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Estado de Minas ESTADO AUTÔNOMO LIVRE

Nascida de um conflito, a Irlanda do Norte revive as sombras do passado

A criação da Irlanda do Norte como um Estado Autônomo Livre, do Reino Unido, completa 100 anos nesta segunda (3/5)


Protestos de integrantes de comunidades nacionalistas pró-irlandesas aumentam a tensão nas ruas de Belfast(foto: Paul Faith/AFP)
Protestos de integrantes de comunidades nacionalistas pró-irlandesas aumentam a tensão nas ruas de Belfast (foto: Paul Faith/AFP)


Nesta segunda-feira (03/5), completam-se 100 anos da criação da Irlanda do Norte como um Estado Autônomo Livre, do Reino Unido.  A questão irlandesa, que ganhou destaque na mídia mundial durante boa parte do Século XX pelos conflitos separatistas da região, retorna às páginas dos noticiários internacionais devido à intensificação dos motins pelas ruas da capital, tendo como estopim o Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia, em 2016, e a finalização desse processo, em dezembro de 2020.   

As ilhas britânicas, representadas pela Grã-Bretanha e pela ilha da Irlanda, têm um longo histórico de adversidades. 

Até o Século XII, a Ilha da Irlanda era habitada por clãs, que disputavam entre si, o poder. Em 1169, um dos clãs pede ajuda aos ingleses, que não haviam demonstrado grande interesse na ilha vizinha, mas colaboram tirando vantagem da situação e fincando uma bandeira (sem grandes pretensões, ainda) na ilha, vista como primitiva pela Inglaterra.

Entretanto, durante o Século XV, com o nascimento do Protestantismo, a Europa se divide.  Nas ilhas britânicas, os irlandeses permanecem católicos e os ingleses se convertem à nova religião. Assim, surgiram duas comunidades, divididas e antagônicas - cada uma com sua própria cultura, idioma, lealdade política, crenças religiosas e história econômica – que passam a compartilhar a região.

Os ingleses, na época, temem que os irlandeses se unam aos bastiões do catolicismo e célebres adversários, franceses e espanhóis. Tal união aumentaria o risco de esses países levarem seus exércitos para a ilha vizinha, a menos de 100 km da costa inglesa, deixando a Grã-Bretanha vulnerável em caso de uma guerra.
  
Esta possibilidade era vista como grande ameaça e leva os britânicos a invadirem, efetivamente, a Irlanda, confiscando terras, principalmente, no nordeste da ilha. Os irlandeses tentam resistir, mas são esmagados por um severo e repressivo regime inglês.

Em meados do Século XIX, os irlandeses se alimentam, praticamente, de batatas, mas as batatas adoecem, acredita-se, devido a um fungo. Um milhão de irlandeses morrem de fome (1/4 da população é dizimada) e um milhão foge do país. A Inglaterra ignora esse cenário. Foi a grande fome, nunca esquecida pelos irlandeses. 

Esse histórico de tensões aumenta com a eclosão dos conflitos entre ingleses e irlandeses em 1916 (Revolta da Páscoa) até 1922. Em maio de 1921, a Irlanda do Norte (Ulster) se torna um Estado Livre Autônomo, ligado ao Reino Unido. 

Em 1922, como consequência da guerra de independência, a República da Irlanda (Eire) se separa do Reino Unido (RU) com a pequena fração protestante do nordeste da ilha permanecendo sob domínio inglês.  Se a guerra chegava ao fim no Eire, ela apenas começava no Ulster. Este nasceu da violência. A minoria nacionalista católica luta para se separar do Reino Unido e se unir à Irlanda, contrariando os interesses dos unionistas protestantes. 

A oposição entre os separatistas e os unionistas (que controlam o poder) dificulta a vida dos católicos. Até 1969 o voto era plural, que garantia aos protestantes o direito ao voto duplo nas disputas eleitorais. As manifestações católicas por mais direitos se intensificam e enfrentam a resistência da polícia e dos paramilitares adversários. 

Ligados diretamente a uma ala do maior partido católico da Irlanda, o Sinn Féin (Nós Mesmos), o Exército Republicano Irlandês (criado em 1919), mundialmente conhecido como IRA (Irish Republican Army) intensifica a luta armada a partir de 1969. O exército inglês assume as ruas e comete atrocidades, como na “Batalha de Bogside”. 

Um dos momentos mais impactantes desses conflitos ocorreu na manhã de domingo, 30 de janeiro de 1972, quando o exército inglês atira contra católicos desarmados a numa manifestação pacífica, nos arredores da capital Belfast. A ação resultou na morte de 14 pessoas, 6 delas menores de idade. Foi o Domingo Sangrento, eternizado nas canções do U2 (Sunday Bloody Sunday) e Paul MacCartney (Give Ireland back to the Irish). 

Nas prisões, no final dos anos 70, os protestos de presidiários ganham grande destaque. Os presos queriam recuperar o status de presos políticos. Assim, surgiu o Protesto dos Cobertores (Blanket Protest). Os detentos se recusavam a vestir o uniforme, mesmo espancados, permaneceram nus ou enrolados em cobertores. 

Em seguida, veio o Protesto da Imundície (Dirty Protest). Os reclusos não aceitavam qualquer forma de higiene, recusando-se a lavar-se, urinavam nas celas e forravam as paredes com os próprios excrementos, bem como os restos das suas refeições diárias, além de greves de fome. Margareth Tatcher (a dama de ferro que governa o RU) ignora e Bobby Sands, o líder, e mais 9 morrem de fome, em 1981.

