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Estado de Minas MÍDIA E PODER

De qual senador da CPI da Pandemia você compraria um carro usado?

Minha escolha entre o grupo de inquisidores da CPI que massacraram Nise Yamaguchi como numa algaravia de vendedores de peças falsas na feira de Acari


03/06/2021 06:00 - atualizado 03/06/2021 08:32

É um jogo de dissimulação, com variados graus de transparência(foto: Marcelo Camargo/Agencia Brasil)
É um jogo de dissimulação, com variados graus de transparência (foto: Marcelo Camargo/Agencia Brasil)
Passei a CPI da Covid calculando de qual dos senadores eu compraria um carro usado. É o mais famoso tipo de troca humana utilizado como método infalível de conhecer o caráter dos homens.

É um jogo de dissimulação, com variados graus de transparência. No mais singelo, omite-se um pequeno defeito, no mais grave, entrega-se o carro sem um tapete ou uma calota, depois do combinado.

Em que a honestidade é quase sempre exceção ou descuido. Como já disse Millôr Fernandes a respeito de políticos, que caberia em vendedores de carros:

— Por mais hábil que seja, o político (ou o vendedor de carros) acaba sempre cometendo alguma sinceridade.

Confesso que comecei disposto a comprar do médico Otto Alencar, do PSD da Bahia, influenciado por seus cabelos brancos e alguns vídeos isolados de um desempenho firme, embasado e respeitoso contra depoentes anteriores.

De antemão sabia que não compraria de pelo menos três: do senador da Rede do Amapá Randolfe Rodrigues, do presidente Omar Aziz e do relator Renan Calheiros.

Não porque fossem capazes de ficar com uma calota (no meu tempo, tirava-se o rádio, destacável), esconder um tapete ou omitir um ronco depois de determinada velocidade. Não quis levar em consideração suas vidas pregressas ou eventuais processos na justiça.

Randolfe tem um jeito meio histérico de condenar nos outros os meios que utiliza. Se pedem a convocação ilegal de governadores por retaliação, ele retalia pedindo a convocação do presidente da República, que também não pode.

Para irritá-los um pouco mais, avança sobre outras convocações sabidamente equivocadas, porque fora do foco da comissão, como a do ex-ministro da Saúde que participou de motociata ou a do presidente da CBF que aceitou realizar a Copa América no solo da pandemia.

Se o adversário reage, grita mais do que ele. Como se eu perguntasse alguma coisa sobre um arranhão no paralama traseiro, e ele, reativo:

— Você nunca teve carro com arranhão, não?

Omar Aziz é o juiz que toma partido e aproveita oportunidades de de uma autopromoção midiática em cima das acusações mais duras dos outros. Num campo de futebol, seria o juiz que apita faltas discutíveis em favor do time da casa.

Numa tentativa de venda, se não estivesse promovendo carro alheio, diria que só está me vendendo porque foi com a minha cara. 

Já Renan não me deixaria falar. Tem uma mistura de retardo mental de quem não presta atenção no comprador, interrompe quando o interlocutor tenta costurar o raciocínio e é maligno para repetir a mesma pergunta de diferentes formas e maldades até forçar uma contradição.

Perguntaria que tipo de carro procuro e me interromperia quantas vezes fossem necessárias para induzir ao modelo que tem em estoque. Apoia-se numa retaguarda também maligna para descosturar meu raciocínio e provar que minha lógica de carro ideal está errada.

Nise Yamaguchi só conseguiu começar a depor aos 102 minutos de uma reunião que gastou a primeira hora discutindo o que não é de sua competência, a Copa América.

Os senadores que querem punir o presidente da República por erros passados procuram uma forma de culpá-lo pelos futuros.

Em menos de 30 segundos, quando encaminhava a resposta à primeira investida de Renan, sobre imunidade de  rebanho, a médica de 40 anos de história científica foi interrompida pelo senador Rogério Carvalho.

Estava disposto a ensiná-la que, não, doutora, vírus não produz imunidade. E, ante a tentativa dela de entrar no assunto quuando ainda ia pelos 20 segundos de fala ("eu disse que..."), ele: "não, não, doutora, a senhora disse que..."

Como seu colega mais antigo e mais vistoso do PT, Humberto Costa, é do tipo que tira uma frase do contexto, enfatiza, expõe algum documento, faz palanque. Numa eventual venda de um Marea antigo, seria bem capaz de subir no capô para discursar sobre suas vantagens.

Passado o bate-boca que consumiu mais alguns minutos, Renan mandou exibir alguns trechos mínimos de entrevistas da médica sobre imunidade de rebanho e tentou colocá-la na cena do crime — o tal gabinete paralelo de que ela teria participado para recomendar ao presidente, tratamento precoce e a tal imunidade.

Na primeira tentativa em que ela tenta contextualizar, ele pede que ela apenas diga "sim" ou "não", se opinou a favor dessa imunidade. Quando ela tenta organizar o raciocínio para dizer que falou em determinada circunstância, ele inquire como se ela tivesse inventado a expressão e o fenômeno, embutido a resposta:

—  Então, a senhora é a favor da imunidade de rebanho?

