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Estado de Minas DIVERSIDADE

De Jane Austen a Sarah Jessica: de incertezas também se faz uma feminista

'E eu me vejo num grande impasse, hoje, ao escrever e pensar o feminismo. Os feminismos.'


24/08/2021 06:00 - atualizado 24/08/2021 08:21

(foto: Max Nesh/AFP)
(foto: Max Nesh/AFP)
 
Pensando no escrever nesse texto, lembrei de como eu achava fascinante a Carrie Bradshaw escrever uma coluna no jornal, em Sex and the city. A personagem de Sarah Jessica Parker durante muito tempo alimentou muitos dos meus ideais de mulher jovem: o desejo de escrever como uma ocupação profissional; as roupas incríveis; a rotina sexual e a exposição aberta dos desejos. Tudo ali parecia um jeito muito festivo de existir e, principalmente, muito livre. E talvez eu tenha que admitir mais do que gostaria, que essa ideia de liberdade me acompanhou durante muito tempo. 

Uma liberdade puramente individual, incorporada a todos os padrões que permitem o trânsito socialmente confortável: o bom emprego, o bom corpo, o apartamento dos sonhos, viagens de férias, cafés no meio da tarde, muitas roupas pouco acessíveis. O grande marcador desse conceito de ‘ser uma mulher livre’ era o sexo. Elas sempre estavam às voltas com muitos parceiros, numa rotina sexual, digamos, empoderada - para usarmos uma palavra um pouco limitada, tanto quanto aquela nossa pretensa grande revolução. 
 

'Uma liberdade puramente individual, incorporada a todos os padrões que permitem o trânsito socialmente confortável: o bom emprego, o bom corpo, o apartamento dos sonhos, viagens de férias, cafés no meio da tarde, muitas roupas pouco acessíveis. O grande marcador desse conceito de 'ser uma mulher livre' era o sexo. Elas sempre estavam às voltas com muitos parceiros, numa rotina sexual, digamos, empoderada - para usarmos uma palavra um pouco limitada, tanto quanto aquela nossa pretensa grande revolução.'

 
Quando eu fazia meu mestrado, em meados de 2008, tive aula com uma professora maravilhosa (que veio a ser minha orientadora querida), dessas que tornam a aula um lugar de epifanias recorrentes. Suely, uma adorável senhora de mais de 70 anos à época, especialista em literatura inglesa e chás da tarde, falava efusivamente sobre Jane Austen e de quanto ela era bem mais revolucionária que todas as moças de Sex and the city juntas.
 
Ela lembrava de como a personagem Samantha, a mais livre sexualmente e menos conservadora nos costumes, foi conduzida para um lugar de adoecimento e redenção, tendo que passar pela experiência de um câncer para ver valor num relacionamento e numa vida mais tradicional. A gente se fascinava com os paralelos ali criados, e eu nunca me esqueci desse dia e do quanto essa fala iria reverberar nas outras tantas questões que cresceram em mim alguns anos depois.  

Esse não é um texto para criticar a série e nem falar o óbvio, de que ela sofreu muito a ação do tempo. Até porque eu ainda acho um produto divertido de entretenimento. Na verdade, esse nem é um texto sobre a série. Meu preâmbulo gigante é para dizer sobre como nosso entendimento sobre liberdade mudou. A liberdade que usamos como base fundante do pensamento feminista, é dela que eu falo. 
 

' Um dos principais foi a constatação reiterada de como minha ideia de liberdade está assentada no meu confortável lugar de mulher branca. E por mais que eu sustente um discurso que se pretende maior do que isso, usufruo em maior ou menor escala de todas as benesses que esse lugar me dá.'

 
 
E eu me vejo num grande impasse, hoje, ao escrever e pensar o feminismo. Os feminismos. Não há dúvida de que sou o que sou em razão de tudo que li e vivi a partir desse lugar de me reconhecer enquanto feminista. As pequenas desconstruções diárias; as leituras que movem todas as certezas de lugar; os encontros com outras tantas mulheres inquietantes e fundamentais; os desencontros e reencontros com o meu corpo e meus desejos; as reviravoltas em torno do que um dia chamei de liberdade. 

Mas tem um lugar escorregadio, em que tenho tentado firmar o pé para enxergar a mim mesma e em como tornar as tantas teorias que devoro em práticas possíveis, reais e justas. Talvez o meu desconforto tenha se acentuado, ou finalmente tenha ganhado uma forma concreta, depois de ler “Um feminismo decolonial”, da Françoise Vergés. Sobre esse livro ainda vou escrever em breve (ele vale uma coluna inteira), mas muitos foram os disparadores que me acertaram em cheio ali. Um dos principais foi a constatação reiterada de como minha ideia de liberdade está assentada no meu confortável lugar de mulher branca. E por mais que eu sustente um discurso que se pretende maior do que isso, usufruo em maior ou menor escala de todas as benesses que esse lugar me dá. 
 

'Despida de um punhado de certezas, repenso, reflito, corrijo a rota na busca pelos caminhos por onde percorrer, sempre lembrando a mim mesma do que já disse aqui num dos primeiros textos: ser feminista é lutar pela dissolução da estrutura capitalista, colonial e patriarcal que impede que todas as mulheres possam usufruir das conquistas que, individualmente, em algum momento possam ter nos libertado.'

 
 
Amadurecer querendo ser uma mulher sexualmente ativa e livre, dono do meu corpo e da minha independência, foi e é uma conquista relevante. Mas, não raro, ela veio acompanhada da sensação de missão cumprida. De um “chegamos lá”, esvaziado de reflexão e de sensibilidade para ler o mundo em volta. Um “chegamos lá” recheado pela minha branquitude autossuficiente, arrogante e muito integrada às estruturas de poder. Brindamos à liberdade sexual como um ponto de chegada, mas esquecemos a libertação do padrão de corpo pelo caminho.  Da libertação das mães. Das mulheres racializadas.

A angústia está em como mobilizar espaços de transformação real e imediata, sem me deixar anestesiar pela obviedade da minha limitação de ação, sempre amparada pelo razoável conforto do lugar de onde profiro meu discurso. Como professora, eu sempre acreditei no questionamento como lugar promissor de aprendizagem. Despida de um punhado de certezas, repenso, reflito, corrijo a rota na busca pelos caminhos por onde percorrer, sempre lembrando a mim mesma do que já disse aqui num dos primeiros textos: ser feminista é lutar pela dissolução da estrutura capitalista, colonial e patriarcal que impede que todas as mulheres possam usufruir das conquistas que, individualmente, em algum momento possam ter nos libertado. 


*Silvia Michelle A. Bastos Barbosa (professora universitária nos cursos de Comunicação, Artes e Educação)

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