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Estado de Minas

De olhos fechados

A percepção da perda de memória ocorre quando afeta o cotidiano, atividades laborais e acadêmicas, independentemente da idade. Neuroaprendizagem mostra como o cérebro aprende


postado em 20/01/2019 05:08

(foto: Jair Amaral/EM/D. A Press)
(foto: Jair Amaral/EM/D. A Press)


"Sou um velho estudante. Tenho pelo menos 15 coisas diferentes para fazer todos os dias. As pessoas mais velhas têm que fazer coisas interessantes para se manter ativas"

.  Karel van Den Berger
, de 99 anos, filósofo e músico



“Ensinar sem levar em conta o funcionamento do cérebro seria o mesmo que tentar desenhar uma luva sem levar em conta a existência da mão.” A fala do pesquisador americano e neurocientista educacional Leslie Hart é usada pela neuropsicóloga e responsável técnica do Espaço Master – Memória e Vitalidade, Rosana Hosken Veiga, para destacar o valor da neuroaprendizagem. Ela explica que começamos o envelhecimento das células nervosas já aos 30 anos. “Só que essa perda é pouco sentida. Podemos considerar que temos ‘um problema de memória’ quando esse afeta o cotidiano e as atividades laborais e/ou acadêmicas, independentemente da idade.”

Aos 99 anos, Karel van Den Berger, holandês que veio para o Brasil há mais de 50 anos, é um exemplo de vitalidade. Filósofo, biólogo e músico, fundador da Orquestra Sinfônica do Espírito Santo e ex-professor da Universidade Federal do Espírito Santo, Karel é daquelas pessoas raras, que têm prazer pela música, pela filosofia e, principalmente pela vida. Aos 97, sofreu um leve AVC e sentiu que havia ocorrido uma pequena perda da memória. Pediu à filha, médica, para levá-lo a um lugar para fazer uma avaliação. Foi constatado um problema de memorização e linguagem por meio da avaliação feita pela neuropsicóloga Rosana Hosken, que iniciou um trabalho de reabilitação cognitiva com Karel. O trabalho durou um ano.

Em seguida, Karel passou a fazer um treino cognitivo ecológico com o neurocientista Guilherme Hosken. Esse trabalho é focado na prática de exercícios que ajudam o paciente a executar suas atividades cotidianas, em seu ambiente doméstico. O objetivo de Karel era, e continua sendo, manter sua capacidade de aprender, de estudar e fazer todas as coisas das quais gosta, como a música e a leitura: “As pessoas acreditam que, por ter envelhecido, não podem mais aprender coisas novas. Sou um velho estudante. Tenho pelo menos 15 coisas diferentes para fazer todos os dias. As pessoas mais velhas têm que fazer coisas interessantes para se manter ativas. O trabalho de cognição me ajuda na parte intelectual e acredito que ainda posso desenvolver outras partes do cérebro. Por exemplo, a música sempre fez parte da minha vida, desde os 5 anos. Quando tive problema de visão há poucos anos, iniciamos um trabalho que me permitiu usar a memória e não a visão para tocar. Hoje, toco de memória, de ouvido todas as músicas de que gosto. Ainda toco piano, violino e teclado todos os dias. Toco de olhos fechados”.

Rosana Hosken afirma que, a partir do momento em que as atividades rotineiras começam a ficar prejudicadas em função dos esquecimentos, isso é um alerta para a questão da memória. “Um excelente indicador é quando as pessoas que estão ao nosso redor fazem observações sobre nossa fala repetitiva. A perda da memória deve ser avaliada por profissionais médicos ou neuropsicólogos, por meio de consultas e avaliações que permitem, por meio de bateria de testes, medir os tipos de memória e comparar com a população de mesma caraterística demográfica.”

É verdade que o cérebro precisa ser estimulado constantemente. Rosana Hosken destaca que há diversos tipos de exercícios que contribuem. “É interessante, quando se fala em atividade para o cérebro, pensar, em primeiro lugar, em ‘surpreendê-lo’, tirando-o da zona de conforto e fazendo atividades que diferem das feitas habitualmente. Por exemplo, um engenheiro em sua atividade laboral utiliza muito a matemática e o raciocínio lógico. Para essa pessoa, um exercício interessante para o cérebro seria leitura, lidar com palavras, já que essas atividades divergem do seu cotidiano.”

A neuropsicóloga enfatiza que, para treinar e exercitar o cérebro, é importante pensar sempre em atividades que, de alguma forma, lhe deem prazer e tragam satisfação, “senão desistimos da tarefa na primeira semana de treinamento”. Ela lembra que para cada faixa etária, os exercícios serão diferentes, já que um estímulo que interessa a uma criança é completamente diferente para o adulto ou idoso. “As atividades têm que estar em consonância com a vivência da pessoa.”

TECNOLOGIA


Muito se critica a tecnologia sobre sua interferência na saúde da memória. Rosana Hosken analisa que, como mecanismo de auxílio externo, o mundo digital contribui muito, já que temos recursos atuais inimagináveis há 50 anos. “No entanto, o avanço tecnológico propiciou aumento do número de informações a uma velocidade maior que a nossa capacidade de retê-las. Assim, sofremos problemas com esse avanço. Entre eles, a ‘atenção’, uma vez que ela está sempre muito dividida entre as inúmeras informações disponíveis. Podemos dizer que a atenção é uma ‘porta de entrada’ para que possamos reter uma informação. Como ela fica muito difusa, devido ao volume e velocidade do mundo digital, isso pode atrapalhar o processo de memorização. Hoje, temos esse sentimento de estar com problema de memória e muitas vezes se trata apenas de um problema de atenção.”

