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Estado de Minas COLUNA

As memórias do esquecimento

A beleza do esquecimento não pode impedir as memórias que devem ser sempre lembradas


13/06/2022 06:00

Ilustração de uma cabeça, com o cérebro à mostra; uma borracha apaga parte dele
Esquecer, segundo os cientistas, é um mecanismo natural do cérebro para garantir agilidade de decisões (foto: Reprodução/Internet)
Num destes momentos de navegação aleatória pelas redes sociais, deparei-me com uma enquete de uma pessoa que sobreviveu à Covid-19 e indagava sobre as sequelas deixadas pelo vírus entre a outras pessoas também acometidas pelo mesmo mal. Entre todas as consequências citadas, foi quase um consenso a perda da memória e a redução do vocabulário de uso cotidiano. 

Não sei como reagiria à perda das minhas memórias. Delas, sustento meu dia a dia e o meu trabalho. Dizem que tenho boa memória, que lembro datas e fatos pouco comuns. Pode ser. Entretanto, não tenho nenhuma memória musical expressiva. Parto do princípio de que minha voz não é afinada o suficiente para expor os outros a ouvir-me cantando. Então, não memorizo as letras, propositalmente. Mas listo mentalmente informações, nem sempre comuns, que acredito serem importantes para a compreensão de determinado assunto, durante as minhas aulas. Essas, eu as levo na bagagem das memórias sempre preservadas.

Esquecer, segundo os cientistas, é um mecanismo natural do cérebro para garantir agilidade de decisões. Muitas lembranças criam um estoque de dados, que dificulta, entre outras coisas, a tomada de decisão. É fundamental o esquecimento para o cérebro focar no que realmente importa. 

Esquecer, entretanto, não é uma tarefa cerebral fácil.  Quando ocorre de forma passiva, a lembrança, simplesmente, esvai, mas quando esquecer é uma obrigação, os processos neurais envolvidos são mais complexos e o cérebro tem dificuldade de realizá-lo. O esquecimento voluntário exige muito mais que o esquecimento acidental. Que o digam os apaixonados não correspondidos e a fixação, doída, na imagem do ser amado. Esquecer, inconscientemente, é fácil. Esquecer, deliberadamente, não.  É quase impossível de ser realizado. 

Os processos cerebrais de armazenamento e de esquecimento são distintos. Para armazenar os dados, o cérebro produz uma rede de neurônios, que será ativada para guardar as informações. Para que haja o armazenamento, essa rede precisa ser consolidada pois, no primeiro momento, há instabilidade cerebral. Isso explicaria, por exemplo, a importância da releitura de uma lição para que, realmente, ocorra a estocagem das informações, que irão compor os rastros da memória.  

O esquecimento, segundo os cientistas, envolve dois mecanismos. O primeiro é resultado do enfraquecimento das sinapses das redes de neurônios criados para formar os traços da memória. O segundo vem da criação de novos neurônios. Quando o cérebro cria esses neurônios, há uma poluição do local onde as memórias estão registradas, enfraquecendo os circuitos que as armazenam. 

Após aprender algo, naturalmente, provocamos a criação de outros neurônios, que estarão envolvidos em distintas redes de conhecimento.  Ironicamente, esse processo pode levar ao esquecimento. As crianças tendem a criar muitos deles, o que explicaria por que esquecem com mais facilidade. 

Admiravelmente, o cérebro gasta muita energia para criar jovens redes neurais, que acabam por enfraquecer as memórias (não dos apaixonados, diriam os poetas, mas a paixão passa, espera um pouco e vai esquecer também). Ter muitas lembranças pode ser tão danoso quanto não tê-las. Esquecer é uma forma de favorecer as escolhas.

O cérebro busca simplificar o volume de informações parasitas, que dificultam a absorção e adaptação às novas situações. As informações supérfluas, que são eliminadas, garantem maior agilidade cerebral. Assim uma boa memória é aquela que seleciona e prioriza o que é importante, segundo a ciência. 

O mais irônico de tudo isso é que na memória do esquecimento está toda a riqueza do que foi vivido. Aquilo que foi eliminado guardava as sutilezas de um olhar, da sonoridade de uma gargalhada gostosa de ouvir, do rápido crescimento  dos filhos, do calor das mãos dos avós que partiram. Guardamos momentos, mas os dias vividos, se foram com as memórias perdidas. Talvez seja a única forma de preservar o que, realmente, é relevante. Não se pode ter tudo. 

Esquecer é um mecanismo espetacular de defesa contra a ansiedade ou contra o excesso de emoção que pode causá-la. No amor é o esquecimento que permite redescobrir todas as manhãs a pessoa ao lado de quem dormimos e amá-la novamente, ainda mais e melhor. Se não esquecêssemos, seria impossível amar com o tempo. 

Todavia, algumas memórias devem ser sempre lembradas, principalmente aquelas que envolvem uma coletividade. Essas devem ser ativadas de forma contínua, para que atos não sejam repetidos. Os horrores das grandes guerras, as bombas atômicas, os campos de concentração, a escravidão, o genocídio das minorias, as ditaduras militares, o abandono dos menos favorecidos. Isso não pode cair no esquecimento.  Os livros, as artes, as imagens sobre esses eventos devem ser produzidos e popularizados, para que os erros cometidos não sejam olvidados. 

O que é repetido é mais fácil de processar e se torna mais sólido. As informações verdadeiras armazenadas na memória são menos vulneráveis às alegações falsas que proliferam nos tempos atuais. As verdades ilusórias somente são absorvidas na ausência do real conhecimento. Por isso, a importância de não esquecer fatos importantes da história humana. 

O dever de alimentar as lembranças dos grandes fatos coletivos está na raiz da construção do nosso futuro.  As memórias individuais são mutáveis. As memórias da história mundial não. Nesse contexto, a máxima “temos a memória curta” não se aplica. 




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