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A busca do equilíbrio

Receio de não se adequar ou ser excluído de grupos leva, muitas vezes, o jovem a seguir padrões impostos ou se rebelar. Estrutura familiar ajuda a lidar com cobranças


postado em 27/01/2019 05:08

Por estar um pouco acima do peso, Teodoro Goulart Carvalho Silva, de 12 anos, conta que vem sofrendo bullying na escola(foto: )
Por estar um pouco acima do peso, Teodoro Goulart Carvalho Silva, de 12 anos, conta que vem sofrendo bullying na escola (foto: )

 

 





A tensão e a pressão que a sociedade embute nos indivíduos de uma maneira geral se inicia ainda na tenra infância, entre os 3 ou 4 anos, esclarece a psicanalista Cristiane Maluf Martin. É comum que isso ocorra na própria dinâmica familiar. “O buraco é mais embaixo. Quando o menino brinca de casinha ou boneca com a menina, ou quando a menina joga bola com os meninos, muitos dizem ‘não pode, que aberração, onde já se viu?’. A partir da hora em que a criança sofre essa pressão, que continua na adolescência, se isso não for trabalhado pode acabar formando um adulto problemático.”

Mesmo que tenha havido mudanças nos últimos anos, muitos jovens preferem seguir padrões por temer represálias – têm medo de não se adequar, serem rejeitados, excluídos, às vezes ficar fora até do grupo do qual participam. Cristiane explica que existem os dois lados da moeda. “Um grupo que tende a seguir modelos e outro que literalmente aperta a tecla do ‘dane-se’, não está nem aí, se atira de cabeça, é contra a sociedade, não quer saber de regras ou leis, segue a vida como melhor entender. Para se sentir enturmados podem inclusive cometer delitos. Entretanto, querendo ou não, qualquer ação tem uma consequência, ainda que não seja imediata. Nem ao céu, nem ao mar. Deve-se procurar o equilíbrio.”

A profissional salienta que tamanha cobrança traz ao jovem um desconforto emocional, e muitas vezes acaba gerando transtornos de ansiedade, pânico, depressão e outros problemas – em casos extremos ele pode cometer suicídio, o que tem se tornado recorrente no Brasil entre pessoas de 15 a 25 anos. “Muitas vezes, as questões surgem da busca pela felicidade a qualquer preço, sem medir o que pode acontecer. Em outro panorama, o da sociedade de consumo, está a exaltação do ter, não mais do ser. E isso mexe com a cabeça do jovem, que, naturalmente, já vive uma época difícil, de transformações físicas e psicológicas. Até uma hora que dá um tilt”, continua Cristiane.

Ela diz que, quando não há um acompanhamento, um acolhimento familiar, uma dinâmica familiar estruturada, é mais difícil para o jovem lidar com essas situações. “Ele pode acabar procurando outras fontes de satisfação na rua, como o uso de entorpecentes e drogas ilícitas.” Uma outra forma de compreender por que muitos tomam atitudes extremas passa pelo aspecto de que, ao estabelecer metas muito altas, quase impraticáveis, fica fácil se decepcionar. “Não digo para se acomodarem, porém, mirando em metas mais ponderadas, quando elas não chegam é mais tranquilo de aceitar.”

Para muitos, a vida parece banal, acrescenta a psicanalista. Quando não consegue entrar para a faculdade, termina o namoro, não passa em uma entrevista de emprego, o jovem pode terminar usando isso para se desculpar, responsabilizar os outros e ultrapassar limites sérios. Se não estiver bem consigo mesmo, busca recursos para justificar o fato de não estar bem e, pensando que deve ser melhor em tudo, tem medo de fraquejar. “O jovem precisa aprender a fazer mais com menos. Usar os recursos próprios, intelectuais, não recursos externos, se encontrando consigo mesmo, sabendo que pode ser ele mesmo e fazer mais por si. Nunca esperar do outro essa contrapartida. Por isso, é importante, em muitos casos, procurar a psicoterapia ou outros meios de suporte médico, às vezes com a demanda de remédios para lidar melhor com a situação.”

