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O artigo de Duvivier e a liberdade de expressão nas escolas

Não vi motivos para protestos ou anulação da prova pelo Colégio Loyola


postado em 20/10/2019 04:00

A filosofia grega surgiu no século 7 a.C. e até hoje influencia o mundo ocidental, o pensamento de grandes filósofos, seus conceitos e ideias. A escola grega estoica, chamada Stoá, que significa pórtico, foi fundada por Zenon e funcionava em praça pública. Seu único marco era o pórtico por onde se entrava. Não tinha teto nem paredes, era ao ar livre. Era como aquela casa engraçada da música de Vinicius de Moraes.

Ali passeavam e conversavam os filósofos. Falavam de tudo e de nada, andando pelos jardins daquela praça ou se reunindo para escutar uns aos outros. Enfatizavam a paz de espírito, a autossuficiência; sua “virtude” era a felicidade. Muito se aprendia ali. Se compararmos as escolas gregas com as atuais, veremos estruturas rígidas que hoje impõem um tipo de enquadramento pedagógico massificante e adaptacionista, esperando formar o cidadão padrão. O pensamento é dirigido para atender interesses mercadológicos. Resta saber se isso é bom ou ruim.

Desconfio ser muito limitadora a experiência de crianças e adolescentes em sala de aula com um currículo rígido e leituras sob a vigilância sabe-se lá de que visão de mundo. De qualquer modo, a escola é um excelente lugar para aprender a se relacionar e fazer laços fora da família. Essa é a melhor parte, no meu entendimento. Reconheço a importância da transmissão do conhecimento, mas questiono a forma.

Admirei-me ao receber no meu zap uma prova – anulada – do Colégio Loyola, em que Gregório Duvivier pede licença para fazer uma autoajuda. O artigo está disponível nas redes sociais. Pareceu-me que falava para si mesmo, criticando o momento atual do país. Pensava nisso questionando-se sobre ficar p... da vida ou triste, sobre a tristeza transformada em raiva e ódio e vice-versa.

Sempre falo sobre isso e gostei do texto. Não vi motivos para protesto nem anulação, mas esta é minha opinião, como a do Gregório também é. Estamos em uma democracia. O que importa aqui é a dificuldade de ficar triste e de a tristeza ser revertida em raiva e ódio. Muitas pessoas recusam a dor de uma perda ou de ser contrariado e reagem com raiva, sendo esta uma defesa contra a tristeza.

É difícil sentir a dor e elaborá-la como coisa da vida. Parece mais fácil procurar culpados. Para alguns, a insuportável dor gera violência. Por isso temos visto tamanha violência nos dias de hoje. Feminicídio, homicídios, suicídios.

Nas escolas, deveriam falar mais sobre a multiplicidade da verdade, permitindo opiniões diversas. Devemos falar sobre tudo com crianças e adolescentes a fim de prepará-los para a vida como ela é. Falar sobre sentimentos, escolhas, separações, pois ali se prepara o estudante para a vida e não só para o vestibular. Ou para ser de direita ou de esquerda. Ou até Atlético ou Cruzeiro.
Muitos pais desejam enormemente que os filhos pensem como eles. Porém, a melhor coisa é ensinar a pensar e permitir escolhas que estejam em concordância com o desejo íntimo e particular de cada um. Não podemos manipular o desejo de uma pessoa ou reprimir aquilo que ela deseja sem o risco de causar a perda do desejo de viver. A extinção do desejo é sinônimo de depressão.
Por isso, precisamos de professores que se arrisquem a dialogar sobre o que se passa no mundo, sem falsear a verdade que está diariamente às claras nos jornais e TVs, para que a escola não caia num tipo de alienação. É preciso deixar a palavra livre. A palavra presa adoece. A castração do pensamento diminui o homem.

Ninguém pode determinar o que o outro deve desejar. Por isso, muitos adolescentes brigam com os pais e até desistem da vida. Muitos casais se separam porque não podem amar alguém que deseja coisas diferentes. Não existe desejo igual, cada um tem o seu. Há pontos comuns, o resto é diferença. Não se pode doutrinar o desejo.

Acredito que o artigo referido acima, publicado na Folha de S. Paulo, é a reflexão de uma pessoa que pensa no que vive e fala o que sente. Creio que os estudantes precisam aprender a criticar o que leem. Qualquer texto de qualquer autor servirá para educar e ensinar caso seja bem aproveitado, ou seja, faça pensar. A censura limita e torna o fruto proibido cobiçado, além de manipular ideologias.

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