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Que história de presente é essa

Costume adotado pelos cristãos nasceu há milênios e atravessa o tempo carregado de simbologias. Saiba mais sobre o hábito, que chega ao século 21 renovado


postado em 16/12/2018 05:07

(foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)
(foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)

 

 

 

 





“Só na véspera do Natal, depois de fechar a loja, tinha o costume de subir para a sala de chocolates e pensar nos presentes, que gosto de bolar na hora, refletindo sobre meus afetos. Mas, no ano passado, foi diferente. Levei um choque e, por algum tempo, pensei na morte e em quanto a vida é breve e pode escapar em um segundo.”

O depoimento da designer e empresária Paula Bondan, proprietária da marca Frau Bondan, é forte. E se ali, naquela ocasião, ela já se considerava uma pessoa que sempre procurou distribuir afeto de forma personalizada, “um presente que é a cara da pessoa, até mesmo sem me prender a datas”, o traço ficou ainda mais forte. “Pensei em como temos o hábito de acumular coisas. E também na urgência de falar com pessoas queridas sobre o quanto as amo, o quanto são importantes pra mim. Quando fui pra casa, decidi selecionar objetos que faziam parte da minha vida, da minha memória afetiva, coisas com significado, para presentear cada um dos meus sobrinhos. Coloquei a alma ali e quis que cada um tivesse uma lembrança da personalidade da tia, do meu olhar sobre o mundo e as coisas, daquilo que me encanta. Escrevi dedicatória e um bilhete para cada um, mesmo para o mais novinho, de apenas 3 anos.”

E aquele foi um Natal feliz, repleto de emoção, conta Paula. Tanto que os pequenos Gabriel, de 11 anos, Manuela, de 10, Clara, de 6, e Miguel, de 3, guardam com o maior carinho os presentes daquele dia, que deve ser relembrado ainda durante muito tempo. “Sou mesmo de comprar só o que me encanta, não me obrigo a dar presentes nas datas, mas algo que, quando vejo, me faz lembrar aquela pessoa. Sem clichês e com muito afeto, energia de cura até. Assim penso o presente ideal. E nem precisa ser uma coisa, mas uma experiência, um momento. O importante é tocar o coração do outro e, para isso, acredito que a escolha é imbuída do sentimento que vem da alma, que tenha sentido e se identifique com o outro”, descreve.

COSTUME MILENAR 

Maurício Paz, professor de história da Universidade Federal do Paraná e de outras instituições, conta que a data comemorativa cristã do Natal, comemorado em dezembro, foi definida apenas no século 4. “Antes disso, os cristãos primitivos não tinham o hábito da celebração do Natal como conhecemos. Existia, nessa data, uma festa anterior à era cristã, chamada de Natalis Solis Invicti.”

Ele fala sobre a popularidade da festa no Império Romano, a celebração de Solstício de inverno, quando as noites passam a ficar cada vez mais curtas, com o sol predominando por mais tempo e derrotando, assim, o inverno e a escuridão da noite. E destaca que essa mesma festa tem sua origem há mais de 5 mil anos, na Pérsia, com a divindade Mitra, uma deidade relacionada ao Sol.

Trata-se de uma história talhada ao longo de milênios, continua. “Embora o Império Romano fosse oficialmente cristão desde o imperador Constantino e o Edito de Milão, em 313, é preciso entender que as religiões da Antiguidade, consideradas pagãs, não desapareceram e a melhor forma de evitar conflitos religiosos era com as autoridades promovendo a sincretização das crenças. Pois bem, a troca de presentes e decoração de árvores com velas e fitas já era uma prática das celebrações do Natalis Solis Invicti, que acabaram assimiladas pela cristandade.”

OS REIS MAGOS

O professor diz, ainda, ser impossível afirmar se os três reis magos, por exemplo, existiram de fato. “E isso não tem o propósito de se contrapor à fé ou à cultura das pessoas. Na realidade, culturalmente, a festa dos reis magos é o momento de troca de presentes em alguns países, como na França. Embora o costume de presentear os recém-nascidos seja, de fato, milenar, é difícil afirmar com precisão histórica a existência real desses fatos.”

Assim, conclui ele, o hábito de presentear no Natal, tão corrente na cultura ocidental e entre a comunidade católica, atravessou o tempo e varia em cada país (veja quadro). “No Brasil, fomos influenciados pela tradição americana, que movimenta imensamente muito dinheiro nas festas de fim de ano. No entanto, certamente, o Natal nos aproxima, nos acalenta, faz com que antigas mágoas sejam resolvidas, une famílias e amigos, promove um sentimento de perdão, renova esperanças. Por esses motivos, as festas natalinas ainda estão na cultura, elas ajudam cada sujeito a lidar e a resolver esses problemas. Ao longo da história, o Natal representou momentos de ruptura em muitos acontecimentos. Na Idade Média, Moderna e Contemporânea, existem inúmeros relatos de Armistícios em guerra durante o Natal. Mais uma evidência da força desse fenômeno, mesmo no século 21: a sociedade de consumo tende a tornar todas as relações e significados mais efêmeros e pouco importantes diante do consumo. Mas acredito que ainda assim o Natal resguarda o sentido de promover a união familiar e de amigos. De reatar laços e nos reconectar às nossas origens.”



"O importante é tocar o coração  do outro e, para isso, acredito que a escolha é imbuída do sentimento que vem da alma, que tenha sentido e se identifique com
o outro”

. Paula Bondan, empresária, com os sobrinhos Gabriel, Miguel, Clara e Manuela


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