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Estado de Minas NORTE DE MINAS

Greve dos caminhoneiros deixa 'herança de dívidas'

Um ano depois da paralisação dos caminhoneiros, que provocou grandes perdas às lavouras fruticultores do Norte de Minas não conseguiram quitar financiamentos, sobretudo da banana


postado em 03/06/2019 06:00 / atualizado em 03/06/2019 10:22

Carro-chefe da produção do Norte de Minas, a bananicultura sofreu com perda equivalente a 80% da oferta semanal da fruta, que ficou retida nos amazéns da região, por causa da interrupção do transporte (foto: Abanorte/Dilvulgação)
Carro-chefe da produção do Norte de Minas, a bananicultura sofreu com perda equivalente a 80% da oferta semanal da fruta, que ficou retida nos amazéns da região, por causa da interrupção do transporte (foto: Abanorte/Dilvulgação)

No início de junho de 2018, os produtores de frutas dos projetos de irrigação do Jaíba e do Gorutuba, no Norte de Minas Gerais, assim como empresários de outros setores, tiveram enormes prejuízos em função da greve dos caminhoneiros, com perdas de toneladas de frutas, que foram perdidas, devido a interrupção da passagem nas rodovias. Agora, passado um ano do movimento dos transportadores, os fruticultores ainda buscam a recuperação, mas ainda sentem os efeitos da “greve que parou o país”.

 

“As consequências da paralisação dos caminhoneiros ainda são sentidas, principalmente, pelos pequenos agricultores que, com a interrupção nas vendas no período da greve, ficaram inadimplentes e, até hoje, não conseguiram quitar as dívidas”, afirma o ex-presidente da Associação dos Fruticultores do Norte de Minas (Abanorte), Saulo Bresinski Lage.

 

“A greve dos caminhoneiros teve efeito traumático para toda classe produtora”, destaca Bresinki Lage, que, na época do protesto, presidia a entidade, tendo deixado a função em março último. Ele considera que os prejuízos da paralisação dos motoristas de caminhão foram maiores para a produção de banana, o carro-chefe da fruticultura no Norte de Minas.

 

Segundo a Abanorte, os bananais abrangem cerca de 20 mil hectares no Norte do estado, ocupando grandes áreas nos perímetros irrigados do Jaíba (município homônimo) e do Gorutuba, que compreende os municípios de Janaúba e Nova Porteirinha. A produção semanal da região enche cerca de 500 caminhões (6 mil toneladas) de banana, que tem como principais destinos a Companhia de Abastecimento (Ceasa Minas, em Contagem, na Grande Belo Horizonte; e os mercados do Rio Janeiro e São Paulo, chegando ainda às regiões Centro-Oeste e Sul do país.

 

De acordo com o ex-presidente da Abanorte, durante a greve dos caminhoneiros (iniciada em 21 de maio e encerrada no começo de junho de 2018), cerca de 400 caminhões de banana (4,8 mil toneladas) ficaram retidos no Norte de Minas, tendo em vista que os motoristas interromperam a estradas, impedindo a chegada da fruta ao entreposto da Ceasa Minas na Grande BH e a outras unidades de abastecimento.

Reflexo da paralisação das estradas, o entreposto da Ceasa, o entreposto da Ceasa Minas, na Grande BH, ficou vazio, com consequente aumento de preços no varejo(foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Reflexo da paralisação das estradas, o entreposto da Ceasa, o entreposto da Ceasa Minas, na Grande BH, ficou vazio, com consequente aumento de preços no varejo (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)


“Podemos dizer que todas as 4,8 mil toneladas de banana foram perdidas”, afirma Saulo Lage, que é bananicultor em Janaúba. Por causa da interrupção nas rodovias, também houve perdas de outras frutas da região como mamão, manga, limão e uva, além de verduras.

 

O produtor observa que logo depois da paralisação dos transportadores, os produtores ainda foram afetados por vários desdobramentos negativos do protesto.

