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Estado de Minas ENTREVISTA/SUELI DE AZEVEDO MENEZES CARDOSO COSTA

Médicos e enfermeiros: quem cuida também sofre

Associação Brasileira de EMDR inicia atendimento voluntário de terapia para médicos e enfermeiros. Método é indicado pela OMS em casos de estresse pós-traumático e catástrofes


postado em 05/04/2020 04:00 / atualizado em 06/04/2020 16:08

(foto: Leo 2014/Pixabay)
(foto: Leo 2014/Pixabay)


O EMDR (Eye Movement Desentitization Reprocessing/Dessensibilização e Reprocessamento por Meio dos Movimentos Oculares), método desenvolvido nos EUA para tratamento de traumas de veteranos de guerra e indicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para casos de estresse pós-traumático e catástrofes, está disponível de forma voluntária e on-line para atender os profissionais da saúde que estão na linha de frente do combate à COVID-19. 

O acesso é por meio da Associação Brasileira de EMDR, juntamente com sua Rede Solidária, que já ajudou centenas de pessoas em todo o país, como os familiares e colegas dos alunos da Escola Raul Brasil, na época do massacre em Suzano, interior de São Paulo, e os sobreviventes de Brumadinho.

São mais de 100 profissionais psicólogos e médicos especializados em EMDR no país prontos para atender profissionais da saúde.

A psicóloga Sueli de Azevedo Menezes Cardoso Costa, segunda secretária da Associação Brasileira de EMDR, fala sobre a preocupação e o cuidado com a saúde mental dos médicos e enfermeiros do Brasil neste momento de enfrentamento da pandemia do novo coronavírus.

 

(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)

"Todos os profissionais de saúde que atuam em hospitais têm tido contato direto com a dor da perda e a impotência para salvar vidas. Além de arriscarem a própria vida na tentativa de salvar alguém"

 

 

Qual o papel do EMDR Brasil e como atuará?

Temos um programa de ajuda humanitária chamada Rede Solidária, cuja missão é estabelecer um programa seguro e com profissionais capacitados para intervenções no tratamento do trauma e do estresse pós-traumático em situações de incidentes críticos.

 

Como o serviço voluntário irá funcionar?

Os psicólogos e os médicos, com a formação em EMDR, que se voluntariarem para o atendimento inicial de médicos e enfermeiros que estão em contato direto com os infectados pela COVID-19, estão se cadastrando junto à Associação Brasileira de EMDR, por meio do e-mail: sosredesolidaria@emdr.org.br. Os profissionais que precisam de ajuda também fazem contato pelo mesmo e-mail, colocando no assunto: PRECISO DE AJUDA. Assim, com esses dois cadastros, fazemos a indicação do terapeuta para o profissional que precisa. Utilizando como critério inicial encaminhar um terapeuta do mesmo estado da federação do solicitante.

 

Até o momento, já tiveram acesso? De quais regiões?

Alguns profissionais de saúde solicitaram ajuda, todos da Região Sudeste. Enviamos o contato dos terapeutas cadastrados que estão na mesma região do solicitante.

 

Quais são as dores emocionais, os sentimentos mais comuns?

Todos os profissionais de saúde que atuam em hospitais têm tido contato direto com a dor da perda e a impotência para salvar vidas. Além de arriscarem a própria vida na tentativa de salvar alguém. A maioria pensa na família que teve que deixar em casa para fazer sua missão.

 

Os médicos se sentem à vontade na busca por este tipo de ajuda? Ou muitos vestem a capa de super-heróis e vão até o limite?

Infelizmente, a maioria vai até a exaustão. Quando começam a se desorganizar emocionalmente, pedem ajuda.

 

Muitos médicos entrevistados nas pautas do dia a dia revelam que nunca viram a comunidade médica tão assustada. Já percebem isso?

Sim. Não é fácil para nenhum médico lidar com a perda de seus pacientes (ou de uma vida). E agora essas situações têm ocorrido num cenário muito incerto. Isso é um fator de grande peso emocional.

 

Para quem não conhece, pode destacar algumas especificidades do método EMDR que o faz ser tão assertivo?

EMDR significa Dessensibilização e Reprocessamento por Meio dos Movimentos Oculares porque permite o reprocessamento de lembranças/eventos difíceis e dolorosos por meio da integração do conteúdo neuronal nos hemisférios cerebrais. Ao se aplicar o estímulo visual, auditivo e/ou tátil, estimula-se a rede onde ficou presa a lembrança. As duas redes (onde está arquivado o trauma e onde estão as informações úteis à compreensão) trabalham juntas num tipo de associação livre que se chama “Processamento Adaptativo de Informação” (PAI). No sentido mais amplo, o EMDR procura aliviar o sofrimento humano e assistir os indivíduos e a sociedade na realização integral de seu potencial para o desenvolvimento, minimizando os riscos de dano durante sua aplicação. Para o paciente, o propósito do tratamento com o EMDR é obter os mais profundos e eficazes efeitos no mais curto período de tempo, mantendo estabilidade dentro dos sistemas familiar e social. A eficácia do EMDR é reconhecida pela OMS e tem sido comprovada por meio de mais de 200 pesquisas publicadas internacionalmente em revistas. Sendo que a American Psychiatric Association (EUA), a Royal College of Psychiatrists (UK), a Administração de Veteranos (EUA), e o International Society for Traumatic Stress Studies o consideram como um tratamento efetivo para trauma e o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). 

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