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O corpo que amamos também fala do corpo das verdades escondidas

Os sintomas, como enxaquecas, constipações, gastrites, dermatites e TPMs, falam de um sofrimento inconsciente e represado que não pode ser colocado em palavras


22/11/2020 04:00 - atualizado 20/11/2020 17:44

Um corpo vivo e falante nos leva onde queremos, nos representa diante do outro, uma máquina eficiente e silenciosa, nenhum barulho dos órgãos se faz escutar. Quando dá defeito, ficamos ameaçados, temerosos de não dar reparo. Quando ele para, é o nosso fim. E mesmo assim não pensamos muito sobre quanto o amamos, mesmo que suas formas não atendam aos padrões ideais da cultura do narcisismo e de nós mesmos.

Entretanto, somos sujeitos antes do corpo vir ao mundo e depois que falece. Quando nos esperam, falam de nós nos conferindo existência desde a gestação. E não somos só corpo, mas também alma. Anima é palavra latina que designa o animado e pensante do ser. Depois da morte, eternizados em sepultura ou cremados, ainda existiremos enquanto lembrados.

O corpo de nascimento, o organismo, ainda imaculado e sem marcas será impresso pelo toque, a voz, o olhar, enfim a presença de outro humano. Depois deste encontro, transforma-se. As marcas deste contato fazem ranhuras, marcando as sendas por onde passarão os desfiladeiros da palavra. A linguagem nos diferencia dos outros animais. Pela linguagem adentramos a cultura.

Embora críticos em relação ao corpo e insatisfeitos com a forma e imagem que não atendem aos ideais, ainda assim o amamos. E todas as queixas contudo se esvaem para protegê-lo do perigo, da fragilidade, e do adoecimento. Diante do risco de perdê-lo, já não importa se somos desejáveis ou não. Restabelecer o funcionamento do corpo é prioridade. Mesmo torto e manco. Não podemos viver sem ele, pois é o suporte da vida. Se a máquina para, se acaba, a alma vai-se.

Os casos de hipocondria, por exemplo, demonstram a preocupação intensa com o corpo. O adoecimento vem com a mania de contágio a partir de tudo que se lê ou que se escuta sobre doenças, vem com o pavor de o corpo sofrer e perecer. Se um hipocondríaco ler um dicionário médico é capaz de se sentir doente por tudo que lê, imaginariamente. Mas é como se fosse. Sofre como se estivesse condenado à doença somente ao escutar o nome.

Na anorexia, o sujeito “come nada”. E assim ele pode enfrentar e barrar a onipotência da demanda de um outro controlador e vigilante, fazendo limite ao outro, alcança certa liberdade, mesmo que imaginário e com alto custo para si mesmo. Esta resposta atesta ao mesmo tempo aprisionamento. A recusa do alimento é imperativa. O corpo faz frente à demanda do outro. E o corpo distorcido no espelho exige mais ainda. É o grande regulador da alienação-separação.

Também nós que nos acreditamos “normais” temos um corpo que fala do corpo das verdades escondidas. Os sintomas são a prova deste incontestável fato ou ato. Como as enxaquecas, constipações, gastrites, dermatites, TPMs, entre tantos outros acontecimentos que têm o corpo como sede.

Estes acontecimentos no corpo falam de um sofrimento causado por algum motivo que, inconsciente e represado, não pode ser colocado em palavras. Os sintomas, a angústia e a ansiedade são recursos que se fazem escutar, nos obrigam a isso pela via do mal-estar. Mesmo assim muitos preferem remediar...



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