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Estado de Minas

Rainha das lavouras no Norte de Minas, banana enfrenta novos desafios

Região se consolida como maior polo produtor da fruta no estado, mantendo 12 mil empregos, e convive com os riscos da baixa de preços, seca, e a ameaça de fungos mais resistentes


postado em 12/08/2019 06:00 / atualizado em 12/08/2019 09:14

Agricultores fazem da região o principal fornecedor da fruta em Minas, a despeito da luta contra as dificuldades provocadas pelo solo árido, o alto custo da irrigação e a escassez de água(foto: Fernanda Fabrino/Divulgação Epamig)
Agricultores fazem da região o principal fornecedor da fruta em Minas, a despeito da luta contra as dificuldades provocadas pelo solo árido, o alto custo da irrigação e a escassez de água (foto: Fernanda Fabrino/Divulgação Epamig)
Produzir banana nas terras áridas do Norte de Minas Gerais seria um trabalho sem mistérios para Hilda Loschi, que tem se dedicado à cultura nos últimos 20 anos, não fossem os desafios avançando tanto quanto a disposição da agricultora de expandir a lavoura. Neste ano, ela está investindo em 180 novos hectares da plantação que comanda no município de Lassance, distante 200 quilômetros de Claro dos Poções, onde começou a produzir e mantém 75 hectares.

“Nem toda a nova área entrará em produção em 2019. Há muitas limitações. São restrições de água fora dos projetos de irrigação, licenciamentos demorados e burocráticos, além de gargalos técnicos”, afirma.
 
Em Montes Claros, também com experiência de duas décadas na atividade, Dirceu Colares trabalha no desenvolvimento de 30 hectares adicionais aos terrenos cultivados pela família na Fazenda Lagoão. É preciso, contudo, vencer os obstáculos, que não são poucos, da mudança climática – uma alternância de temperaturas muito altas e frio – à falta d'água e o controle de doenças. “A fruta mostra seu potencial e temos tecnologia adaptada à região”, destaca.
 
São os resultados colhidos por produtores como Hilda Loschi e Dirceu Colares que permitirão ao Norte mineiro confirmar, mais uma vez, a posição de liderança na bananicultura do estado e seu destaque no ranking nacional da oferta de banana-prata. A cultura é vista como uma espécie de redenção num solo castigado pela seca e em diversos municípios afetados pela pobreza. A cadeia produtiva da fruta sustenta cerca de 12 mil empregos diretos na região, concentrando sete das 10 cidades que mais ofertam o produto, segundo dados da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG) e da Empresa de Pesquisa Agropecuária do estado (Epamig).
 
A renovação dos bananais não para, a despeito de exigir mais dos produtores, diante de uma combinação de fatores desafiadores, de acordo com Maria Geralda Vilela, coordenadora do Programa Estadual em Fruticultura da Epamig. Desde 2011 chove pouco na região; há limitações de água para irrigação e para os poços tubulares, perda de água para a atmosfera, e ocorrência de temperaturas muito acima do ideal para o cultivo.
 
Do ponto de vista da comercialização da fruta, a crise da economia, que abalou o consumo no Brasil, espremeu as margens obtidas pelos produtores nos últimos três anos e dificultou a precificação da banana. “Os produtores buscam alternativas e continuam a investir numa região que teve evolução impressionante.

A cultura da banana no Norte de Minas conta com produtores mais tecnológicos, aqueles empreendedores que vão atrás da política de negociar, e se envolvem na luta por mercados de consumo. Eles construíram um modelo de organização que é exemplo para outras atividades”, afirma Geralda Vilela.
 
As estatísticas mais recentes da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas, indicam queo preço médio real da fruta caiu 46% de 2016 para 2017, quando a caixa de 18 quilos passou a valer R$ 15,50, frente aos R$ 28,80 anteriores. O valor havia caído em 2014 e 2015, se recuperou em 2016 e voltou a descer ladeira em 2017.