“Como a produção tinha ficado retida, assim que terminou o movimento dos caminhoneiros, houve uma superoferta da banana. O preço da fruta, que já estava baixo, caiu mais ainda”, relata o ex-presidente da Abanorte. Ele disse que o preço do quilo da banana pago ao produtor, que estava na faixa de R$ 1,20 caiu tanto após a liberação das estradas que chegou a R$ 0,40 em julho de 2018.

Efeito cascata


A Atual presidente da Abanorte, Nilde Antunes Rodrigues Lage, também ressalta que até hoje o setor ainda sofre com a consequências da paralisação dos caminhoneiros. Ela lembra que os efeitos do protesto afetaram outros segmentos da economia da região que são movidos pelos empregos e pela renda da fruticultura.

“Se você comparecer a um posto de combustíveis em Janaúba perceberá que ele é mantido com a venda do diesel que abastece os caminhões de banana. Da mesma forma, existem fábricas na região de embalagens de frutas. Toda a cadeia produtiva foi afetada pela greve dos caminhoneiros em efeito cascata”, assegura a dirigente da Abanorte.

 

Atualmente, destaca Saulo Lage, o mercado da banana experimenta uma melhoria de preço. Segundo ele, na segunda quinzena de maio, o preço da fruta pago ao produtor na região de Janaúba, que, chegou a R$ 2,20 o quilo e depois recuou, continua em boa cotação, a R$ 1,90 o quilo.

 

Segundo o ex-dirigente da associação de fruticultores, houve melhoria do preço da banana devido à redução da produção no Vale do Ribeira, em São Paulo. “Com queda em São Paulo, os compradores do Sul está vindo buscar a fruta do Norte de Minas”, conta Lage, destacando que cargas de banana da região estão chegando aos mercados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e no Mato Grosso do Sul.

Custos


Ele lembra que o consumo também cresceu, o que influencia os preços, em razão da lei da oferta e da procura. Ao mesmo tempo em que experimentam a melhoria da cotação do produto, plantadores de banana sofrem com o aumento dos custos. A observação é do produtor Rodolfo Rebello. “Enfrentamos o aumento dos custos da energia, dos fertilizantes e de outros insumos com a alta do dólar”, lamenta Rebello.

 

Ele afirma que o custo do frete é um dos maiores encargos dos bananicultores norte-mineiros. “Gastamos muito com o transporte, pois estamos longe dos grandes centros consumidores. Para piorar, ainda temos que arcar com as despesas dos pedágios nas rodovias”, reclama o produtor.

 

Rodolfo Rebello disse que, passado um ano, muitos pequenos produtores de banana do Projeto Jaíba estão descapitalizados e endividados, sem condições de pagar a conta de luz. “Para os pequenos produtores, a situação é pior, pois eles ficam nas mãos dos atravessadores, vendendo a fruta por preços mais baixos”, afirma.

Festa mostra potencial e qualidade


O potencial da fruticultura do Norte de Minas é mostrada na Exposição Agropecuária de Janaúba (Expô Janaúba), aberta na sexta-feira e que prossegue até domingo. Em parceria com o Sebrae Minas, a Abanorte montou estande na feira, com o objetivo de mostrar o funcionamento da cadeia produtiva da banana e a qualidade de outras frutas da região, além da troca de informações entre os produtores.

Neste sábado, serão realizados os concursos do “Melhor Cacho de Banana” (das variedades Prata Anã, Nanica e Princesa) e concurso de culinária, com o preparo de pratos a partir das frutas produzidas na região. Também está prevista aula da professora de gastronomia Bernadete Guimarães.

 

A presidente da Abanorte, Nilde Antunes Lage, informa que durante a Expô Janaúba, será também promovido o concurso “Hackathon da Fruticultura”, envolvendo alunos e egressos de diversos cursos da Faculdade do Vale do Gorutuba (Favag). Os concorrentes terão como desafio elaborar trabalhos sobre a melhoria da troca de informações entre os fruticultores.

 

A feira agropecuária contará também com estande da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), voltado para a divulgação dos estudos e pesquisas desenvolvidos por professores e alunos dos cursos de Agronomia e Zootecnia (graduação e mestrado) e de Produção Vegetal no Semiárido (mestrado e doutorado). Serão ministradas palestras voltadas para estudantes de escolas do ensino fundamental e médio.

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