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Estado de Minas REPORTAGEM DE CAPA

Conhecimento popular e segurança

Tecnologia e ciência dão outro status para as plantas medicinais. Se antes associadas a crendices e simpatias, hoje a cultura de uso tem selo técnico-científico e eficiência comprovada


postado em 10/11/2019 04:00 / atualizado em 07/11/2019 19:38

A farmacêutica Jaqueline Guimarães diz que o Farmácia Viva produz mais de 6 mil unidades/mês de medicamentos manipulados (foto: Roberto Maradona/Divulgação)
A farmacêutica Jaqueline Guimarães diz que o Farmácia Viva produz mais de 6 mil unidades/mês de medicamentos manipulados (foto: Roberto Maradona/Divulgação)


O programa fitoterápico Farmácia Viva, no SUS Betim, desenvolvido pela prefeitura desde 2004, recebeu, em junho de 2006, um prêmio nacional do Ministério da Saúde sobre projetos inovadores que dão certo no sistema público de saúde. Profissionais da rede municipal, como médicos, enfermeiros, farmacêuticos e odontólogos, foram capacitados em fitoterapia e o projeto só evolui. Pode receber o medicamento quem tiver a receita médica prescrita por esses profissionais e o pedido é feito nas unidades básicas com saúde da família e nas unidades básicas de saúde. A iniciativa do programa partiu da percepção de farmacêuticos da rede municipal, ouvindo o relato dos agentes comunitários de saúde de que muitas pessoas estavam trocando, por conta própria, os medicamentos tradicionais por plantas medicinais. O problema é que, em muitos casos, o uso dessas plantas ocorria de forma errada. Daí a necessidade da capacitação.
 
Jaqueline Guimarães, farmacêutica e responsável técnica pelo programa Farmácia Viva, explica que, em 2004, o programa iniciou suas atividades fazendo o levantamento etnobotânico no município, a fim de selecionar as plantas medicinais que seriam padronizadas para a implantação definitiva da fitoterapia no SUS/Betim. “Inicialmente, eram manipuladas pouco mais de 100 unidades de medicamentos ao mês. Essa produção foi aumentando gradativamente, ano a ano, até atingirmos a produção de 6.300 unidades/mês, totalizando 76 mil unidades de medicamentos fitoterápicos manipulados e dispensados em 2018. Tivemos também a ampliação de formulações manipuladas, que, hoje, totalizam 83 formulações a partir de 25 plantas medicinais, atuando no sistema nervoso central, respiratório, geniturinário, digestório, cardiovascular e aquelas cicatrizantes e anti-inflamatórias para uso tópico no tratamento de feridas e afecções da pele.”
 
Há vários relatos de médicos e enfermeiros sobre a melhora das condições de saúde dos usuários a partir dos fitoterápicos. Alguns casos eficientes, como o uso da cápsula de óleo de alho para diminuir o colesterol, a pomada de calêndula para curar feridas e o gel de calêndula com barbatimão para melhorar aftas na boca. Ao longo do tempo, conta Jaqueline Guimarães, algumas formulações foram modificadas, como é o caso do creme de barbatimão, que foi acrescido de óleo de girassol, ou foram criados novos produtos, como as farinhas funcionais e os sachês de plantas medicinais desidratadas para o preparo de chás, entre eles o de folha de amora para os sintomas da menopausa e o capim-cidreira para as gestantes do bloco obstétrico da maternidade pública.
 
“As farinhas funcionais foram desenvolvidas para prescrição, principalmente, pelos nutricionistas, em situações clínicas como hipercolesterolemias, diabetes, prisão de ventre e prevenção e tratamento de doenças do intestino, entre outras. São elas: farinha de maracujá, de berinjela e de banana verde. Outra inovação foi a loção repelente de citronela + andiroba copaíba, cujo público-alvo são as gestantes do município. Essa loção é preparada a partir de óleos essenciais, com comprovada ação repelente e, por se tratar de um produto natural, não desencadeia reações alérgicas em pacientes sensíveis”, destaca a farmacêutica.
 

Agentes comunitários

 
O que também merece destaque, enfatiza Jaqueline Guimarães, é o envolvimento dos agentes comunitários, porque “são eles que nos relatam dúvidas dos usuários sobre o uso das plantas medicinais, as formas inadequadas e até sobre plantas não recomendadas. Porém, na construção do projeto, vale dizer que foram os farmacêuticos que detectaram o uso indiscriminado das plantas medicinais pela população e a necessidade de orientar esse uso, de forma a garantir segurança e eficácia dos tratamentos”. Vale registrar que os usuários, ao receber suas receitas de fitoterápicos, a entregam na farmácia da própria unidade de saúde. Ela será recolhida no dia seguinte pelo motorista do Farmácia Viva, e, dentro de um a dois dias úteis, o medicamento será entregue na unidade de saúde de origem para dispensação ao usuário.
 
