Continue lendo os seus conteúdos favoritos.

Assine o Estado de Minas.

price

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas por R$ 9,90/mês. Experimente 15 dias grátis >>

Estado de Minas

Vivências são legados

Museu da Pessoa, fundado há 28 anos, nasceu com a missão de permitir que cada indivíduo tenha o direito e a oportunidade de ver sua história eternizada e reconhecida como fonte de conhecimento


postado em 17/02/2019 05:09

 

 






“As memórias de mim mesmo me ajudaram a entender as tramas das quais fiz parte.” A declaração de Paulo Reglus Neves Freire (1921-1997), educador, pedagogo e filósofo nascido no Recife, faz parte do Museu da Pessoa, organização da sociedade civil de interesse público (Oscip) sem fins lucrativos, criada em 1991 pela historiadora Karen Worcman. Já imaginou fazer parte de um museu? Isso mesmo. Ser parte do acervo e “objeto” de estudo e admiração? Se, antes, o concebíamos como espaço para exibir coleções de interesse artístico, cultural, científico e histórico, agora, em sua concepção virtual, Karen nos apresenta um acervo de histórias de vida, com depoimentos reais de qualquer pessoa que queria compartilhar suas vivências. Registradas, ao serem lidas e ouvidas, deixam marcas, transmitem conhecimento e perpetuam um legado de narrativas que podem causar identificação, reconhecimento, aprendizado e emoção.

O Museu da Pessoa contabiliza acervo de 20,9 mil histórias de vida e 62 mil fotos e documentos e já tem frutos em Portugal, EUA e Canadá. Mas, por que criar um museu de pessoas? “Por que tantos museus e nenhum da pessoa? O Museu da Pessoa nasceu exatamente dessa percepção de que havia museus sobre tudo e nenhum que valorizasse o que de mais valioso temos: nossa própria história. Um museu aberto à participação de toda pessoa, que tem como premissa a ideia de que cada história importa e é uma fonte de aprendizado sobre o outro e sobre nós próprios. Se museus são o espaço em que nos dedicamos a refletir sobre o que valorizamos e sobre o que importa, a história das pessoas deveria ser naturalmente vista como peça valiosíssima de museus”, explica Karen Worcman.

A ideia de Karen é estimulante, nos faz querer ouvir e até pensar na nossa própria história. E o que instiga é que ela não imaginou o museu coletando só histórias especiais e de intelectuais. Democrático, nele todos têm espaço. “O que sempre busquei foi a multiplicidade potencial de perspectivas sobre a experiência humana, sobre o Brasil e sobre a sociedade. A diversidade era muito mais importante do que o recorte que poderia dar às histórias.” Singular em meio a um mundo de “celebridades”, o museu cativa porque não contempla só personalidades. Ainda que por lá tenha depoimentos do medalhista olímpico da natação Gustavo Borges, do dono da Livraria Cultura, Pedro Herz, dos cantores Lô Borges, Beto Guedes e Toninho Horta, assim como seu Germano Araújo, nascido em 1875, entrevistado em 1996, no alto de seus 121 anos e com 68 filhos, e o cantador repentista Sebastião Marinho. “O museu propõe exatamente o oposto. Aprender a ouvir é despir-se do espetáculo. É valorizar o simples. O Facebook e a sociedade do espetáculo nos levam à celebridade, ao instantâneo, à pura imagem. Sobretudo, o simples ensina. Nele reside a sabedoria de ouvir e olhar o mundo. É isso que precisamos aprender agora.”

Nos mais de 20 mil registros, certamente, há aqueles que mais marcaram Karen. “Existem histórias, ou melhor, jeitos que as pessoas vivenciaram suas próprias histórias que me tocaram particularmente. Acho que isso ocorre com todo mundo. Algumas trajetórias ou olhares nos “dizem” algo que estamos prontos para ouvir e aprender. Destaco algumas: Krystyna Drozdowicz, uma sobrevivente da Segunda Guerra e guerrilheira; Idaliana, que criou o mocambo Pauxi, no interior da Amazônia. Professora de adulto, quase freira, vivia numa cabana em um quilombo quando a entrevistei. Maria de Lourdes, uma empreendedora e comerciante do interior da Amazônia, Ailton Krenak, uma liderança indígena; Joselita Cardoso, catadora de papel; Pedro Cezar, cineasta; e jovens vítimas de exploração sexual, com nomes fictícios de Elizabeth e Thamysa.”

Karen Worcman conta que o Museu da Pessoa tem um analytics que indica as histórias mais visitadas. As mais buscadas são as de superação, “aquelas que atendem a uma necessidade de inspiração por parte de quem busca. Creio que existem pessoas com muita curiosidade sobre a vida e sobre como cada um vive a sua. Em geral, essas pessoas têm uma tendência natural em querer ouvir o outro.”

ESCUTA

Em um mundo de tecnologia, inteligência artificial, robôs, redes sociais, enfim, em que a boa e velha conversa tem ficado de lado (ainda que transfigurada para a linguagem frenética via teclas!), é emocionante e reconfortante saber que há pessoas que buscam, querem e precisam ouvir as outras, mesmo aquelas que não conhecem. “Talvez, ouvir com atenção seja ainda umas das poucas atividades que nos levam de volta para dentro de nós mesmos. Ainda que seja uma escuta, é uma escuta silenciosa, nos faz parar e ter que nos conectar com outro ser humano. Acho que isso será cada vez mais necessário para que continuemos a ser “pessoas”. A possibilidade de se separar de si próprio é enorme e as tecnologias atuais são grandes impulsionadoras desse nosso medo de vazio e consequente preenchimento do tempo e do vazio com os ruídos. Isso os afasta de nossa própria humanidade. Creio que a educação deverá privilegiar cada vez mais o silêncio, a reflexão. E menos o treino e a informação e mais a capacidade de escuta. Algo que as comunidades tradicionais cultivavam sabiamente”, acredita Karen Worcman.

Com tantas histórias, será possível dizer o que o ser humano tem de mais espetacular para deixar registrado? Para Karen, é a experiência sentida, vivida, pensada e narrada. “Isso é belo e profundamente humano, não necessariamente espetacular. É simples. E por isso mesmo é o que conecta. Uma capacidade que, a princípio, todos têm. E nisso nos igualamos na pura beleza de ser pessoas.” Ela concorda que a Era Digital já dá mostras de adoecimento, com tanto isolamento e individualismo. “Quando o museu começou, acreditava que dar a possibilidade de toda e qualquer pessoa ter sua voz como parte da narrativa social seria suficiente. As tecnologias mostraram que não basta falar. É fundamental aprender a ouvir. Isso é cada vez mais importante para que cada pessoa possa garantir sua capacidade de escolha, criatividade e escuta.” Para a fundadora, o Museu da Pessoa deixa como legado “uma história com muitas vozes, versões e perspectivas. Uma história mais democrática e que mostra as riquezas das culturas brasileiras. Espero, sinceramente, que esse legado contribua para que o Brasil se torne um país mais justo e que fortaleça o que tem de melhor: as pessoas.”


Publicidade