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Mudança pela música

atividade é um importante instrumento na socialização e integração e deve ser introduzida na rotina de crianças e jovens desde a primeira infância


postado em 21/04/2019 05:05

Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press(foto: Melhores amigos, Fernando, Davi e Caio são os integrantes da banda Os Minhocas )
Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press (foto: Melhores amigos, Fernando, Davi e Caio são os integrantes da banda Os Minhocas )

Quem vê Caio Terra, de 10 anos, tocando guitarra e cantando para o público não imagina que até dois anos atrás ele era um garoto extremamente tímido. A professora de música dele, Sara Abreu, relembra: “Ele chegava à escola de música, eu dava oi e ele mal olhava para o meu rosto, de vergonha”.
A música transformou a vida e a personalidade dele, fez com que conhecesse gente de todas as idades e até lhe deu os dois melhores amigos, os companheiros de banda Davi Matheus, de 10, e Fernando Sales, de 9. “Nós somos irmãos”, diz Davi.
Os três se conheceram na escola onde aprendem música. Juntos, iniciaram um projeto que se transformou em uma banda de verdade: Os Minhocas. A relação é mesmo próxima, como de irmãos. Nem sempre eles concordam sobre o que tocar ou com outras questões; por isso, as brigas estão sempre presentes. Mas logo passam. Fernando, o baixista, e Davi, o baterista, lembram que, no início, nem gostavam do Caio. “Ele se achava o dono da banda”, reclama Fernando. Caio admite: “Eu achava mesmo. Só porque era vocalista. Mas depois entendi que a banda é de todos”.
Entre os profissionais da música, a opinião é quase unânime: os benefícios da musicalização infantil são fundamentais para um crescimento saudável. Ricardo José Dourado Freire é professor do Departamento de Música da Universidade de Brasília (UnB) e explica que a música na infância é chave para o desenvolvimento do adulto: “A questão da música é que ela é central para o desenvolvimento humano. Pesquisas mostram que a atividade musical ativa várias partes do cérebro. Desde aspectos cognitivos até motores, passando até mesmo pela linguagem. A música se torna um catalisador de todo esse desenvolvimento”.
De fato, a mãe de Caio, a empresária Rebeca Terra, de 41, até se impressiona com o desenvolvimento do filho: “Ele saiu do oito para o 80. Do extremo, de muita insegurança, para se sentir dono da banda. Ainda bem que chegou num equilíbrio”. Para ela, essa é a parte mais importante do envolvimento do filho com a música: o amadurecimento pessoal dos meninos.
Enquanto Caio e Fernando são fãs do estilo trashmetal, Davi gosta mais de pop rock. Precisam, portanto, sempre chegar a um consenso sobre o que tocar. Criaram, então, as “leis minhocais”. A primeira delas define que, se dois quiserem tocar uma música, o outro tem de aceitar. Davi nem sempre fica em desvantagem. Fernando o apoia, por exemplo, no gosto por uma das músicas mais polêmicas entre eles: Anna Júlia, de Los Hermanos. Outra lei define que, em shows, quem está tocando uma música que não gosta não pode ficar emburrado. Nos ensaios, está liberado expor a chateação.

APOIO INCONDICIONAL O professor Ricardo José Dourado Freire reforça um fator muito importante da musicalização infantil: a relação com outras crianças. “A música é inerentemente coletiva. Tudo o que a gente vai fazer com música nessa idade é socializador, seja no coral, seja na escola, seja na bandinha do bairro. Mesmo se a criança estiver em um piano, ou em um instrumento sozinha, tem ajuda na complementação das atividades. Essa ideia de complementação e de que a criança não está sozinha é muito importante.”
As mães de Caio, Davi e Fernando apoiam a banda de todas as formas que podem. A servidora pública Betiza Matheus, de 39, mãe de Fernando, se orgulha tanto de como o trio toca quanto de como consegue resolver os problemas entre eles. E acabou transformando o quarto de brinquedo da filha mais nova, de 4, em uma sala de instrumentos. Questionado se deixa a irmã tocar a bateria dele, Davi diz que de vez em quando. Caio, porém, sacaneia e diz que ela toca quando o irmão não está. Um vive na casa do outro, e o outro nem precisa estar no local. As famílias se estenderam.
Sara, a professora dos meninos, sabe que, se falar com uma das mães, já significa ter falado com todas. Quando levam os meninos a shows de trashmetal, contam que caem na gargalhada. Betiza gosta de pop rock; Rebeca, de axé. “A gente fica se perguntando se não tem nada romântico”, brinca Betiza. “Fico rindo dos nomes das músicas e das bandas e respondendo à pergunta: “Cadê o moleque?”. Porque, quando me veem, já querem saber do Caio”, conta Rebeca.
Já com três músicas prontas e duas para colocar letra, ir a um show dos Minhocas é, além de divertido, inspirador. Impossível não se encantar com os três “pirralhos motivados” – como eles mesmos se chamam na primeira música, homônima da banda que toca AC/DC, Metallica, Los Hermanos e Capital Inicial.

leia mais sobre musicalização infantil

páginas 3 e 4


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