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Estado de Minas SACIEDADE

Comer de forma plena

Alimentar-se com consciência e atenção, por mais simples que possa parecer, é um dos grandes desafios diante da concorrência de celulares, TVs e situações multitarefas


postado em 01/09/2019 04:00 / atualizado em 29/08/2019 16:57

A culinarista Bruna Marta explica que o mindful eating significa comer com consciência e presença(foto: Arquivo pessoal)
A culinarista Bruna Marta explica que o mindful eating significa comer com consciência e presença (foto: Arquivo pessoal)


Foi-se o tempo em que toda a família se reunia em volta da mesa para as refeições diárias. Cada vez mais raros, esses momentos perdem espaço para a tela de celulares, tablets e a TV, interferindo diretamente na forma como nos relacionamos com a alimentação. Baseado em técnicas meditativas, o mindful eating é um conceito que vem sendo bastante discutido em relação às práticas de desenvolvimento de atitudes corretas ao se alimentar. Observando e cultivando uma nova relação com a comida, para controlar melhor a alimentação, de forma mais compassiva.

Segundo a nutricionista e instrutora de mindful eating Patricia Coelho, esta postura ao comer confere uma maior consciência do nosso corpo, melhorando o metabolismo e sentimentos intrínsecos aos processos digestivos. “Conseguimos notar melhor os sinais de saciedade, percebendo a quantidade de comida que nosso organismo pede, de acordo com esses sinais internos, o que nos faz ter uma consciência corporal mais aguçada”, avalia.

Tornar um momento para si no momento da refeição contribui também para perceber o que ocorre dentro da gente quando nos alimentamos. “É estar atento ao que ocorre fora e dentro de nós quando nos alimentamos, sem maiores julgamentos, autocríticas e distrações, sem acessar celular, sem ficar pensando no trabalho ou em problemas ou em qualquer questão que não esteja ocorrendo naquele exato momento”, reforça a nutricionista sobre a ideia meditativa do mindful eating.

Bruna Marta, culinarista, terapeuta ayurveda e professora de ashtanga ioga no Nauk Yoga, afirma que, ao ter essa atenção, há, ainda que em nível inconsciente, a sensação de conforto, alívio e bem-estar. “Ao comer com presença, calma e consciência, estamos de certa forma ouvindo o verdadeiro tempo do corpo e nos conectando com os alimentos que vão nos nutrir também”, comenta.

Além disso, cultivar uma atitude mindful ao comer também melhora a saúde, uma vez que, ao mastigar de forma mais atenciosa, fortalecemos a sensação de saciedade e absorvemos mais nutrientes. “É uma estratégia necessária para pessoas que comem por ansiedade, por exemplo, e para pessoas que têm uma digestão mais lenta ou baixa absorção de nutrientes”, ressalta a culinarista.

Patricia Coelho ainda comenta que o mindful eating trabalha com o desenvolvimento da atitude de busca por um prazer sustentável, livre da culpa e com responsabilidade. “Entre os resultados, inclusive baseados em pesquisas científicas, está a redução de compulsão alimentar, melhora da aceitação e satisfação com o próprio corpo e aumento da consciência alimentar”, aponta.

FOME REAL 

De acordo com Bruna Marta, outro conceito importante da terapia ayurveda é a fome real. Para ela, é preciso utilizar os princípios da fome verdadeira para orientar nossa alimentação ao longo do dia, identificar padrões e melhorar a nossa saúde. “A fome real ou fome do estômago aparece de forma gradual, vai aumentando aos poucos e, se não for saciada, causa mal-estar físico. É claro que não é preciso chegar nesse ponto para saber se estamos com fome. Basta estar atento ao próprio corpo, observando se não há sinais da refeição anterior, como gases ou azia, e se estamos com a sensação de leveza e boa digestão”, pontua.

A culinarista comenta que é muito comum que as pessoas se alimentem por razões que não sejam fisiológicas. “Pode ser um hábito ruim, como beliscar lanchinhos ou comer de três em três horas só porque estamos de dieta ou porque está na hora ou pode ser uma emoção mal digerida, como ansiedade, medo e estresse, que nos leva a comer por compensação”, salienta. O fato é que, para Marta, “numa visão ayurvédica, ao comer sem fome 'do estômago' nosso corpo perde a capacidade digestiva”.

Patricia Coelho diz que a atenção plena pode ser cultivada em qualquer coisa que fazemos, principalmente no ato de cozinhar. Seja no momento de preparar ou em partes do processo, como cortar, escolher ou a forma de misturar alimentos e temperos. “Estar no momento presente é sempre tão prazeroso que o ato de cozinhar pode se tornar mais prazeroso quando se está verdadeiramente presente ao longo do processo”, salienta.

MUDANÇAS 

Bruna Marta frisa que, para essa atenção plena, é preciso se autoconhecer. Afinal, cada ser humano é único e isso vale para a comida e para nossos hábitos e escolhas. “É um conhecimento acessível, atemporal e universal. Todos nós podemos mudar a nossa mente a qualquer momento, mas você só terá a chave se buscar o autoconhecimento”, finaliza.

O maior objetivo dessa técnica, segundo Patricia Coelho, é causar o aumento da consciência em relação aos gatilhos emocionais que nos trazem experiências em relação ao quão diferente é uma refeição feita de forma plena. “Existem casos em que a pessoa naturalmente começou a comer menos por diminuir estados de ansiedade e conseguiu levar adiante as práticas quase diariamente e, portanto, acabou emagrecendo. Mas esse não é e não deve ser o foco do mindful eating”, disse.
Arquivo pessoal
A culinarista Bruna Marta explica que o mindful eating significa comer com consciência e presença


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Foco no momento

O termo mindfulness tem ficado cada vez mais popular no mundo ocidental, desenvolvido pelo pesquisador Jon Kabat-Zinn a partir de 1979, na Universidade de Massachussets, nos EUA. Esse foi um programa de medicina comportamental voltado para a redução de estresse, trabalhado com pacientes com dor crônica devida a diferentes problemas de saúde, com inspiração em práticas budistas e do ioga. No entanto, mindfulness pode ser entendido como práticas ou técnicas de atenção plena, utilizando a respiração como foco ou o movimento do corpo, entre outros. E, sendo assim, se caracteriza pela consciência ou estado mental que surge ao se prestar atenção, de forma intencional, à experiência ou fenômeno presente, sem julgá-los, ou reagir a eles.
 


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