Ela tenta dizer que não se trata de opinião, mas de uma realidade…

— A senhora acha que essa era a estratégia do governo? — corta.

Passa um vídeo inadequado para a hora, a não ser para efeito fora da CPI, e sabidamente conhecido de falas de Jair Bolsonaro minimizando vírus, máscaras e lockdown. Para lhe pedir o que também não cabia à depoente:

— A senhora concorda com essas opiniões...?

Ela diz que não lhe compete emitir esse tipo de opinião. Tenta dizer que opiniões pertencem a quem dá, etc… Ele corta de novo. Pede mais objetividade:

— A senhora quer dizer que não considera essas opiniões erradas? 

— Não. Eu quero dizer que não me compete discutir isso.

Com muita dificuldade, sem prestar atenção senão nas falas iniciais dela para retrucar, diz que vai formular de outra maneira. Enfim e de forma mais correta:

— A senhora acha que essa era a estratégia do governo?

E, em seguida, numa nova tentativa dela de emendar sua lógica, induz de novo a resposta na pergunta:

— Acha que foi uma opinião acertada?

Quando ela volta a reagir que não lhe cabe dar opinião política, mas científica, ele abre os braços, vira os olhos para o teto e o tronco para a plateia, numa encenação de busca de apoio. Como se dissesse: "Eu até tentei..."

— A senhora não está respondendo — acusa, sem conseguir que seu primeiro neurônio comunique ao segundo que era exatamente o que ela estava tentando fazer.

No que desanda para o bate-boca que é praxe nesse tribunal de vendedores de ilusões que mal consegue fazer uma reunião consequente.

O senador Jorginho Mello, do PL de Santa Catarina, de quem eu até compraria um carro não fosse um tanto prolixo, tenta aconselhá-la no que não é seu forte: deixar de responder de forma prolixa. "Diga sim ou não."

Mais alguns barracos em que o presidente tira mais algumas casquinhas midiáticas e já lá se foram uma hora de depoimento e duas horas e uns cinco minutos de reunião. Até o ponto em que a senadora Leilane Barros chega de seu gabinete revoltada, para pedir um pouco de respeito e ordem na bagunça.

— Ela não consegue completar um raciocínio. 

Omar ainda tenta repreendê-la, apitando em favor do time da casa, mas ela corta dura e segura de que vinha percebendo o desrespeito desde seu gabinete. 

A partir daí, a coisa anda a seu moto próprio, de performances individuais quase sempre para uso externo, na dança de pavão em que a maioria de Suas Excelências é craque. 

A essa altura, eu já sabia que também não compraria um carro do primeiro vendedor de minha preferência, o médico Otto. Pior do que Renan que não deixa o comprador falar, usa toda a sua retórica para agredi-lo.

Foi patético, para dizer o mínimo de sua fala inquisitorial e pedante, pedir à cientista de uma vida dedicada à Ciência que explicasse a diferença entre um vírus e um protozoário. 

Numa eventual transação para colocar fora um Sedan de motorista pago com dinheiro público e desqualificar meus argumentos, me perguntaria se sei a diferença entre um cabeçote e uma biela.

A boba, com seu jeito tranquilo que parece bobo, perdida num monte de papéis, ainda se deu o trabalho de pedir para responder, quando pôde.

Tudo somado e calculado, uma reunião de sete horas poderia ter se esgotado em 30 minutos, dada a irrelevância técnica da convidada. Até porque, como confessou o presidente Aziz, num ato falho: "não vamos mudar nossa opinião, mesmo".

E acabo por concluir que não compraria de nenhum dos senadores da tropa de choque do governo, por motivos óbvios. Fariam elogio de autenticidade com a mesma veemência de vendedores de peças falsas na feira de Acari.

Alguém que se veste com tal elegância, refletida nos gestos e na abordagem honesta com a depoente de quem diverge, não deve mentir sobre arranhões ou roncos ocultos. 

Se Renan seria a última pessoa de quem eu compraria um carro usado e jamais seria gerente de minha oficina, é quase certo que eu compraria de Alessandro Vieira.

O policial do Sergipe, do Cidadania, é igualmente elegante nos gestos e na abordagem, igualmente bem vestido. Utiliza informação de qualidade como arma de interrogatório e desmonte da testemunha. Não para uso de intenções ocultas.

Tolerante com as dificuldades ou as tentativas sutis ou involuntárias da pobre senhora, confusa entre seus papéis, de dissimular:

— Tudo bem — disse, depois de perceber o desarranjo dela para localizar um estudo. — Estou vendo que a senhora está tendo dificuldades. Depois a senhora manda para a CPI.

Como na grande frase de Millôr, não parecia estar fazendo força para ser honesto.

Tentava o que é raro em seus colegas, sem o tipo de tumulto e maldade para uso pessoal inerente a essa classe de vendedores pouco confiáveis que ajuda a explicar por que essa é a instituição mais desmoralizada da República.

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