Continue lendo os seus conteúdos favoritos.

Assine o Estado de Minas.

price

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas por R$ 9,90/mês. Experimente 15 dias grátis >>

Estado de Minas

Morte não é o fim


postado em 19/01/2019 05:02


Outro dia, uma prima comentou comigo sobre o vídeo que recebeu no WhatsApp. Para quem não sabe, acho que sou a única ou das pouquíssimas pessoas do planeta que não tem celular. Consequentemente, não tenho acesso às redes sociais. O material era um trecho da aula-palestra da médica Ana Cláudia Quintana Arantes, geriatra e gerontóloga, explicando o que é Hospsi. Termo do qual minha prima nunca tinha ouvido a respeito – e, confesso, nem eu.

Ficamos surpresas positivamente com a “novidade”, que nem deve ser tão nova assim. De acordo com a médica, Hospsi é “uma filosofia e, ao mesmo tempo, um espaço ao qual as pessoas são levadas para receber os cuidados mais incríveis do mundo no final da vida”. Ou seja, auxilia quando a doença, além de incurável, ameaça a continuidade da existência e não há nada que a medicina possa fazer.

O paciente vai para o Hospsi receber cuidados paliativos multidimensionais (nos âmbitos físico, emocional, familiar, social e espiritual), desenvolvidos e oferecidos – até o momento da morte – por equipe capaz e qualificada. O processo se completa com suporte ao luto oferecido à família e amigos.

Todos os recursos diagnósticos e terapêuticos disponíveis visam à qualidade de vida do paciente e de sua família. O trabalho da equipe tem como objetivo o alívio e a prevenção do sofrimento envolvido na evolução do adoecimento, no processo humano de morrer e se despedir. A proposta é valorizar a vida em sua plenitude, até o último instante.

“Ali, não se fica a serviço da doença”, explica Ana Cláudia. “Por sinal, a doença pouco importa. Todos sabem que a pessoa tem pouco tempo de vida. Por isso, deve ser tratada como um rei ou rainha e toda a sua família como nobres. Isso porque têm pouco tempo de majestade na vida e é preciso honrar esse tempo. Como honramos, eles começam a honrar também, tornando-se pessoas vivas, pois até aquele momento todo mundo as observava como se já estivessem mortas.”

A geriatra cita o caso do homem que chegou ao Hospsi em estado terminal de câncer. Com 44 anos, casado e com um filho de 13, apresentava anemia grave, nível 6 de hemoglobina no sangue (o normal é entre 12 e 14), muita dor, cansaço e falta de ar. Em dois dias, já estava muito melhor. A expectativa de vida era de duas semanas, mas se passaram mais de dois meses e ele estava bem e alegre.

Esse paciente chamou a médica, disse que sabia estar em cuidados paliativos, mas não deixava de pensar na possibilidade de um milagre. Pediu para fazer novo hemograma. A doutora concordou, e o resultado foi nível 3. Repetiram o procedimento, pois nem o laboratório acreditou que alguém com a hemoglobina tão baixa estaria vivo.

A médica deu a notícia para ele. O paciente sorriu, disse que estava tudo bem e relembrou um ensinamento de seu pai. Certa vez, ele lhe revelou que o livro da vida tem duas páginas. A primeira para ser lida quando está dando tudo errado, a ponto de você dizer: “Meu Deus, o que falta acontecer?”. Aí você lê: “Tudo isso vai passar”. A segunda página é para quando tudo dá certo, empresa bombando, ganhando muito dinheiro, casamento excelente, filhos superbem. E você lê: “Isso também vai passar”. O pai explicou que quando as coisas estavam ruins, não sofria tanto, pois sabia que ia passar. Porém, quando estavam boas, ele não aproveitava muito, porque sabia que ia passar.

“Esse paciente partiu, mas não está morto. Ele vive, e é a isso que nos referimos quando falamos de imortalidade. Nosso corpo se vai, fica invisível, mas a nossa história está viva e perene enquanto alguém contá-la. Enquanto alguém se transformar pelo caminho que a gente escolheu viver, a gente está vivo. A morte não é inimiga, mas parte da nossa humanidade. Ela nos traz a noção de tempo. Não podemos deixar para viver a vida quando tivermos tempo, pois o tempo é o aqui e o agora”, aconselha a doutora Ana Cláudia.


Publicidade