PSICOPATOLOGIAS

Aproximadamente 30% dos jovens na faixa etária dos 14 aos 19 anos sofrem bullying constantemente. Diversos estudos relacionados ao tema reforçam que conviver com agressões físicas ou verbais no curso do período escolar pode ajudar no aparecimento de psicopatologias na vida adulta ou ainda na adolescência. Pesquisa recente revelou que jovens com características de ansiedade apresentavam redução significativa em regiões do cérebro ligadas à regulação das emoções.

Levantamento publicado no jornal científico Molecular Psychiatry, em dezembro de 2018, traz uma novidade: o bullying está diretamente ligado ao desenvolvimento do transtorno da ansiedade generalizada (TAG).

A partir de exames de neuroimagem com 682 jovens vítimas de bullying, os pesquisadores descobriram uma redução significativa nos volumes do núcleo caudado e do putâmen esquerdos (áreas do cérebro que respondem pela entrada de informações que surgem do córtex motor e sensitivo e têm relação com os processos de aprendizado, comportamento e memória). Trata-se de um estudo pioneiro, o primeiro que identificou o elo entre marcadores biológicos no desenvolvimento de psicopatologias relacionadas ao bullying. A descoberta é que as alterações no volume do putâmen esquerdo estavam negativamente associadas à ansiedade generalizada. Além disso, os jovens com traços ansiosos apresentavam redução também no volume do núcleo caudado esquerdo.

Investigações anteriores já apontavam uma redução no volume cerebral de adultos com transtornos mentais que sofreram abusos na infância, explica a neuropsicóloga Thaís Quaranta, coordenadora do curso de pós-graduação em psicopatologia na infância e adolescência da Apae-SP. “As alterações atingem áreas do cérebro ligadas à regulação das emoções, controle da impulsividade e processamento da recompensa. Porém, esse estudo mostrou que o bullying afeta outras estruturas e está diretamente relacionado ao desenvolvimento da ansiedade generalizada em jovens adultos.”

Na opinião da profissional, esse estudo só confirma o que é visto na prática clínica. “Os efeitos das agressões físicas e verbais no ambiente escolar podem ser muito graves. Principalmente na adolescência, fase da vida em que as mudanças físicas e biológicas são intensas. Uma vez que as pesquisas comprovam os prejuízos do bullying para a saúde mental, é preciso achar recursos mais eficazes para combater esta prática”, reflete.

O quadro pode ser agravado principalmente pelo fato de que a maioria dos adolescentes sofre calado, alerta a neuropsicóloga. “Na adolescência, falar sobre os sentimentos pode ser mais difícil, pois há uma introspecção maior. Assim, nem todos os pais conseguem perceber que o filho está passando por situações de bullying na escola. E a própria escola também pode não notar.”

Thaís pondera que a adolescência é a época mais complicada da vida de qualquer um. É quando os pais devem redobrar os cuidados, estar presentes, participar da rotina escolar, familiarizados com os amigos, sem esquecer de delinear limites e regras e, além disso, praticar a escuta ativa. “Quanto mais próximos e presentes, mais fácil será constatar que há algo errado”, recomenda Thaís.

Se ainda assim não for possível perceber o porquê dos sinais de alerta, é indicado procurar um psicólogo especializado no atendimento de crianças e adolescentes. “Outra dica é monitorar as redes sociais, já que os adolescentes passam horas na internet e o bullying também pode acontecer no ambiente virtual, o chamado cyberbullying”, cita. Por fim, a psicóloga afirma que é imprescindível que os pais orientem a criança na construção de boa autoestima e autoconfiança, reforçando as conquistas, os pontos fortes e evitando comparações com irmãos ou colegas.

