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Estado de Minas COLUNA

Está tudo muito caro, mas a atividade econômica está fraca

Considerando o estrago que pode representar a perda do controle da inflação, parece razoável esperar um aumento da Selic de pelo menos 5 pontos-base


16/03/2021 04:00 - atualizado 16/03/2021 07:23

Consumidores têm percebido o aumento nos preços dos alimentos, e pressão no atacado mostra necessidade de ação(foto: Túlio Santos/EM/D.A Press 25/1/21 )
Consumidores têm percebido o aumento nos preços dos alimentos, e pressão no atacado mostra necessidade de ação (foto: Túlio Santos/EM/D.A Press 25/1/21 )


É ou não é hora de iniciar uma temporada de elevação da Selic, a taxa básica de juros da economia? Estão sobre a mesa do presidente e dos diretores do Banco Central (BC), que fazem hoje e amanhã mais uma reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), os dados que vão orientar a resposta a essa difícil decisão.
 
Se mantida, a atual taxa de 2% ano, a mais baixa da história recente da política monetária do país, vai sobreviver à sexta reunião seguida desse colegiado. A sessão que estabeleceu a atual taxa básica, em agosto de 2020, foi precedida por uma longa sequência de cortes, iniciada em outubro de 2016, quando a Selic estava em 14,25% ao ano.
 
A taxa básica de juros é um dos mais importantes instrumentos da política monetária com base no regime de metas anuais, adotada no Brasil e outros 25 países desenvolvidos e emergentes. Ao regular o custo do dinheiro (crédito), a autoridade pode estimular ou desacelerar a produção e o consumo e, com eles, os preços.
 
Num país como o nosso, de sofrida memória inflacionária, a preocupação com a elevação geral dos preços precisa ser rigorosa e constante. Nem todo governo leva isso a sério e acaba por fraquejar no combate à inflação. Essa é, aliás, uma das razões para que o BC, como autoridade monetária, deva ser independente, livre de interferências políticas e tecnicamente dirigido.
 
Mas, como ocorre com a maioria dos remédios eficazes, a regulação dos juros básicos – assim chamados porque é a partir deles que os bancos definem quanto cobrar pelo dinheiro que emprestam – também pode produzir efeitos colaterais negativos. O principal deles é o desestímulo aos investimentos na produção e no comércio, incluindo o crédito para capital de giro dos negócios.
 
Ou seja, a dosagem do remédio pode transformá-lo em veneno, por falta ou por excesso. Um corte expressivo na taxa de juros será sempre precipitado quando o cenário é de preços em ascensão. Foi o que ocorreu em agosto de 2011, numa histórica interferência política que tirou dos trilhos a política monetária.
 
O que vivemos hoje no Brasil, após duas recessões (uma por erros de gestão da economia e outra por gastos com a crise sanitária), é uma dúvida parecida, mas em sentido oposto. Agora, não são os juros que estão altos, mas é a inflação que ameaça sair de controle. Uma dúvida é saber qual o tamanho dessa ameaça. Outra: se for necessário aumentar os juros, qual deve ser o percentual, isto é, qual a dosagem segura do remédio?.

Inflação

A esta altura da evolução dos preços no Brasil, parece ter razão a voz da maioria das pessoas ao dizer que tudo está muito caro. Normalmente, essa sensação do consumidor de estar pagando mais pelas mesmas coisas é percebida em relação aos hortifrutigranjeiros e às carnes. São produtos sujeitos à variação da oferta nas entressafras, problema que se autocorrige com o tempo.
 
É o que vem ocorrendo desde o fim do ano passado. Só que, desta vez, a corrida dos preços não parou. Pelo contrário, o que os termômetros confiáveis estão indicando é que a onda de aumentos vem se espalhando por vários setores. E, desta vez, isso ocorre apesar da pandemia que desempregou milhões de pessoas e reduziu as compras de suas famílias.
Se havia alguma dúvida de que a paralisação por vários meses de muitos setores da produção e a valorização do dólar acabariam cobrando seu preço, a divulgação na semana passada do Índice Geral de Preços de Mercado (IGPM) dos primeiros 10 dias de março acendeu o sinal de perigo. Ele revela que há uma acumulação de aumentos no atacado, prontos para descer para o varejo.
 
A melhor maneira de medir esse perigo é considerar a elevação acumulada nos últimos 12 meses. Por essa medida, o IGPM fechou a primeira prévia de março com alta de 29,83%. Na formação desse índice, os preços no atacado respondem por 60% e, neste ano, vários insumos usados pela indústria e pela agricultura estão em alta. É, portanto, uma diferença muito grande em relação aos 5,20% acumulados pelos preços no varejo. Nem tudo será repassado de uma vez, mas o sinal é de que algum freio precisa ser logo acionado.

Retomada

O problema é que nunca a economia precisou tanto de estímulos para iniciar a retomada como agora. Afinal, o Produto Interno Bruto (PIB) caiu 4,1% em 2020 e a pandemia ainda levará alguns meses para nos deixar. Temos uma dívida bruta de inéditos R$ 6,6 trilhões e, só para este ano, o déficit primário ronda os R$ 250 bilhões.
 
Graças à pandemia, não há corte de despesas que chegue perto das atuais necessidades de financiamento do poder público. Isso torna a saída da crise e do desemprego ainda mais dependente da retomada das atividades econômicas. Quer dizer que, por esse lado, não seria esta uma boa hora para subir os juros.
 
Diante desse dilema, cada um põe mais peso em seu lado preferido da balança. Considerando o estrago que pode representar a perda do controle da inflação, parece razoável esperar um aumento da Selic de pelo menos 5 pontos-base. Mas isso é tarefa para o Banco Central, agora mais independente do que nunca.

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