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Estado de Minas OPINIÃO

Quem desorganiza o mundo e pressiona o preço do petróleo e de alimentos

'A inflação é um pernilongo que pousa, pica e deixa ali coçando, podendo virar infecção grave'


08/05/2022 04:00

Comerciantes trabalham no pregão da Bolsa de Valores de Nova York durante as negociações da manhã em 5 de maio de 2022 na cidade de Nova York.
'O Federal Reserve (FED) elevou os juros nos EUA em 0,5 pontos, a maior alta em 22 anos' (foto: Michael M. Santiago/Getty Images/AFP)

Com muito atraso, o Federal Reserve (FED) elevou os juros nos EUA em 0,5 pontos, a maior alta em 22 anos, para enfrentar a pior inflação em 40 anos. Prometeu ainda aumentos adicionais nas próximas reuniões, uma postura mais conservadora na política monetária, demonstrando mais atitude do que declarações. A expectativa é que os juros cheguem a 3,5% no final do ano. Com a economia, apesar de tudo forte, o inquieto mercado norte-americano assimila o aumento com mais tranquilidade, mas espalha pânico no mundo.

A inflação ao consumidor no país mostra estabilidade com energia e comodities como os vilões. O problema é o aumento, ainda maior, do custo dos empréstimos para o consumidor e as empresas, atingindo em cheio imóveis, cartões de crédito e automóveis.

Em um país rico de vida cara, o Banco Central reage sem precisar de inteligência e criatividade, igual ao que faz o BC brasileiro, outro samba de uma nota só. O aperto monetário é o único guru poderoso para derrubar o consumo e evitar a recessão. A inflação é um pernilongo que pousa, pica e deixa ali coçando, podendo virar infecção grave.

guerra absurda de Putin na Europa, além da morte imediata que espalha pela Ucrânia, pressiona o preço do petróleo e de alimentos, contribui decisivamente para desorganizar o mundo, ameaçando os mais pobres. Mas atinge, de alguma forma, a todos.

A China contribui também para a bagunça político-econômica mundial tanto pelos bloqueios que impõe em virtude da Covid que não arrefece, como pela característica ultra intervencionista da política interna atual. Provocou interrupções na cadeia de suprimentos, encareceu fretes, endureceu a repressão contra opositores, dificultou a concessão de vistos de entrada a estrangeiros.

E convive, cada vez mais, com a certeza de que o país não vai conseguir atingir a meta de crescimento de 5,5% em 2022. Como as principais forças do crescimento são investimentos no setor imobiliário, consumo das famílias e exportações, restrições fortes para compra e venda de propriedades e imóveis, mercado de trabalho mais fraco, surtos de covid e restrições governamentais nas empresas mais produtivas, devem levar o crescimento para bem abaixo do previsto.

A situação se agrava porque a parceria Xi-Putin está de pé e demonstra que o esquerdismo oriental não descansa e ainda é mais forte do que o diálogo.

Especialmente quando chamam invasão de país de “busca de resultados estratégicos”. A Europa é a região mais atingida pelos efeitos econômicos do descontrole emocional da Rússia. Novas previsões para crescimento econômico já levam em consideração uma forte queda no crescimento da região. Além disso, a expectativa de inflação cresceu com algum risco de estagflação. Sem contar que o preconceito contra imigrantes se agrava.

O Brasil não emenda e não sabe se comportar internacionalmente. Os dados da economia não são bons. Indústria caiu, mesmo com exportações em alta. O mercado permanece bem fraco gerando preocupação em toda a cadeia do setor automotivo. Comércio um pouco melhor, mas ainda abaixo de 2021.

Um consumidor com dificuldades em virtude da queda real de salários, endividamento, mercado de trabalho fraco e juros em forte elevação. Sem preço e renda é difícil convencer alguém a ser consumidor. O fantasma da inflação alta e da remarcação voltou.

Estocar e fazer despensa fica cada vez mais difícil. Mudar de marca, comprar no bairro, usar pouco carro mostra o que é a inflação e como começa a queda da qualidade de vida da população.

Em outubro tem eleição com forte característica e superficialidade doutrinária, mas diferente do que vemos em países europeus e nos EUA. Lá a doutrina se dá por diferentes visões de política, enquanto no Brasil por antagonismo e rixa. Esse tipo de eleição diminui o peso da argumentação econômica e gera um debate com menos conteúdo e densidade.

O baixo orgulho que a lei e a ordem despertam no país explica porque a noção de dever e responsabilidade com o futuro estão escancaradamente mal situados no discurso dos candidatos. Eleição dogmática não deixa espaço para escolha programática.

E para piorar tudo, a convergência sem ambiguidade dos dois principais candidatos à presidência apoiando a Guerra da Rússia revela o nível do humanismo na cabeça do líder. Há opiniões que expressam a alma. E guerra é o fim da política, a decisão de matar e engolir o sol dos outros. É neste clima de desorganização e símbolos ruins que o brasileiro passará pela torrente de melancolia até as urnas de outubro.
(Com Henrique Delgado)

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