INCERTEZAS

Teodoro Goulart Carvalho Silva, de 12 anos, diz que não é confiante sobre si mesmo. Há cerca de um ano vem sofrendo bullying por ser um pouco acima do peso. A questão se agrava diante da incerteza se isso vai melhorar, e ele revela não saber como agir. Aconteceu em certas ocasiões de se sentir excluído. Na escola é chamado de gordo e, com isso, fala que sente uma raiva incontrolável e, ao mesmo tempo, tristeza. “Não posso descontar neles. Já reclamei várias vezes com os diretores da escola, mas não fazem nada. Também não me sinto à vontade para desabafar com meus pais.” O garoto faz terapia há três meses em busca de solução. “Não consigo resolver e isso é uma fonte de sofrimento para mim”, lamenta.



"É importante, em muitos casos, procurar
a psicoterapia ou outros meios de suporte médico, às vezes com
a demanda de remédios para lidar melhor com
a situação. Com autoconhecimento as pressões diminuirão
"

. Cristiane Maluf, psicanalista





COMO IDENTIFICAR O BULLYING

Veja a lista com quatro sinais de alerta que podem indicar que a criança ou o adolescente está sofrendo bullying:

1) Queda repentina do desempenho escolar: há marcos importantes que podem afetar o desempenho escolar, principalmente as mudanças de séries. Entretanto, se este não for o caso, notas baixas e falta de motivação para estudar podem ser sinais de alerta para pais e educadores investigarem situações de bullying.

2) Recusa em ir para a escola: normalmente, crianças e adolescentes gostam de ir para a escola, já que interagem com os amigos, fazem as atividades etc. Porém, se repentinamente há recusa em ir para a escola, é preciso apurar os motivos. Claro que nem sempre o bullying é a razão, mas há esta possibilidade. Portanto, vale a pena procurar entender melhor essa recusa.

3) Mudanças de comportamento: a instabilidade emocional é normal na adolescência, assim como o distanciamento dos pais e a maior necessidade de estar sozinho ou com os amigos. Porém, os pais devem ficar atentos quando há alterações bruscas de comportamento, que não faziam parte do repertório da criança/adolescente, como irritabilidade, agressividade, raiva alta, rebeldia extrema, choro constante, perda de apetite, isolamento acima do normal, excesso ou falta de sono.

4) Insatisfação com a aparência física: em muitos casos, o bullying está relacionado com características físicas, como peso, altura, tipo de cabelo, cor da pele, uso de óculos etc. Quando o adolescente começa a mostrar uma insatisfação muito alta com a própria aparência, os pais devem ficar atentos. Pode ser apenas vaidade, mas também resultado do bullying. Nesses casos, baixa autoestima, complexo de inferioridade e excesso de comparações com colegas ou até mesmo com personalidades podem ser sinais vermelhos.


palavra de especialista


Sirlene Ferreira
psicóloga

O jovem tem medo de ser rejeitado, de ser segregado. Sempre existiram padrões e grupos. Sabemos de estudos antropológicos e de psicologia clínica que mostram que a necessidade de pertencer é algo inerente ao ser humano. O homem é o único ser que precisa de socializar para sobreviver. Com o advento da tecnologia e das redes sociais, a propagação e divulgação desses padrões são praticamente instantâneas – alcançam jovens no mundo todo. A globalização colabora para esse cenário. Tem seus aspectos positivos, mas para os jovens sem maturidade, sem maturação, pode também ser nociva. As mídias sociais acabam fazendo com que esses padrões se tornem exigências, e muitas vezes os jovens não dão conta de tantos modelos. Se a base familiar não for boa, se a família não for aberta à conversa, à convivência, se não for fácil interagir com pai e mãe para discutir, falar sobre tabus e paradigmas, o jovem pode sofrer negativamente com as pressões sociais – ao contrário, se essa compreensão existe, ele tira de letra. Vivemos uma contradição – pregamos a aceitação da diversidade, mas também exigimos a adequação em padrões. Adultos são mais esclarecidos, mas para os jovens isso pode ser difícil e fazer com que se percam. Não é à toa que o Brasil assiste hoje a muitos episódios de suicídio entre jovens. Muito estão se mutilando, cortam braços e pernas com faca, estilete. Há cinco anos, isso não ocorria com tanta intensidade, não fazia parte da cultura latina.”


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