Jaqueline Guimarães conta que, depois de 15 anos de evidência clínica, “a grande adesão à fitoterapia no município fez com que a produção do Farmácia Viva crescesse quase 400% no período de 2012 a 2018, o que demonstra a confiança e a segurança dos prescritores e dos pacientes na utilização das plantas medicinais e dos fitoterápicos”.
 


Depoimentos

Nova Jersey C. Oliveira, enfermeira, servidora do Hospital Público Regional de Betim

“Para a definitiva inserção da fitoterapia no SUS/Betim, iniciou-se a educação continuada em fitoterapia para os profissionais graduados. Foi com essa oportunidade que iniciei minha qualificação e solidificação no conhecimento dos fitoterápicos. Atuando no CTI do Hospital Regional de Betim, instituição vocacionada para o atendimento ao paciente vítima de trauma, ampliei meu arsenal terapêutico com os fitoterápicos no tratamento das diversas feridas. O sucesso no resultado apresentado me acompanha por aproximadamente 15 anos. Já tratei feridas de difícil manejo com formulações fitoterápicas, como queimaduras, feridas traumáticas, vasculares, feridas oncológicas, síndrome de Steven-Johnson. A utilização dessas formulações para hidratação e manutenção da integridade cutânea no ambiente hospitalar é também uma das possibilidades terapêuticas.”
 

Elizabeth Nascimento Rodrigues, 
médica da família na UBS Novo Amazonas, SUS/Betim

“Minha experiência em relação ao uso de fitoterápicos na atenção básica se deu com base na rejeição de alguns pacientes ao uso de alguns medicamentos da forma como eram prescritos. Eles tinham resistência de usá-los. Diziam que não eram naturais. Com os fitoterápicos, ouvi relatos de serem da farmácia da natureza. Então, eram medicamentos mais aceitos por alguns pacientes. Principalmente crianças, idosos e as mulheres no climatério. Os medicamentos mais utilizados são xarope de guaco (expectorante, antitussígeno), tintura de melissa (sedativo) e de passiflora (ansiolítico), tintura de camomila (para afecções gastrointestinais), tintura de Hypericum perforatum (antidepressivo leve), folha de amora (reduz fogachos da menopausa), tintura de Equisetum arvensi (diurético), tintura de Maytenus ilicifolia (para gastrite), entre outros.”
 
 
Ana Cimbleris, da Farmácia Viva do Instituto Kairós, alerta que, como qualquer medicamento, os fitoterápicos não são isentos de toxicidade(foto: Euler Junior/EM/D.A Press )
Ana Cimbleris, da Farmácia Viva do Instituto Kairós, alerta que, como qualquer medicamento, os fitoterápicos não são isentos de toxicidade (foto: Euler Junior/EM/D.A Press )
 

Diversidade de cura

O Instituto Kairós é uma organização sem fins lucrativos, sediada em Nova Lima, que atua há 16 anos fortalecendo redes de educação popular e cultura tradicional nas comunidades em que atua. Em 2004, a ONG iniciou o desenvolvimento de sua Tecnologia Social Farmácia Viva, com o objetivo de valorizar o conhecimento tradicional e as práticas populares em saúde, por meio de Arranjos Produtivos Locais (APL), com foco na implantação e sustentação do serviço de fitoterapia no Sistema Único de Saúde (SUS). Fortalecida por redes colaborativas de desenvolvimento social e validada por métodos científicos, a farmácia é respaldada por uma política pública nacional de saúde, recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), Ministério da Saúde (MS) e regulamentada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para sua implementação no SUS.
 
A farmacêutica Ana Cimbleris explica que os conhecimentos sobre cuidados em saúde por meio das plantas, desde os tempos mais antigos, vêm sendo transmitidos de geração para geração e propiciando a saúde, tanto no âmbito individual quanto no coletivo. “A associação do uso das plantas com ‘crendices’ e ‘simpatias’ que alguns fazem hoje é originada de um processo histórico que, aos poucos, vem sendo revertido, trazendo a cultura de uso das plantas para o status de ciência e não de misticismo. O uso incorreto das plantas medicinais também contribui para essa visão. Se as pessoas não obtêm o benefício esperado das plantas que utilizam, às vezes, acabam concluindo que a fitoterapia de modo geral é ineficaz ou apenas uma crendice. Os principais fatores que colaboram para esse uso inadequado são as propagandas das plantas ‘milagrosas’, que não têm base na tradição e nem na ciência, assim como o comércio de produtos de qualidade duvidosa.”
 
Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, 70% a 90% da população nos países em desenvolvimento depende das plantas medicinais para atender às suas necessidades básicas de tratamento em saúde.  “Em alguns países, a prescrição de fitoterápicos é maior do que a de medicamentos sintéticos, como é o caso da Alemanha. Esse fato nos mostra que é possível optar pela fitoterapia em grande parte dos casos. Vivemos um momento histórico em que, cada vez mais, as pessoas têm voltado sua atenção à agricultura orgânica, à construção ecológica, às fontes de energia renováveis, e também às práticas de saúde mais naturais, como o parto humanizado, massagens, fitoterapia e diversas outras práticas integrativas”, diz a farmacêutica.
 

Intoxicações 


Ana Cimbleris avisa que, apesar de ser amplamente disseminada a ideia de que o uso de plantas medicinais e fitoterápicos é seguro, sem a possibilidade de ocorrência de eventos adversos e intoxicações, é importante observar que as plantas funcionam devido à sua química. “Se elas podem fazer bem, também podem fazer mal se usadas de maneira inapropriada. Como qualquer medicamento, os fitoterápicos não são isentos de toxicidade. Os profissionais de saúde dispõem de bases de dados para conhecer seus efeitos colaterais, possíveis interações medicamentosas e as precauções necessárias para o uso. Ainda assim, a tolerância aos fitoterápicos é, em geral, maior se comparada aos medicamentos sintéticos.”
 
Conforme Ana Cimbleris, as formas mais comuns para acesso às plantas medicinais são o cultivo próprio, a compra, ou, gratuitamente, por meio dos programas públicos de fitoterapia. E os usos são diversos. “A fitoterapia tem excelente aplicação como um recurso para as doenças de baixa gravidade, mas que nem por isso deixam de representar grande incômodo na nossa vida, como gastrite, dor muscular, machucados, gripes e resfriados, entre outras.”


POR DENTRO DOS CANTEIROS


Saiba quais são as plantas cultivadas nas hortas do programa fitoterápico Farmácia Viva, no SUS Betim, e quais as espécies de maior produção. Há uma diversidade, entre elas plantas aromáticas, condimentares e medicinais, cujo foco é o fornecimento de matérias-primas para a manipulação de fitoterápicos da farmácia, além de fins educacionais em visitações de alunos do ensino fundamental.

» Melissa officinailis: erva-cidreira rasteira (sedativa, digestiva e anti-hipertensiva)

» Lippia alba: erva-cidreira de arbusto (sedativa suave, digestiva)

» Cymbopogom citratus: capim-cidreira (digestivo, analgésico e antiespasmódico)

» Cordia verbenacea: erva-baleeira (anti-inflamatório em dores articulares, artrite, artrose, contusões)

» Mikania glomerata: guaco (expectorante, antitussígeno, broncodilatador suave)

» Calendula officinalis: calêndula (anti-inflamatória e cicatrizante tópico)

» Rosmarinus officinalis: alecrim (dores musculares e articulares, depressão leve como estimulante)

» Equisetum arvense: cavalinha (diurético, antisséptico das vias urinárias, externamente hidratante e utilizado em loções hidratantes para pacientes acamados, na prevenção de escaras)

» Plantas condimentares: manjericão, orégano, tomilho


SAIBA MAIS


Para escolher o melhor modo para usar uma planta medicinal são consideradas as características da planta, a indicação de saúde, assim como a facilidade de adquirir ou preparar o produto. São várias as opções possíveis. Os fitoterápicos industrializados fornecem extratos padronizados, sendo úteis em alguns casos em que se faz necessária maior precisão da dose. Quem vai utilizar o fitoterápico é a pessoa mais indicada para selecionar entre as opções disponíveis aquela que lhe trouxer maior conforto e conveniência. As principais formas farmacêuticas usadas para produtos fitoterápicos são:


» Chás medicinais
» Banhos medicinais
» Inalação
» Compressas
» Tinturas
» Cápsulas de extratos secos
» Xaropes
» Pomadas
» Géis
» Xampus
» Sabonetes
» Garrafadas
» Vinhos medicinais
» Elixires e diversas outras formas


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