O Ira intensifica os atentados na Inglaterra. Tatcher foi alvo de um desses atentados em 1984.

Na sequência da violência, em 1993, em Warrington – Londres, ocorreram os atentados à bomba com um saldo de duas crianças mortas e 56 feridos.  A tragédia inspirou a música Zombie, escrita pela vocalista do The Cranberries, Dolores O’Riordan, infelizmente, morta em 2018.  

Em resposta a esses atentados, apesar de pouco destaque na mídia, vários católicos foram mortos no Ulster, na manutenção da política do “olho por olho, dente por dente” aplicado na região, desde os primórdios da guerra civil irlandesa. Os paramilitares protestantes sempre vingaram a dor provocada pelo IRA aos compatriotas. Ao longo das décadas de tensões, mais de 3500 pessoas morreram: metade protestantes, mortos pelo IRA, metade católicos, mortos pelos paramilitares. 

Após a tentativa de ataque do IRA à primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, em 12 de outubro de 1984, as negociações foram retomadas entre Londres e Dublin. Isso levou ao Acordo da Sexta-feira Santa, assinado em 10 de abril de 1998, sob a égide do Presidente Clinton, dos EUA. 

Foi um acordo histórico 


Mas a Irlanda do Norte permanece profundamente fragmentada por políticas de identidade e prejudicada por governança disfuncional. A devolução do poder na Irlanda do Norte é baseada na divisão do poder entre sindicalistas protestantes, leais à Grã-Bretanha e nacionalistas católicos. O parlamento é, portanto, eleito de acordo com o princípio estrito da proporcionalidade e o executivo é dividido igualmente entre sindicalistas e nacionalistas.

Esse acordo garante à Irlanda do Norte mais autonomia, mas, ainda, como parte integrante do Reino Unido. O texto do documento prevê também a abolição da reivindicação de terras da República da Irlanda sobre a Irlanda do Norte (enterrando as perspectivas de reunificação) e o desarmamento do IRA.

Tony Blair, ex-premiê britânico da época, reage com júbilo a esse acordo; os protestantes, com desconfiança. O muro de 10 metros de altura e mais de 5 km de extensão, que separa bairros protestantes de bairros católicos na capital Belfast, sempre foi uma lembrança constante de que a extinção das rivalidades e ressentimentos mútuos poderia estar longe do fim.

Em 2016 o “Brexit” acende a luz amarela para a região. A saída do Reino Unido da União Europeia (UE) é vista com temor pelos irlandeses (contrários ao “Brexit”), pois a fronteira aberta entre a duas Irlandas, desde 1998, poderia ser fechada novamente, acirrando as tensões entre católicos e protestantes. 

Nesse ano, a Primeira-Ministra britânica, Theresa May, alimentou as preocupações dos irlandeses ao declarar que "ninguém quer o regresso das fronteiras do passado", mas que o Brexit tornava a livre circulação entre as duas Irlandas "insustentável". Os “brexiters” não consideraram esse conjuntura.

Theresa May foi substituída por Boris Johnson, o arquiteto do “divórcio” do Reino Unido da União Europeia. Pelo acordo de retirada firmado entre Boris Johnson e a UE em 2019, a Irlanda do Norte ainda se beneficiaria do mercado único e da união aduaneira, a cujas regras deve seguir, embora não seja mais membro da União Europeia.

A livre fronteira criou uma relação de pertencimento aos irlandeses católicos do sul e norte. Com o fim do mercado comum entre o Reino Unido e a UE, o reestabelecimento do controle de fronteira e a possibilidade de um novo referendo favorável à separação da Escócia, os sentimentos separatistas foram despertados. 

Os claros sinais em relação a essa possibilidade se materializavam. Em 2019, a morte equivocada da jovem jornalista Lyra McKee foi reivindicada pelo Novo IRA (NIRA). O grupo, que chegou a pedir desculpas à família pelo erro, expõe a retomada dos ressentimentos e tensões regionais. O NIRA, formado por dissidentes do IRA Provisório, atua há mais de uma década, timidamente no passado, mas se fortalecendo no presente. 

A vitória do Partido Católico Sinn Féin, em 2020, sempre favorável a uma Irlanda unida, nas eleições parlamentares da República da Irlanda (Eire), pela primeira vez em 100 anos é mais um fator que merece toda a atenção nas questões regionais entre católicos e protestantes no Ulster. 

O novo acordo celebrado por Boris Johnson prevê que o Ulster continuará aplicando alguns princípios europeus garantidos pela permanência na união aduaneira e no mercado único europeu, mesmo após o período de transição, que terminou em 31 de dezembro de 2020. 

A Irlanda do Norte pode usufruir de todas as vantagens da União Europeia (União Aduaneira e Mercado Comum) desde que os produtos aí permaneçam.  As mercadorias enviadas de um membro da UE para a Irlanda do Norte passam por poucos controles alfandegários, mas uma mercadoria que sai da Irlanda do Norte para chegar à Inglaterra, ou outra que sai da Inglaterra para chegar à Irlanda do Norte, passa por controles rigorosos.  Tudo deve ser verificado  

Tal situação não agrada os partidos conservadores protestantes, que alegam que isso pode fortalecer a identidade católica e reacender os movimentos separatistas. Mas a criação de uma fronteira rígida e controlada com o vizinho do Sul não elimina essa possibilidade. As incertezas desencadeiam sucessivos “espasmos sociais” nas ruas da capital Belfast.  No seu centenário, a Irlanda do Norte, pede calma. Os fantasmas do passado voltam a assombrar.

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