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Estado de Minas RESISTÊNCIA

'Porque há o direito ao grito. Então eu grito': o lugar do sentimento

Venho reivindicar meu direito inegociável de ocupar o lugar do sentimento desbragado, da intensidade das paixões, da sensibilidade aflorada e do choro incontido


14/09/2021 06:00 - atualizado 13/09/2021 19:10

Macabéa, interpretada por Laila Garin em 'A hora da estrela ou O canto de Macabéa'(foto: Daniel Barbosa/Divulgação)
Macabéa, interpretada por Laila Garin em 'A hora da estrela ou O canto de Macabéa' (foto: Daniel Barbosa/Divulgação)
 
No texto da semana passada escrevi sobre o amor. Na verdade, sobre como escolher amar é essa revolução toda, sim. E hoje me peguei pensando de novo nisso. Escrever uma coluna semanal é um desafio, você fica ali imersa numa rotina acelerada, as coisas todas acontecendo ao mesmo tempo.
 
Quando dá um respiro e você finalmente senta na frente do computador, um mundo salta na sua cabeça. Sem muita forma, sem muito jeito; as palavras carregadas da própria vida, ora muito falantes, verborrágicas, ora adormecidas, silenciosas. 
 

'Às mulheres, já está delimitado um lado; somos coração e isso é sistematicamente classificado como uma fraqueza, ainda que o tenhamos recebido quase como um título outorgado, uma sina, um fardo.'

 
Numa dessas avalanches de pensamentos, tentando aproveitar uma ideia ou outra para esse texto, fui ao amor e voltei, como um círculo que sempre se fecha sobre si mesmo. Um caracol de fogo, diria Hilda Hilst. O lugar do sentimento é sempre melindroso. Ficamos nesse embate da razão com o coração, declarando de antemão que a existência pacífica dessa dupla é inviável. 
 
Às mulheres, já está delimitado um lado; somos coração e isso é sistematicamente classificado como uma fraqueza, ainda que o tenhamos recebido quase como um título outorgado, uma sina, um fardo.
 
Aos homens, toda a força do ser racional, a cabeça pensante, o poder frio da escolha calculada. Obviamente todo produto dessa divisão ilusória confirmaria nosso destino menor, mais frágil, menos capaz.
  
Isso vai desde o mito da DR (discussão de relacionamento) sempre iniciada pela parceira chorosa, histérica, sentimental até as produções artísticas e intelectuais levadas menos a sério, pois intensas e sensíveis demais. 

E hoje não estou aqui para discutir com profundidade a estrutura violenta que sustenta esse edifício tão pesado do patriarcado. Venho para reivindicar meu direito inegociável de ocupar o lugar do sentimento desbragado, da intensidade das paixões, da sensibilidade aflorada e do choro incontido, sem que isso inviabilize a minha existência enquanto alguém que pensa, reflete e faz escolhas. 
 

'Bethania, declamando versos como quem morre, como quem ama, apropriando-se desse lugar da mulher intensa sem nenhum pudor.'

 
Sempre fui fascinada pelas mulheres que extrapolam tudo, o tempo todo. Essa incandescência que ilumina e aquece. Gal, sentada no banco com seu violão, pernas abertas, a saia puxada, o olho fixado cantando “Da maior importância” e repetindo como mantra que você não teve pique (e não sou eu quem vai).
 
Bethania, declamando versos como quem morre, como quem ama, apropriando-se desse lugar da mulher intensa sem nenhum pudor. Tulipa, que foi a performance mais transformadora que eu vi na vida, um pertencimento ao próprio corpo que ecoava no grito, na voz. Clarice, ensinando os modos de sentir. Hilda, revelando palavra dilacerante com sua escrita das entranhas. 

Quando comecei minha vida acadêmica tentei ao máximo camuflar meu texto pessoalizado e cheio de emoção. Em busca da escrita objetiva, fui criando estruturas de frases que freassem minha sanha por adjetivos, minha tara por advérbios e meu carinho especial pelos travessões e períodos longos.
 

'O silêncio da mulher guarda uma série de clichês culturais, sociais e institucionais sobre o nosso papel. Adestradas dentro do inaudível, circulamos dentro de espaços confinados, sem que nossas vozes ultrapassem a linha imaginária da norma, do poder, da autoridade.'

 
Mas não durou muito. Logo eu percebi, como pesquisadora, que todo processo de investigação de um objeto era uma investigação de mim mesma,  todo processo de construção de texto era uma construção de mim mesma. E me permiti usar mais adjetivos do que a média, porque eu sentia demais cada palavra e precisava achar um léxico que coubesse aquela sobra. 

O silêncio da mulher guarda uma série de clichês culturais, sociais e institucionais sobre o nosso papel. Adestradas dentro do inaudível, circulamos dentro de espaços confinados, sem que nossas vozes ultrapassem a linha imaginária da norma, do poder, da autoridade.  Por isso a urgência do sentir e do dizer sobre si e sobre o que vemos no mundo. A explosão de um discurso que busca a fluência e a ocupação dos lugares, a dissolução das estruturas, a liberdade, a resistência, a voz. 

“Porque há o direito ao grito.
Então eu grito”*

P.S: A frase/verso acima está em “A hora da estrela”, livro de Clarice Lispector que trouxe uma das personagens mais bonitas da literatura brasileira: Macabéa. 
 
*Silvia Michelle A. Bastos Barbosa (professora universitária nos cursos de Comunicação, Artes e Educação) 

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