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Estado de Minas ROBERTO BRANT

Economistas causam mais problemas do que benefícios

A sociedade não pode ser objeto de experimentações teóricas com graves efeitos na vida real das pessoas


postado em 03/02/2020 04:00 / atualizado em 03/02/2020 07:42

Crescimento econômico não é garantia de fim da pobreza e da desigualdade social(foto: BETO NOVAES/EM/D.A.PRESS )
Crescimento econômico não é garantia de fim da pobreza e da desigualdade social (foto: BETO NOVAES/EM/D.A.PRESS )

Não sabemos com certeza porque alguns países prosperam enquanto outros não conseguem superar a pobreza, ou se desenvolvem até um certo ponto e não conseguem seguir adiante. Quando olhamos para trás na história para compreender os diferentes casos de sucesso ou de fracasso, a multiplicidade de fatores envolvidos mais nos confunde do que esclarece. Cada nação com sua história, sua cultura, seus recursos, é quase sempre um caso único e sua experiência não fornece receitas que se pode replicar sem grandes adaptações.
 
As ciências sociais de um modo geral, e a economia muito particularmente, com o avanço das técnicas de computação e de construção de modelos matemáticos, têm exagerado sua capacidade de compreender a realidade e de mudá-la com base na razão e na ciência. Apesar disso, os políticos, hoje em dia geralmente muito pouco preparados, costumam depositar uma confiança cega nos economistas e nos cientistas sociais para resolver os problemas concretos que têm que enfrentar.
 
Há poucos dias deparei-me com uma advertência de grande humildade num texto de dois ganhadores do prêmio Nobel de Economia – Abhigit Banerjee e Esther Duflo: "Os economistas, nós próprios incluídos, gastam suas carreiras inteiras estudando o desenvolvimento e a pobreza, mas a verdade desconfortável é que ainda não se tem uma boa compreensão de por que algumas economias crescem e outras não. Não existe uma fórmula clara para o crescimento econômico."
 
O fato de o crescimento econômico ser um fenômeno complexo, cuja compreensão requer muito mais do que os recursos intelectuais de que dispõem os economistas e outros profissionais das ciências sociais, não significa que não possa haver políticas para o crescimento ou que estas não possam ter base na razão.
 
A economia tende a tratar as diferentes nações como entidades abstratas, às quais se aplicam as mesmas leis. A formação histórica e cultural imprimem nas sociedades marcas fortes e duradouras que influem nos resultados e nos efeitos das políticas.
 
Num livro editado recentemente, cujo título em português seria A hora dos economistas, o jornalista econômico americano Binyamin Appelbaum mostrou, com base em particular na experiência dos Estados Unidos, mas com incursões em outras partes do mundo, com destaque para o Chile, nosso vizinho, que a prevalência absoluta dos economistas na direção das diversas economias, a partir de 1970, provocou muito mais problemas do que benefícios, concluindo que as sociedades humanas não podem ser objeto de experimentações teóricas com graves efeitos na vida real das pessoas. As teorias ao final se mostram incompletas ou mesmo equivocadas, mas suas consequências perduram.
 
Até recentemente entre os economistas predominavam professores universitários ou servidores da burocracia do Estado, gente com uma visão mais aberta da vida econômica. Nos últimos tempos, a maioria tem vindo do mercado financeiro, que é o destino principal do pessoal com mais talento e ambição. O universo do mercado financeiro é muito diferente da economia real e da vida social. Ali o que predomina é o esforço máximo para antecipar os preços dos ativos financeiros e a busca pelo máximo ganho, que é a marca distintiva de status. Neste mundo é indiferente se a economia cresce ou não, se há desigualdade ou pobreza. O importante para o Estado é criar condições favoráveis para os agentes e investidores. Equilibrio e estabilidade são as palavras sagradas.
 
O crescimento econômico e a luta contra a desigualdade são quase sempre processos desestabilizadores, e nem sempre ocorrem num ambiente muito ordenado. Mas se quisermos nos tornar realmente uma nação, no verdadeiro sentido da palavra, crescimento e diminuição da desigualdade têm que ser nossos objetivos, nossa utopia verdadeiramente humana.
 
Para isso, não se dispensa o cuidado com as contas do governo, mas os destinatários das políticas públicas têm que ser os brasileiros que estão na base da pirâmide social e não os sábios da Avenida Faria Lima.

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