A busca por desaparecidos, os corpos retirados da lama, velórios, enterros, famílias desoladas e ainda os desaparecidos nos desalentam. Pura perda. Além da perda maior, as pessoas, há o prejuízo ecológico com o soterramento por lixo industrial de um pedaço significativo do estado. Há ainda a ameaça de outras barragens.

O estado está em luto, a população está em luto, as pessoas que perderam pessoas queridas estão em luto e um luto não tem remédio. Não há medicação que cure esta perda. Nada anestesiará tamanha dor.

Uma ferida aberta nos que ficaram. Deverá doer e ser gradativamente fechada. Para isso será preciso falar sobre o que ocorreu, como ocorreu, para não sufocar a dor, para que ela não se torne um tumor na alma de quem engoliu seu sentimento, seu pranto calado. A ferida precisa ser tratada. E será longo o processo. Um caminho doloroso, porém, necessário para continuar vivendo.

Em Freud encontramos palavras que serão nosso recurso para fazer o luto e nos ajudarão a entender a importância deste processo. O luto é um afeto normal que ocorre como reação à perda. Não apenas de pessoas, por morte ou separação, mas também de uma ideia, a liberdade, a pátria, um emprego, um ideal.

Um luto se cura atravessando. A constatação da falta, a cada reencontro com a ausência que aperta o peito. Acaba com a vontade, faz o dia difícil de suportar, e a cada instante nos relembra a pessoa que fazia, e ainda faz, parte da nossa vida. Serão lembranças e saudade.

O luto, no entanto, não carece de tratamento, nem de medicação, melhor não o perturbar com ingerências desnecessárias, ele se encerrará com o tempo. Um percurso que em algum momento termina. Apenas merece atenção caso o tempo não seja capaz de realizar ou finalizar este processo. Neste caso, torna-se melancolia e uma nuvem recobre o ego permanentemente.

Durante o luto será normal a suspensão do interesse pelo mundo exterior, a diminuição da capacidade de amar e substituir o que foi perdido, inibição de atividades que não tenham a ver com a memória do objeto querido e perdido.

Estas são expressões da dedicação ao luto e nada mais pode interessar durante o processo de esvaziamento do espaço, interno e externo, ocupado antes por este objeto amado. Uma a uma as lembranças e expectativas pelas quais a libido se ligava a ele são abandonadas e se realiza o desligamento.

Só gradativamente e com a repetição do reencontro com a ausência é que nosso eu pode, já esvaziado, se desocupar do luto e estar livre e desinibido para novas ligações. O normal é que, concluído o luto, vença o respeito à realidade da perda. Estamos no reino da impotência diante da morte.

Tudo ou o pouco que podemos fazer agora é acolher as famílias com nossa solidariedade. Dizer a elas que não estão sozinhas, muitos de nós, mineiros (do minério e das minas), estamos solidários, pois eles fazem parte do nosso estado, da terra e do povo que amamos e são parte de nós. Precisamos impedir que tudo se acabe por dinheiro.


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