Tradição


De uma produção característica de fundo de quintal nos anos 70, a bananicultura cresceu na década de 80 e evoluiu de modestos 9,25 mil hectares para 18,1 mil hectares no ano passado. Junto aos expressivos volumes produzidos no mapa da oferta mineira, a região se consolidou como produção altamente tecnificada e de qualidade. Cerca de metade da área plantada está nos perímetros irrigados de Pirapora, Lagoa Grande, Gurutuba e Jaíba. Em volume de produção, o Norte deve participar com 54,7% da produção mineira
 
Problema central para os produtores do Norte de Minas está no custo elevado das plantações, observa Deny Sanábio, Coordenador Estadual de Fruticultura da Emater-MG. “A despesa é alta, uma vez que os produtores dependem de luz e água e têm de escoar logo a fruta”, afirma. Neste ano, a região tem enfrentado redução de preços, depois de uma combinação indesejável de fatores: a entrada de áreas novas em produção no ano passado, o que levou a aumento da oferta, inverno acentuado e o consumo que não sai da estabilidade.
 
Diante dessa equação, a estimativa com a qual a Emater-MG trabalha para este ano é de redução da área plantada de banana no Norte de Minas para 16,8 mil hectares, ante 18,1 mil hectares em 2018 e produção de 340,8 mil toneladas, também com queda frente ao volume de 372,2 mil toneladas do ano passado. A performance da cultura no estado será melhor. Espera-se aumento da extensão das lavouras de 45,4 para 47,5 mil hectares e produção, evoluindo a 849,2 mil toneladas, em lugar das anteriores 811,4 mi toneladas.

Segurança em dobro Novo risco às lavouras, o anúncio, na semana passada, da descoberta da doença provocada pelo fungo raça 4 Fusariam, nos bananais da Colômbia, exigirá mais medidas de segurança no Brasil. Outro fator importante será fiscalizar o ingresso de mudas e material propagativo.em nosso país.

Considerada mais agressiva, a fusariose tende a impor, da mesma forma, investimentos novos, como destaca a agricultora Hilda Loschi. Independentemente da ocorrência da doença, ela considera umas das maiores dificuldades a falta de matrizeiros das derivações da banana prata-anã.
 
“É um problema relacionado à origem do material genético. Mudas de origem têm certificação não tão sofisticadas como buscamos”, diz. Na balança dos pontos fortes da bananicultura do Norte de Minas, Hilda enumera a tecnologia disponível às lavouras, gente profissionalizada na assistência ao produtor e organização eficiente dos agricultores.
 
Dirceu Colares concorda e enfatiza, ainda, o avanço do controle biológico de pragas na plantação. O esforço tem sido recompensado, por exemplo, com boa produtividade, uma busca constante. Hilda Loschi espera colher 10 milhões de quilos da fruta nesta safra e terminar o ano com produtividade entre 35 e 38 toneladas por hectare. “Não sabemos é se o clima da região vai permitir”, pondera. Na fazenda de Colares, a meta é manter o que ele chama de “produtividade vitoriosa”, de 35 toneladas por hectare, em média.

Pesquisas inspiram lima, umbu, manga, abacaxi e maracujá


Sem deixar de renovar o bananal, os produtores do Norte de Minas abraçam a estratégia da diversificação de culturas nas fazendas, levados pela redução das margens de lucro e da disponibilidade de água, além da necessidade de procurar alternativas para conviver com as doenças nas lavouras. Pesquisas feitas pela Epamig já indicaram viabilidade econômica da produção feita com menor quantidade da água usada na irrigação. Contudo, há períodos do desenvolvimento da planta, como a floração, sensíveis à água.
 
Cada ciclo de produção da banana, – uma das culturas mais exploradas na região do semiárido mineiro –, requer 1.300 milímetros de água, em média. A pesquisadora e coordenadora na Epamig Maria Geralda Vilela  lembra que progressos obtidos nas pesquisas com banana relacionadas à adubação e nutrição, desenvolvimento e seleção de cultivares, alcançaram e estimularam a produção de outras frutíferas no Norte do estado.
 
“Abriram-se possibilidades com lima ácida Taiti, umbu, manga, abacaxi, maracujá e mangostão (ou mangostim)”, observa. Estudos da Epamig mostram que há condições na região de produzir uma série de frutas em áreas atacadas pela seca, com diminuição de até 50% da água usada nos sistemas de irrigação.
 
“Existe hoje uma preocupação muito maior com uso de recursos naturais, com a sustentabilidade, legislação ambiental, legislação trabalhista, entre outras questões”, diz Geralda Vilela. Fundamental para o produtor é avaliar o solo e o clima, para, então, trabalhar o manejo. “As frentes são muitas e a pesquisa não vai parar. A cada passo que se dá na pesquisa, abre-se mais um leque de possibilidades”.


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