Quem não estiver confortável com a memória vale a pena fazer uma avaliação neuropsicológica. Rosana Hosken explica que ela consiste em instrumento usado por neuropsicólogos para investigar e diagnosticar o funcionamento cognitivo das pessoas. Funções como memória, linguagem, praxias, atenção e funções executivas são avaliadas por meio de uma bateria de testes e questionários e os dados são analisados e comparados com a população de mesma característica demográfica, para verificar se os processos cognitivos do paciente se encontram dentro dos padrões esperados para a sua população. “É um instrumento auxiliar ao médico para diagnóstico de transtornos de memórias como as demências, entre elas o Alzheimer. A avaliação verifica a acuidade da memória, assim como consegue detalhar e especificar os tipos e quantificar os resultados. Vários tipos de enfermidades podem acometer diferentes tipos de memória. A avaliação é um instrumento de grande valia para o auxílio diagnóstico.”

O que fazer?

“Imagine que nossas funções cognitivas, tais como memória, atenção, linguagem etc., são como bolhas de sabão. Quanto mais estimuladas, maiores elas ficam e por mais tempo permanecerão cheias. No entanto, se forem pouco estimuladas, elas ficarão pequenas e continuarão cheias por pouco tempo. Isso ocorre porque, quando acionamos uma área ou circuito neuronal específico, precisamos enviar nutrientes para ele, o que faz com que essa região se fortaleça. Porém, circuitos neuronais sem uso não demandam nutrientes e consequentemente se enfraquecem”, ensina a neuropsicóloga Rosana Hosken, ao indicar atitudes que contribuem para uma boa memória:

1 – Treino cognitivo acompanhado por profissional, na qual metas de curto e longo prazos são estipuladas

2 – Atividades físicas: estudos recentes realizados na UFRJ apontam que a liberação do hormônio irisina é importante para a formação da memória e proteção dos neurônios liberados pelos músculos durante prática regular de exercício físico

3 – Aprender idiomas

4 – Fazer tarefas fora do ordinário. Exemplo: ir por um caminho diferente para o trabalho

5 – Jogos tradicionais, como baralho, xadrez, dama, palavra cruzada, quebra-cabeça e sudoku

6 – Plataformas digitais de treino cognitivo: memorado, lumosity,fit brain

7 – Meditação


Academia da memória

Com programas a partir de R$ 125 a diária, o Espaço Master – Memória e Vitalidade, construído em um casarão dos anos 1960, com mais de 1 mil metros quadrados com amplos jardins no Bairro Cidade Jardim, desenvolveu pacotes para atender às necessidades específicas de uma variedade de clientes. A metodologia tem como base a associação entre o desenvolvimento cognitivo e a estimulação sensorial-motora, programa composto por três pilares:

1 – Avaliação cognitiva/neuropsicológica

Analisa por meio de testes, atividades e questionários o funcionamento cognitivo de cada pessoa. Essa avaliação identifica fatores que possam comprometer a memória e pontos fracos que precisam ser trabalhados, bem como os pontos fortes a serem usados como suporte nesse processo.

2 – Academia do cérebro

O cérebro é igual à nossa musculatura corporal e tem a capacidade de se desenvolver quando estimulado da maneira correta. Exercitar nossa mente é tão importante quanto exercitar nosso corpo. A ginástica cerebral é a prática de exercícios cerebrais que favorecem a produção de neurotransmissores (dopamina, serotonina e adrenalina) e melhora as conexões entre as células nervosas, estimulando o desenvolvimento de novas redes neurais. Por isso, investir na ginástica cerebral pode ser eficaz para quem precisa estimular a memória, a atenção e o raciocínio. A ideia da plasticidade cerebral e de reserva cognitiva são conceitos bastante utilizados para a estimulação cognitiva.

3 – Laboratório de força, equilíbrio e coordenação

A longevidade das pessoas, adquirida com o maior acesso aos avanços da medicina e a maior consciência dos seres humanos por uma vida mais saudável, trouxe a necessidade de que essas pessoas mantenham por mais tempo sua vitalidade. Tendo em vista esse objetivo, o programa prevê a prática de uma série de atividades que promovem o fortalecimento físico, o equilíbrio e a coordenação motora que vão se perdendo com a chegada da idade.

O que comer?

A neuropsicóloga Rosana Hosken afirma que uma boa alimentação é essencial para o bom funcionamento cerebral, já que nosso intestino vem sendo considerado nosso segundo cérebro. Conforme ela, uma má alimentação pode provocar pressão alta, alto índice de colesterol, o que poderá comprometer o sistema vascular e o transporte de oxigênio e nutrientes para o cérebro, afetando, assim, o funcionamento da memória.

Nesse contexto, diversos alimentos podem contribuir para o bom funcionamento da memória

» Kombucha: bebida probiótica produzida a partir da fermentação do chá; é excelente para o intestino e,
    consequentemente, para o funcionamento cerebral

»  Alimentos que contêm ômega 3 são poderosos antioxidantes e os encontramos nos peixes, principalmente

»  A gema do ovo contém colina, precursor do neurotransmissor acetilcolina, que pode beneficiar a memória

»  Quinoa e linhaça também são bons alimentos

»  A cúrcuma, conhecida como açafrão-da-terra, um tempero de cor alaranjada, tem curcumina que
    também tem sido estudada como benéfica para a memória




É interessante, quando se fala em atividade para o cérebro, pensar, em primeiro lugar, em ‘surpreendê-lo’, tirando-o da zona de conforto e fazendo atividades que diferem das feitas habitualmente”

. Rosana Hosken, neuropsicóloga


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